Wednesday, October 11, 2017

(f)Actos da minha vida - Rosário Breve n.º 525 in O RIBATEJO de 12 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt



(f)Actos da minha vida



1 Descalço, saltei do muro para a banda do monte, cortei-me no pé direito, sangrei muito – e ainda sangro. Não singro, mas sangro.

2 Abraçava os meus cães & os alheios, beijava-os no rosto, sentia deles o frémito humano, olhos de quem entendia o que se lhes dava: como tão pouca gente-gente entende. Ou é beijada.

3 Aprendendo a fumar (às ocultas do entardenoitecer, encostado ao portão da quinta), volvi-me, até estatu(t)ariamente, uma imitação de adulto. Continuo ambos: fumador & simulacro.

4 Os mendigos batiam-nos à porta muito delicadamente. Se era meu Pai a atendê-los, tinham menos má-sorte. Se era minha Mãe, pobre ela também, tinham boas palavras e não mais que cinco tostões. Se era eu, aprendia a ser delicado no bater às portas. Até hoje.

5 As raparigas: deixando de ser meninas, obrigaram-me a tornar-me rapaz. Em paz elas & eu, agora.

6 A Muda dos Tremoços: esperta, ladina, pobre – mas sobrevivente, criadora de gente, de si mesma banca & fruto & sal & tostão.

7 O Leandro Jardineiro: bêbado, blasfemo, praguejador, admoestador, terror das crianças – um vero santo católico, portanto.

8 Na vertical, era, naquela altura, um colosso: seis pisos de armazenamento industrial. Um deles, de botijas de gás. Deu-se o incêndio. O povo foi ver. Eu também era povo. De súbito, a explosão: foi a nossa Hiroshima. Mais de quarenta anos passados, continua a ser o raso chão a que se viu desfeito. E nós japoneses, por assim dizer.

9 O sr. Eduardo da Rua do Leitão que morreu na linha: vinha apeado da bicicleta para a travessia, deixou passar o primeiro comboio, não contava com o segundo. O povo foi ver. Eu também era povo. Aquele lençol da mulher-guarda-da-linha guardando o mistério do corpo, a escandalosa rosa de sangue florindo o pano: inesquecível floricultura.

10 A minha Irmã, de blusa verde, menina & moça qual rouxinol-bernardino, à janela. Sem pose, alheia ao fotógrafo: rosa verde, antítese daquela que vi no lençol da morte ferroviária.

11 Naquele tempo infante, os Verões não eram a calamidade pública que hoje são. Os Julhos eram passados na Figueira da Foz. A Mãe arrendava a mesma casa. Aos fins-de-semana, o Pai reunia-se-nos. Isso não volta. Eu não era, então, a calamidade privada que hoje sou. Mas a Mãe era o Verão. Em pessoa. E é ao sol dela que escrevo quanto escrevo. O Pai chega sábado.

12 Linda como uma conspiração de açucareiros, aquela Maria dos meus dezassete anos embebedou de clorofila a incipiente árvore púbere do meu coração. Depois, rachou-ma em cavacos imprestáveis até para outros lumes. Habituei-me a sentir-me embebedado. Por Ela. Sem Ela. Contra Ela. E contra mim, em minúsculo pronome.

13 Os Irmãos: seis, todos mais velhos – ou, por assim dizer, os meus mais recentes & mais vitalícios antepassados.

14 A Minha-Rua: era um país. É hoje um desconsolado consulado de marcianos que não falam a Língua nem se lembram dos senhores Nunes, Catarino, Gonçalves, Velindro, Pimentel, Ribeiro, Alcides, Pereira, Morais, Sério, Botelho, Alfredo, Sacramento, Carvalho, Abrunheiro.

15 Quando chovia: o cedro do meu prédio semelhava uma labareda negra de verd’outrora à Van Gogh; as mulheres zumbiam no recolher à pressa das camisas crucificadas do estendal; o senhor Carlos da taberna-carvoaria cainhava gemebundamente: “Estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover-estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover”; e o cedro do meu quintal era o senhor Carlos a cainhar mas em versão Vincent de cinema-mudo.


16 As Fábricas: morreram todas. Corrijo: mataram-nas. Foi então que vieram os marcianos. E foi então que veio a outra Língua, que de nomes antigos nada sabe nem a cedros à chuva entende, quando o céu chove como a olhos acontece, certas vezes. Ou a cães, quando beijados.

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