Thursday, July 06, 2017

OXALÁ QUE PERGUNTAR OFENDA - Rosário Breve n.º 513 in O RIBATEJO de 6 de Julho de 2017 - www.oribatejo.pt





Oxalá que perguntar ofenda





1 Sei as respostas, mas faço as perguntas na mesma:
a) Não seria bem mais acertado gastar em bombeiros o que se gasta em tropa, gastando em tropa o que se gasta em bombeiros?
b) Se a tropa nem as próprias armas consegue guardar, a tropa serve para quê e/ou a quem?
c) Um bombeiro vale quantos generais?

2 A pergunta da alínea a) chega a ser pouco discutível. Chega o calor, esfregam as mãos os privados que alugam meios aéreos por uma fortuna. Ao mesmo tempo, as aeronaves da tropa praticam as belas rendas da teia d’aranha (quando não andam ocupadas a queimar combustível caríssimo em solenes aparatos perfeita, absoluta e absurdamente inúteis). E os submarinos, não esquecer os tristemente célebres submarinos-catrinetas de guardar o carapau da costa.

3 À caricata questão escarrapachada em b) há que juntar a rábula das messes roubadas pelos seus próprios (in)fiéis-de-armazém. A credibilidade e o pundonor da instituição castrense são atirados à lama por gente aparentemente incapaz de viver com o próprio pré num País que fora dos quartéis pratica essa ofensa colectiva chamada “salário mínimo”. Brio, decoro, honradez, amor-próprio, dignidade, distinção, decência militar – tudo se esfuma à vista de uma sacada de batatas sobrefacturada à conta do civil. Mais o tal armamento ao dispor do primeiro filho-de-uma-velha que, com conhecimentos lá dentro, passe a horas certas nos intervalos da chuva e das sentinelas na zona do paiol.

4 Quanto à c), calma. Para de todo não resvalar em demagogia fácil, devo dizer que conheço em pessoa alguns bombeiros fraquitos e uns tantos oficiais, sargentos & praças decentíssimos. Como dizia o outro, “nada do que é humano me é estranho”. O problema, todavia, sobrepassa em muito a excepção para consagrar a regra. E cá está: por regra, o bombeiro dá-se todo a uma causa humanitária sem esperar nem mordomias nem alcavalas, antes sacrificando o seu tempo, a sua família, o seu ganha-pão e a sua saúde; o general – sejamos francos de uma vez por todas – tem camaradas a mais para a mesma teta.

5 Variando o tiro e o jacto da mangueira, preciso ainda de dizer-vos alguma coisa sobre o Concerto do Peido. É como muita malta chama àquela coisa muito lindinha dos artistas angariando fundos para acudir às vítimas (sobreviventes) do incêndio de 17 de Junho último. Fiquei (ficámos todos) a saber que a receita de milhão e meio de euros angariada com o tal concerto de solidariedade (mais chamadas telefónicas) foi entregue à União das Misericórdias. Não foi entregue ao fundo especial do Estado. Não foi entregue às autarquias directamente lesadas. Não foi sequer entregue, hélas!, aos Bombeiros. Não. Foi entregue à Igreja, via aquela rede de instituições (tutelada por Santana Lopes) que quer ser banco ou coiso assim.

O autarca de Pedrógão Grande, em solidariedade com os outros dois executivos municipais afectados pela tragédia (Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra), já manifestou revolta e desconcerto perante tal aberração. O peido deu borrada. E tresanda.

6 Já agora que estou numa de acirrar novos inimigos, a greve da enfermagem. Não avalio nem contesto a greve da enfermagem – mas acho perversa a ameaça aos partos. Há limites que a razoabilidade deve traçar – e mínimos limítrofes. Não é a mesma coisa que os professores ameaçarem greve aos exames. Não é mesmo a mesma coisa. Haja juízo. A enfermagem é tão indispensável quanto a classe médica. Dúvida nenhuma sobre tal. Mas calma: o parto é inadiável por sua mesma natureza. Pés na terra, pessoal. E os pés não são para levar tiros.


7 Termino pelo título. “Oxalá que perguntar ofenda” – é mesmo o que eu queria dizer. E ainda quero. E disse. É preciso incomodar quem nos faz mal. Sem medo nem hesitação. É preciso inquietar quem vive de nos comer as papas na cabeça. Eu sei que não é uma croniqueta que resolve o assunto. Careca de saber isso estou eu, que todavia me ponho sempre em cabelo para mandar umas bojardas de se lhe tirar o chapéu.

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