08/01/2020

CADERNETA PRETA - 28 (trechos)




28. Só Esta

Sábado, 14 de Dezembro de 2019

É só esta vida.
Não estou a dizer que gostaria de ter mais uma. Nem que bom seria esta não ser o fim mas o princípio de outra coisa, forma, dimensão, qualquer porra assim. Mas não. É só esta. Só este corpo, o tempo dele.
Memória & projecção. Ah sim, a Beleza. Ela existe, tanto existe que por vezes nem parece criação humana. Entendo-a como necessidade profunda. Entendo outras coisas também – mas não são tão importantes. Claro que demorei anos até isto. Não faz mal, demorou o que demorou, mesmo que tivesse cá chegado mais cedo, seria aqui que continuaria, como aliás continuo. Passa-se o mesmo – ou muito semelhante – com a população que se vai contactando ao longo da corrida. Sim, isto é mais corrida do que passeio. Também não faz mal.

Via-férrea pela extensão nevada. Esparsos arvoredos, muito negros na distância – de facto, parecem aumentá-la. Casario ainda mais esparso. A luz vai erguendo a tenda, há panos de noite ainda por dissipar. Dá logo para sentir que o mar mora muito longe deste ponto. Antes da ferrovia e das casas isoladas, os milénios não mexeram muito nisto. Aquele pico pétreo já então subia àquele mesmo sempre novo azul. Mas é a primeira vez (esta) que o lápis (depois tinta, se tudo correr bem) o toca.

Recordo um cavalo morto em certo terreno baldio cercado de prédios deprimentíssimos. Os ciganos deixaram-no morrer à fome, à sede, às moscas. Ninguém dos prédios alertou autoridade nenhuma. Esta visão faz de tatuagem na pele da memória – e eu detesto tatuagens.

(Tenho – ou sou tido por – mais disto. Por vezes, até me dá para inventar lembranças no intuito de me livrar das verdadeiras. É mania inofensiva, não traz mal ao mundo. Também o não alivia, valha a verdade.)

Pertenço ao Sábado-Novo, no pré-crepúsculo do ano, como o gato perdido que hoje de manhã senti alhures chiando à/de fome. Pirei-me de casa para rapar um trecho de tarde. Aqui estou. Por enquanto, qual todos V. Trouxe comigo a 2.ª edição de A Idade do Jazz-band (Portugália, Lx., 1924) da besta do António ferro. Já vou a mais que meio desse nada que o gajo escrevia – nosso goebbelszito de anti-estimação.
Pertenço ao meu lápis (tinta, por vezes sem cura nem doença-para-já. E aos Gatos. O meu-em-casa & ao que lá fora concretizava a perdição essencial do nascimento – para isto.
Para isto:

No Jardim da Manga espargi pão envelhecido
que as pombas aceitaram por novo & bem-vindo
(& até lindo), sim, isso fiz, quási distraído,
isto ninguém me rouba, o, dando-me, ir-me indo.

(Cachopada, graúdos & até velhos – tudo açaimado aos smartcoisos. Não há quem não. Cáfila roedora de esferovite. Artimanha do Império. Néon-realismo, parece.)

(Caderneta Preta – é capaz de vir a ser o título desta porra.)

(...)

(O Sábado deixou de interessar-me tanto. Em era irretornável, foi o favorito de meus então favorecidos dias. Nevermore, como dizia o Edgar Corvo, não sei se V. já falei dele.)

(...)

Assim vai bem – se mal, o mesmo daria – o que por natura tem de ir.

Há o capitão-doutor José Maria Antunes. Há o seu homólogo Mário Coluna. Há o galês Ian Rush, bigodinho matador. Há o escocês Dalglish, elegantíssimo, como também M. Van Basten, voador & holandês. Dois santos-evangelistas: Cruijff & Beckenbauer: ou João & Francisco, respectivamente. O Pelé nada (zero-nada deveras) me diz. Eusébio faz na relva o que Amália & Paredes fizeram no tablado. (...)

O mínimo que me exijo – é ser máximo predador da palavra-justa, do justo, do justo-verso. Mirai: este é um (quase ex-)sábado coimbrão, impera a trémula cinza neónica, nem muito nem muito interessada & interessante gente com quem falar. Mesmo assim, todavia:

António, meu Amigo, que não és já,
jazes só nome, osso sob mármore,
duas datas do além-mais-delá,
Ausenda, viva ainda tua Mãe, ar more
fresco em minha inútil lembrança,
conversámos anos bem, isso nos valha,
a puta-vida é grossa, fina porém dança,
a puta-morte – a lembrança a quem a trabalha.

*

Faço escrevivendo por merecer a manhã,
entardenoitece porém sem remédio.
(Não me ligues, seria um tédio
pestífero dizer ah-sim?-o quê?-hã?)

(...)

Nomes batem latem
Na treva ladram perpetram
Quero tão-só esmolá-los
Dar-lhes aveia, dar-lhes a veia.


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Canzoada Assaltante