Thursday, December 05, 2013

Rosário Breve n.º 336 - in O RIBATEJO de 5 de Dezembro de 2013 - www.oribatejo.pt

Do fundão do mar

Em recente madrugada álgida e petrificada de cristal, como é da época e de lei, derivando eu não acompanhado pela avenida deserta das seis da manhã, aconteceu um fragmento de folha de jornal vir, à maneira de famélico cão perdido, aninhar-se-me aos pés. Toda a vida tenho tropeçado em lixo (do humano inclusive), pelo que não liguei e segui em frente, rumo ao Café onde diariamente procedo ao desjejum de cafeína, nicotina & versos.
– Olhe o senhor Daniel que traz aí qualquer coisa agarrada às canelas – avisou-me, maternal como sempre, a D.ª Lena, como sempre reiterada pelo olhar da senhora Ermelinda, que quando olha para os homens nem é para as canelas que olha.
Toda a vida tenho olhado para baixo (mas não quando é gente que olho), pelo que accionei a grua do pescoço no ângulo descendente: era o pedaço de jornal. Rezava assim:
“(…) revelaram tratar-se de uma pessoa com ‘superficialidade afectiva, ausência de remorsos, manipuladora e com elevado grau de reincidência’”. Mais nada.
Reli o trecho não sei quantas enésimas vezes: “revelaram tratar-se de uma pessoa” enquanto tilintava a colherinha no rebordo da chávena; “com superficialidade afectiva” enquanto abafava na faringe o delic(i)ado arrotinho a açúcar torrado; “ausência de remorsos” enquanto buscava e rebuscava o nómada do isqueiro em todos os bolsos menos no certo; “manipuladora” enquanto fumegava a melhor passa do Camel de enrolar, por ser a primeira do dia; “e com elevado grau de reincidência” como este mesm’O Ribatejo, periódico que, à imagem dos melhores casamentos de longo curso e média duração, ainda se dá uma (vez) por semana.
Por padecer da incontornável e irredimível mania de me ver como espécie de escritor, fiquei perplexo de propósito ante tal papelucho. Qui-lo ominoso. Qui-lo código de qualquer coisa mística, como a besta do Dan Brown, o inenarrável Paulo Coelho e essa fotocópia sem toner de ambos chamada Zé Rodrigues dos Santos. Fiz até de conta que às canelas se me tinha vindo prostrar o pedacículo que faltava aos Manuscritos do Mar Morto. Ou que era, mais grave e mais especiosamente ainda, a única genuína evidência documental da entrada “Miguel Sousa Tavares” no Dicionário da Não-Literatura Portuguesa dos Tristes Editoriais Dias da Contemporaneidade. Ou, ainda, que se tratava de alguém a dizer mal de alguém só para ter alguém de quem dizer mal a ponto de ser também considerado alguém, coisa que sempre me repugnou, como é disso cavalar prova cabal esta crónica mesma. Decidi indagar.
Paguei a bica a prestações, esmaguei a segunda metade do cigarro e, sempre de papeleta nas unhas roídas por causa dos nervos, rumei ao quiosque jornaleiro do meu distinto e anónimo Amigo, que se chama Gervásio e não se distingue. Herdou do pai a banca e, como o pai, lê todos os dias, à frente de toda a gente, aquela porra toda, menos as revistas com gajas de mamas expostas ao sol e à chuva porque a Sé é ali mesmo ao lado da traquitana dele – e já se sabe que isto de sexo & religião é como álcool & condução. (Dizem eles, como abaixo se não verá.) Mas adiante. Eu assim para ele:
– Ó Gervásio, de que jornal, de que data e sobre quem há-de ser este bocado de prosa?
E ele assim p’ra mim:
– Há-de ser, não: já foi. Se está escrito, já foi. Só há-de ser p’ra sempre se estiver bem escrito e for bem lido. Deixa cá ler.
Eu deixei. Ele leu. Então o Gervásio, que é uma maravilha de óculos como ele há poucas, que devia mas era ser director da Biblioteca Nacional como o foi aquele Carlos Reis professor que nos lixou a todos com a bênção do abort’ortográfico, o Gervásio, dizia eu, disse-m’assim:
– Diário de Notícias, 3.ª feira, 3 de Dezembro de 2013, pág.ª 4, Ano 149, n.º 52 829, 1,10 €.
E então eu, aflito de propósito e numa ânsia de investigadorzeco à maneira do Jaime Coiso do Montalbánzito de cá, vulgo Chico-Zé Viegas, eu então assim:
– ‘tá bem, pá, mas isso é sobre quem?
E ele, esvurmando-me as ganas que eu tinha de que fosse o Passos, o Portas, o Cavaco, o Sonasol ou o SuperPop, sentenciou:
– Pá, tem pouco interesse, é o costume, um padre e crianças masculinas tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus, é só a avaliação psiquiátrico-pericial daquele que era vice-reitor do Seminário do Fundão e abusou de meninos.
Fiz finca-pé cá na minha:
– ‘tá bem, ó Gervásio, ‘tá muito bem, mas o gajo, por viol’ipendiar crianças, apanha dez anos. Já os outros (o SuperPop e o Sonasol) de que te falei, os superficialmente afectivos, os sem pinga de remorso, os manipuladores e altamente reincidentes, nem um ano apanham por abusarem de dez milhões.
E não apanham, como eu do chão apanhei um pedaço de jornal que, dizendo pouco afinal, afinal tudo diz – tanto do “fundão” como do mar-morto em que este País deixou que o tornassem.


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