Tuesday, October 13, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 7

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Pombal, tarde de 29 de Setembro de 2009

A felicidade também me assusta muito, não apenas os cavalos negros e os barcos brancos.

A roda da saúde pica cartões individuais em enfermarias colectivas de propósito para o arrebanhamento das solidões.

Mas é que uma árvore espanejando pássaros e oxigénios pode ser assustadora.

Tenho amigos que negoceiam pessoalmente com o crepúsculo os novelos de andorinhas e os bidões de azeite.

Conheço pessoas que trabalham muito a vida mesma, atiram pontes, trazem sacas de grão, trocam miudezas.

Largueza estrita e estreita do Tempo: via canora, caligráfica, Dele – no meu corpo civil desarmado até os dentes.

Na cidade, a praceta igual a tantas, os prédios iguais a tantas rurais vidas de praceta urbana.

Olho a praceta do meu olhar todo tinta, papel todo.

Uma árvore escarlat’escura, magra, trepa de pedra até primeiro-andar (perspectiva).

Um Dedra a combustível GPL azul-indiga o estacionamento.

Um prédio verde-ranho persiana fechamentos existenciais.

(Ontem vi um cavalo em quase-prosa, vi, escrevi.)

(Não sei por que escrevo todas as vezes que.)

(Escrevo talvez por felicidade, o que é assustador.)

Tenho esfarrapadamente dormido. Os sonhos fragmentam-me. Pássaros de um azul-Dedra soltos a predadores. Inquieta-me uma mulher que vi há muitos anos na Figueira da Foz. Sou acossado (e coçado – e caçado) por cães flamejantes como bicos-de-gás. Sonhei com o Henrique Costa, que nos morreu este Setembro. Entrei no Colmeia e fiz despesa como os outros homens, os adormecidos sonhando-me em paralelo. A prova do sonho era ser Viseu outra vez a minha vida. As mãos do meu Pai crescendo as minhas unhas. Extraordinário florissortilégio de viver-pensando: deixar escrito canora, caligraficamente.

Tempo ido de idas costureiras, amanuense tempo de natais a dever na mercearia, o cromo-da-sorte carimbado no verso (o 114 era do Boavista, estava alfinetado no fundo da caixa para a bola-de-couro-de-papelão). Meu-tempo-mau-tempo de magia e de não arrependida pobreza. Isto que (me) deixo escrito. Sal, moura. Íris, Íbis. Força especiosa da frase tilin-cristal-ti-musical-tin. Deflagração em ouro nervoso da granada sexual. Dar de comer às moscas (agora, calma). Falas azeitelíneas do girassol-em-idioma. Fustigação e vestíbulo. O amor ser fósforo, a vida ser lixa(da). Van Basten, Van Nistelrooy, Van der Elst, Vanguarda, Vã Glória. Florescência lírica. Correia Garção na Fonte Santa. Voltaire e o Terra-17-Moto-55-de-Lisboa. Tocqueville, oui, hélas! A essencial francesice da Independência da Nort’América. Estandarte da arte de estar. Formigar de negócios afinal (tendo em conta a saúde individual) mínimos: Wall Street, canecas de louça com cromo benfica-sporting-porto-académica no bazar do Paulo Figueiredo, greve dos pilotos da TAP, em Almalaguês, Coimbra, três mortos por gaseamento em lagar vinícola, furiosa alegria assustadora, feliz. Massa verbal arborizando papel, vida, tinta, teimosia não cega.

(Lictor vespúcio garrido.

Victor Lúcio Margarido.)

(Canta.

Cantai!)

Vida-verbo. Verbo-vida-devida-à-vida-ávida. Tempo de

o planeta ranger a cada nascimento,

como diz o poeta Paulo Frederico Simão, do Bairro de Queens, NYC – e que recordarei a Rui, pai de Leonor, filha de Cecília (4 de Outubro de 2009).

Ir ao mar, a sua orla afinal feliz como os nomes-de-mármore. Aceitar a fumiformigação do comércio, as ondas de açúcar batendo solares nas pestanas, nas têmporas.

O milagre de qualquer foz.

1 comment:

Rui said...

Por assim dizer cinco magníficos:

desarmado até os dentes (que mais longe não se pode ir)
a praceta do meu olhar (por ser tudo assim verdadeiro)
persianar (como verbo)
bola-de-couro-de-papelão (que já nem no nosso tempo existiam)
o planeta ranger a cada nascimento (por ser assim tudo verdadeiro)

Gratidão é um dom. Grato.