Thursday, December 07, 2017

Dois óbitos & uma dívida - Rosário Breve n.º 533 in O RIBATEJO de 7 de Dezembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Dois óbitos & uma dívida



Na passada semana, o obituário nacional viu-se acrescido de dois nomes (re)conhecidos por quase todos nós, Portugueses: o do multimilionário Belmiro de Azevedo & o do músico Zé Pedro.
Do hipermerceeiro propriamente dito, parece que tinha uns milhões de euros; quanto ao guitarra-ritmo dos Xutos & Pontapés, os milhões que detinha eram de amigos & admiradores.
Belmiro pertencia àquele um-por-cento do mundo que está na raiz directa do que acontece aos irrelevantes noventa-e-nove percentuais do resto demográfico do planeta.
Nenhum rancor nem inveja alguma me movem contra a imagem do engenheiro. Associei-o sempre, todavia, a baixos salários, a empregos precários e a carreiras profissionais sem depois-de-amanhã. Mas não criou ele muitos postos de trabalho? Decerto. Só que a grande massa dos (sub)assalariados do rol de pagamentos do engenheiro Belmiro não há-de ter muita cera votiva a derreter in memoriam do plutocrático defunto. O hipercapitalismo é um anti-humanismo: e ninguém me tira deste convicto finca-pé ideológico-económico.
Já Zé Pedro me parecia de outra dimensão. Tipo do eterno-jovem, sabeis? Genuíno, de sorriso leve sem leviandade – uma estrela humilde, enfim.
Não seria um génio musical – mas também nunca se armou em tal. Interagia como peixe na água com as múltiplas gerações de músicos que admirou e que o admiravam. Para (muita) pena minha, não pude assistir, aqui há uns anitos, no estádio da minha Cidade, à abertura dada pelos Xutos ao concerto conimbricense dos sempiternos (até mais ver) Rolling Stones. Sei de fonte-limpa que tal actuação foi uma das mais altas alegrias da & na vida dele. Ele & os companheiros “aqueceram” a multidão para os senhores que se seguiam: Jagger, Richards, Watts & C.ª. E fizeram-no à maneira de “homens ao leme”.
Em outras paragens, no entanto, assisti aos Xutos ao vivo. Era gratificante a mescla de idades do auditório: avós & netos & maduros & noviços devolviam unissonamente aos músicos os muitos temas celebrizados por esta banda começada aos 13 de Janeiro de 1979.
Morrer de juventude aos 61 anos não me parece bem. Curiosamente, a má-nova do passamento de Zé Pedro trouxe-me à lembrança um tal António Variações & um tal (esse sim, genial) Bernardo Sassetti. Ardis da memória.
Para todos nós, com ou sem milhões de euros e/ou admiradores, a Lei é material, concisa, orgânica & inexorável: nascendo, cometemos o primeiro acto necrológico. Não sei se, da imensa fortuna que acumulou em vida, restará agora a Belmiro de Azevedo alguma moeda com que pagar ao barqueiro do letal rio – mas sei que lhe pagámos sempre o que lhe comprámos. Por conseguinte, contas aviadas com ele.
Todavia, é ao artista Zé Pedro que ficaremos para sempre a dever alguma coisa. E essa “alguma coisa” não se vende em hipermercado algum, senhor engenheiro.

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