Thursday, March 20, 2014

Rosário Breve n.º 350 - in O RIBATEJO de 20 de Março de 2014



O primeiro a sair que diga por onde é que

Antigamente, só de alguns ofícios se podia afirmar, com razoável caução e inspirada garantia, que eram profissões/carreiras de muita saída. Por aflitiva e angustiosa e factual tristeza, hoje são-no quase todas: os professores estão de saída, os enfermeiros dirigem-se à saída aeroportuária, os operários navais estão como na canção do Fausto: “o barco vai de saída”, os funcionários públicos idem e etc. – tudo e todos tão de saída, que os mais novos nem a entrar chegam.
É isto que a lápis mental vou penosamente considerando quando dou de fuças, em parede antiga de viela baixa-histórica, com a seguinte gritante-garrafal-caixa-alta-vermelha-spray inscrição:

CRISTO VAI VOLTAR

– Outro D. Sebastião… – rosno eu para com as minhas miudezas botão-acústicas. – Ele que não faça isso, que neste morredouro de míseros nem para Ele há milagres – cuspinho eu à maneira dos fumadores de mata-ratos.
Tenho rosnado muito. Muito e em vão, à catedrática maneira dos revolucionários de sofá, neste cada vez mais redoliano barranco de cegos a que não adianta bradar Alto e pára o braille! Rosnar, rosno – mas quase tudo do quase-nada em que esta choldra piolheira descambou me dá pigarro canídeo à interjeição. E logo a mim, espécie de lobo desdentado que, se e quando alguma coisa mastiga que não seja o próprio cuspo, o faz mercê de uma geringonça dentada à base de resina acrílica plastificadora até do sorriso, quando algum.
No bolso dextro do blusão, porto um poema de amor inçado e inchado de turva fatalidade. Mandou-mo um amigo tristonho como eu, que como eu e comigo se carteia electronicamente a mote de tudo o que seja indignações, gajas boas e piadolas frescas. Reza assim a missiva (que fiz imprimir por masoquismo):
“Descemos 3 posições no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.  
1,4 milhões de desempregados. 
Défice sem baixar. 
Dívida a chegar aos 220 mil milhões. 
Adiamento do pagamento de dívida através da troca, de uma taxa de juro de 1,5%, para outra de 4,5%. 
PIB ao nível de 2001. 
250 mil emigraram, só desde 2011. 
2 milhões de pobres, em 2011. E em 2013, 2,750 milhões. 
E agora, dados de 2013, 660 mil famílias não conseguiram pagar empréstimos à banca. 
500 mil pessoas com salários penhorados em 2013, recorde. 
Mais de 14 mil presos nas cadeias portuguesas em 2013, recorde.
Relendo-a pela enésima-cagagésima vez, sinto-me (e arvoro-me logo em) Pirro. Era no ano 279 a.C. E o generalíssimo assim para os seus oficiais: “Outra vitória como esta e estamos perdidos.”
Tenho para comigo e por certo que o género humano é o maior erro trágico da Natureza, não de Darwin nem do tal Cristo que há-de voltar mas é o caraças. Na mesma linha, o cancro é uma moléstia estúpida porque, matando o hospedeiro, se mata a si mesmo, coisa que equivale, sem tirar nem pôr, ao capitalismo selvagem made in América & Berlim. E o seguidismo acrítico é uma manifestação clara da escura acefalia – mas vão lá dizer isso aos tontos dos Ucranianos, mortinhos como andam para que lhes troikem a vida como a nós nos troikaram os passos.
Definitivamente provisório como a vida mesma, resgato-me destas tristuras macambúzias ingressando numa tasca à antiga portuguesa no propósito de beijar, à maneira de artista, um càlicezito de bagaço daquele áspero-carvalhoso que sulc’arranha arrepios cuteleiros na isca da figadeira. Em meu derredor, o antro jubila de colegas desempregados e de reforma-roubados que bebem do mesmo enquanto lambem a bisca ou concatenam o espinhaço de baquelite do dominó. É então que, compulsando a edição do dia do Diário de Notícias, um gajo alto de gestos alquebrados que lhe tornam a locomoção parecida com a dos que acarretam cegonhas mortas às costas, é então que ele altivozeia assim:
“Então vossemecêzes não me querem ver esta? O Pintas da Bosta agora quer que o meu Sporting desça de divisão! Diz ele que o puto presidente de Alvalade não sei quê coacção dos árbitros! Porra, ao cabo de 30 anos de trafulhices larápias, este gajo ainda tem a alma ao lado do cu para ladrar merdas destas sem vergonha nenhuma, c’um carácio, ó pàzinhos! Sempre quero ver a que saída vai dar isto!”
– Também eu – volto eu a rosnar para comigo. – Também eu. Mas dá-se que, apontando eu o nariz à saída do tabernoso palácio, se me escapa audível um “Enfim, mais do mesmo.” Solícito, o taberneiro serve-me outro conhaque nacional, glaucoma líquido do olho do Diabo, a que, enfim, dou honras de escorropicho com uma cabeçada de arrecuas tecnicamente perfeita.
E acabo por ali ficar ronro(s)nando solilóquios de beberrão impenitente e resignado ante a evidência de nem isto nem a taberna terem, como é que eu dizia?, saída nenhuma que não seja para pior.

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