Thursday, March 13, 2014

Rosário Breve n.º 349 - in O RIBATEJO de 13 de Março de 2014 - www.oribatejo.pt



Onde falam homens, calam-se estátuas

Eu agora era o Salgueiro Maia,
capitão não de mas por Portugal,
eu agora como sempre até agradeceria que nem me mudassem de sítio,
isto porque o sítio onde eu estiver há-de ser sempre apenas o sítio onde eu me quiser,
eu morto ou vivo,
ou eu mais vivo agora até do que nunca,
hoje até se calhar,
mais do que alguma vez,
preciso sou do que no sítio onde estou,
escusado é até que chamem Liberdade ao Jardim onde me puserem,
liberdade há-de ser sempre o sítio onde homens como eu estiverem,
nunca na puta-da-vida liguei a efemérides de busto-em-vida,
da minha vida a despedida terá sido fugaz mas nunca arrependida,
a chatice do cancro,
chove Deus ou o Diabo por ele a cancros,
a melancolia de deixar pesarosa a mulher que tive por privada rosa,
mudar-me de sítio para quê?,
mudem mas é de sítio a des-gente do meu País,
esta sub-canalha que nunca há-de ser feliz,
não de azimute-topografia,
não a mera rectangular geografia,
mudem-se-vos antes dessa estranha gente canalha
que mais despreza a terra contra quem mais a trabalha
e que faz de todos nós connosco mesmos mudos da surdez da voz,
um País de si mesmo Pátria indiferente,
uma estátua de sal para mim não é ser natural,
é nocivo,
é virtual,
alguém que pela tarde fria
da História-Pátria-Mitologia
viu na estátua de sal
um tal Salgueiro Maia tudo menos real,
alguém que olhou para trás e se arrependeu,
ora tal tipo de gajo ou capitão nunca fui eu,
tive pena até do Marcello do catano com dois éles,
coitado,
ratito  encafuado no Carmo
onde o cerca-sitiei,
por e de maneira que eu cá sei,
na manhã atónita vibrava o megafonialtifalante,
como quem vibrava o nítido futuro naquele mesmo instante,
do cravo o rendilhado rubroverdeava tanta coisa rouca,
que até ser livre,
começando-o só a ser,
parecia coisa tão pouca,
e a minha mulher tão preocupada em casa,
as mães-mulheres deste País desinfeliz,
tão preocupadas em casa,
rosa,
asa,
digo,
mulher em casa
sem saber se ir a pé a Fátima, se de chaimite ao futuro,
um homem é um homem,
uma rosa é um País,
é um homem com mulher,
lembro-me agora,
estátua,
de ter mudado de sítio por ter sido eu a querer fazê-lo,
bronze ou não,
sal ou sopas,
quero lá saber,
eu agora não era isso,
eu estátua é que nunca fui,
estátua é que eu nunca fui não,
saí de Santarém e vi Lisboa,
a madrugada era boa,
amanhã ainda sou Salgueiro & Maia & Capitão.


O País é que se calhar não.

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