Sunday, July 25, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 13 - fragmento 5

ÂNSIA

Fica-se antigo na tarde que antiguece,
é da lei do tempo ao Tempo imitar consonante.
Se sol, solar; pluvial, chovendo: e a hora
ao olhar determina o instante e a duração

e a passagem. Meu credo
é de tudo ser dúbio comparsa, se bem
que em obrigada consonância.

E o que é mais perto é mor distância.


SOPORÍFERA, NARCÓTICA

Soporíferas, narcóticas, certas pluviais horas,
à varanda vividas, descortinam
da vida a passiva atenção ao Nada que passa.
Além, do próspero cirurgião, a vivenda farta;
acolá, da polícia, o quartel columbino;
ali, da velha vizinha, o atrelado cãozinho;
aqui, o meu coração em forma de bocejo.

Vivo ora, hora a hora, Coimbra em Coimbra.
Vielas subo e desço, des-sendo-me sempre.
Empadas de galinha, azeitonas, papéis de libreto
– do que posso me socorro a não tanto pensar,
a sentir o menos possível e mais provável.
E assim vou, em sono por sonho, ambulando
quieto, por vielas como à varanda, soponarco.



AGORA SÓ COM A LÍNGUA

Alvíssaras trinitárias em repto
e avanias esvaídas lactescentes,
que o mais são só quadrângulos tridentes,
ridentes, colubrinos, em transepto.

Ebuliências e mores transcenções
não dão de manja ao míser’ofendido.
Senhora, tendes nódoa no vestido
de haverdes mal manjado os feijões.

O pigarro do cigarro dá ’ma tosse nada doce.
S’ela é santa, s’ela é doce,
quem será que foi q’a trouxe?

(NB: os dois últimos versos do – tolo – poema anterior não são tolos. São o refrão de uma cantiga-de-ninar que o meu Pai me balbucicantava à noite, a noite de há quarenta e picos anos. O Velho tinha uma lengalenga exclusiva por e para cada filho. Esta era – é, será sempre – a minha. Só poderia, pois, ter dado nisto, eu.)

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