Thursday, November 23, 2017

EFEMÉRIDE COM ASAS & GARRAS - Rosário Breve n.º 531 in O RIBATEJO de 23 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Efeméride com asas & garras



Novembro é muito mnemónico para mim, tirante os outros onze meses de cada anuário. Vós tendes lido que sim, não ireis agora desmentir-me sem sequer me dar cá por esta palha.
Foi a 1 de Novembro de 1981. Sétimo de sete filhos, era eu finalmente dono & senhor do meu quarto de celibatário sem pulsões esquisitas de adolescente esquizóide.
Seis meses antes dessa fatídica data, um pardal perdido escabeceara em desespero a vidraça da minha janela. Não tinha leme de navegação. Isto é: não tinha cauda. Recolhi-o na terra como quem colhe do céu uma esmeralda castanha. Dizem que os pardais não são de cativeiro. Coitados. Percebem nada da coisa. Os pardais, como as pessoas que o mereçam, são de quem os ame – mesmo sem rabo. E cativeiro nunca foi amor, a não ser nas Endechas que Camões dedicou a Bárbara.
Chamei-lhe Cachopo. Nunca mais saímos do quarto, claro. Acabei o 12.º ano com a dificuldade própria dos maridos emigrados no Luxemburgo que deixam na aldeia as mulheres ao deus-não-dará. Durante aquele feliz semestre irrepetível, o meu Pardal escagaçou com alegria a minha colecção completa das Obras idem do meu amado Eça. E o meu Conan Doyle todo do meu Sherlock. E os meus primeiros Cortázar, Calvino, Camilo, Camus: todos por C como o meu Cachopo.
Dava-lhe água de beber pela boca. Pela minha boca, digo. Ele sentia o copo a içar-se aos meus lábios. Vinha logo, torto como o bêbedo que eu vim a ser, poisar-me na cabeça. Descia-me a orelha pela suíça. E bebia-me da boca como jamais mulher alguma foi jamais capaz de fazê-lo.
As moscas gordas desse Verão foram a nossa comum alegria carnívora. Nunca spray-fumiguei o meu quarto. Não, nada disso. Esperava por elas entre vidraça e cortinados. Esmagava-as com a delicadeza que me é própria e que Vós tão bem sentis nestas crónicas lacrimosas. Depois, sobre o mesmo papel onde eu já então escrevivia os meus versos ilegíveis, dispunha-as em parada de morgue. O Pardal vinha comê-las, uma a uma, como quem vai ali à cervejaria comer devagar o bife-da-casa. O resto era A&A&A: Água, Arroz & Amor. 
A 1 de Novembro de 1981, comigo fora de casa, o meu Irmão Fernando deixou-me entreaberta a porta do quarto. Em casa de meus Pais, não trancávamos portas. Era como (não) fazíamos ao coração – o que deu no que nos (não) deu para o resto da vida.
Um gato vizinho entrou e matou-(m)o. Dei com o meu Pardal sob as patas do felino, morto já e pronto a ser comido como uma mosca das que eu criava para ele. Pontapeei o gato com a força do desespero. O desespero deu para o gato ir bater no caule do cedro a cinco metros de lonjura. Não consegui acabar de assassinar o assassino. Mas nem eu era Cristo, nem o meu Cachopo podia ser Lázaro. Sepultei-o à vista da janela do quarto que foi nosso. Usei uma caixa-de-fósforos de cozinha como ataúde. Não orei por ele: Deus não existe.
Depois disso, o mesmo gato levou-me o meu Irmão Jorge & os meus Pais. Mais alguns Amigos. É um gato P&P&P: persistente, profissional, permanente.
E nunca tem o rabo de fora, como Deus costuma ter.


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