Tuesday, March 01, 2011

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 175



175. UM SÓ VERSO

Coimbra, segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

A minha Mãe – outra vez nas urgências.
Insuficiência cardíaca, foi o que nos disseram. Que tontos, os médicos: como pode ser insuficiente um coração daquele tamanho? Se ela nos morre, não posso voltar a nascer. Mas não, não sinto medo. Os olhos dela são feitos de água nascente. A luz do dia abençoa-me. Eu sei: tenho por conta uma vida mais bebida do que vivida. A Senhora queira desculpar. Tenho-lhe feito versos como se a Senhora fosse minha namorada. E é. Tenho dormido na sua cama. Às vezes, o dia acaba-se-me como um filme: então, pego no meu corpo e deito-o na sua cama. Durmo cercado de retratos. Comove-me tanto, a boneca que a senhora deitava entre as suas almofadas viúvas. Aqueles lençóis não estão, não ainda, mortos. Alongo-me neles em pele de rosas. Que tontos, os médicos. Trabalhei hoje um pouco, fui cordial para com as pessoas, é tão bonito ser bem educado. Depois, fiquei outra vez sozinho – é a minha vida. Três homens estão ali a falar de política laboral. Gosto de ouvi-los: parecem-me felizes e tristes como gente nascida. Os sentimentos são velocípedes. A vida é rápida, mas a existência não. Sinto um amigo como a um livro. A asa delicada de uma chávena fina: uma gentileza que nos dizem. Cercado de retratos que a Senhora juntou em rosa. Sonho com laranjeiras em frémito eólico. Vejo cães negros e cegos rondando as cercanias da Estação Velha, passam pelo ponto do cais onde a Ti’ Maria vendia arrufadas. As pessoas tornam-se tigres domesticados, a economia torna-as assim. Gostaria de poder escrevivificá-la mais, Mãe. Eu tento. A Senhora torna-me nascente. E eu gosto de nascentes – e de fontanários e de carrancas de chafariz e de cursos de água rumo ao mar. Vi um menino sentado em mochila azul. Terá oito anos, é bonito, é um menino. Está à espera do autocarro. Ele significa isto – a Beleza da Vida. Falo com ele por aqui. Não, não sinto medo. Um homem é um homem é uma árvore é um retrato é um verso é um filho. Que tontos, os médicos.
Calibro o meu sangue através de certidões memoriais: as solidões estremes do meu Tio Alberto e do meu Irmão Fernando e do meu primo Zé Arménio e deste Vosso fiel servidor, os cães todos que tive e de quem fui, o meu Professor Elias Rodrigues Faro, algumas raparigas que despi contra os mandamentos da Santa Igreja Católica, as tardes atlânticas da Figueira da Foz em 1988, em 1970 e em 2010,

e telefona-me a minha Irmã Xelinha,

As notícias não são boas, filho, a Mãe

é a nossa Mãe, piorou, talvez metástases hepáticas, não se sabe, a Mãe, me, ama-amei-a-Mãe.
Estou sentado sozinho num café em Coimbra. Tenho 86 anos, idade dela. Três homens não falam já de política laboral. Ninguém fala. É um filme surdo-mudo-a-preto-e-branco. O cinto da minha vida tem presilhas de água. Uma senhora, morena como uma recordação estival, preside a um carioca de limão. Não, não sinto medo. Sinto apenas tudo. Sou o rapaz que não renascerá, este homem de canadiana numa linha de comboio desactiva para Lousã nenhuma. Um subproduto da Língua Portuguesa anterior à CEE. Um filho da Nação, pois por que motivo não? Talvez alguns versos, agora:

O teu cavalo pode não correr muito mais,
negro no verde dos Campos do Mondego.
Descansa, Mãe, que estou em sossego,
e nunca é agora, depois é jamais.

Eles casaram-se no mês de Julho de 1943. O noivo coxeava, a noiva era tão jovem como um clarão de buganvília. E assim se formou a minha família.
Que tontos, os médicos. Nem capazes são de garantir a condição fundamental de um gajo ser filho de uma mãe de Portugal. Eu sei: o cavalo cardíaco tem direito ao seu cansaço. Eu sei. E um gajo, direito ao seu bagaço. O problema está todo no amor. Nunca há problemas fora do amor. Só há questões, quezílias, incompreensões, desfamílias. O problema está todo no amor. Uma pessoa nunca deveria ter sido amada no futuro. É uma questão de política laboral. Jardins ingleses, filigranas porcelânico-chinesas. Tentações visuais do mar, quando uma pessoa é ainda infante. Aquele querer-ir, sabes?
Agora, repara: estes minutos como vergastadas de bronze. Estas horas sucedâneas, como te hei-de eu dizer, o Professor Elias Rodrigues Faro. Quando fui feliz, já havia laranjeiras acesas como lareiras. O coração bate em dislexia. Preferiria, eu, a afonia. É triste estar sol e o céu ser azul. Os cães correndo as ruas, as raposas demandando os coelhos pelas encostas nascentes das serras. Ser/ter nascido é triste. Uma pessoa encontra-se – e é que não encontra grande coisa. Depois, um gajo pensa assim: mas Rembrandt, mas Pink Floyd. E depois fica só com uma cultura tipo geral, tipo Diário Popular anos 70/XX, é pouco. A Mãe.
Talvez alguns versos, agora: uns versos? Não. Um só:

Que tontos, os médicos.


5 comments:

BLUESMILE said...

ela tem os teus olhos.
ou tu os olhos dela, o que é a mesma coisa.

Joaquim Jorge Carvalho said...

Fazes tão grande a tua Mãe (como aliás é tua obrigação) que a tua Mãe, de tão imensamente compreendida e escrita, se torna Mãe de quem te (a) lê.
Isto decerto há-de colidir com a Lei; dirão que essa Mãe não é senão tua Mãe, e quem sabe atestá-lo-ão com documentos & tudo. Que tontos estes gajos, en effet!

(Daniel, um grande grande texto,ainda assim menor - julgo- que a Dor de o teres escrito! Abraço.)

Sofia said...

SER MULHER

Ah, ser mulher!

Ser mulher é ver o mundo com doçura,
É admirar a beleza da vida com romantismo.
É desejar o indesejável.
É buscar o impossível.

O poder de uma mulher está em seu instinto
Porque a mulher tem o dom de ter um filho,
E cuidar de vários outros filhos que não são seus.

Ah, as mulheres!
Ainda que sensíveis
Mulheres conseguem ser extremamente fortes
Mesmo quando todos pensam que não há mais forças.

Mulheres cuidam de feridas e feridos
E sabem que um beijo e um abraço
Podem salvar uma vida,
Ou curar um coração partido.

Mulheres são vaidosas,
Mas não deixam que suas vaidades
Suplantem seus ideais.

Muitas mulheres mudaram o rumo
E a história da humanidade
Transformando o mundo
Em um lugar melhor.

A mulher tem a graça de tornar a vida alegre e colorida,
E ela pode fazer tudo isto quantas vezes quiser
Ser mulher é gostar de ser mulher
E ser indiscutivelmente feliz
E orgulhosa por isso.

- Brunna Paese -

Anonymous said...

as melhoras para a tua mãe.
albino

Janete Gameiro said...

Soube deste post e não resisti... Continuas um génio desaparecido, uma verdadeira lenda por contar. Bjs