Wednesday, March 16, 2011

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 126

126. FUNDIÇÕES

Coimbra, terça-feira, 30 de Novembro de 2010



Funde-se a Grande Lâmpada (o Céu) e a chuva revisita uma terra que é tão dela quanto da luz. Fui às compras merceeiras ao Pérola: cenoura, 29 cêntimos; cebola, 32; batata branca, 59; nabo branco, 1.14; alho seco avulso, 77; lata de cerveja Super Bock, 59; atum em posta Duna, 1.32; filetes de cavala em óleo vegetal Maná, 1.09; salsichas Izidoro, 52; feijão branco cozido, 55; ovo Vitaovo Classe M (meia dúzia), 69; toucinho, 1.03; farinheira tradicional, 89; linguiça tradicional Fricarnes, 1.98; cotovelinhos Napolitana, 62; esparguete Duna, 56; cuscus Napolitana, 29; couve-coração, 70. IVA às taxas de 6, 13 e 21%. Total em euros, 13.94. D: 30/11/2010 ANGELINA. HORA: 10:37.OBRIGADO PELA VISITA.VOLTE SEMPRE.

*

DEITA-SE-ME-LHE

Deita-se com os anos de vida tidos.
Os anos ondulam-no vertebralmente.
O longo da noite abre-lhe a avenida interior.
Lixos e pérolas deflagram-no em instantaneidade.

Ele é o homem que já não quero ter na
minha cabeça.
É outro, que não posso querer ter.
Digo: que viver.

Glicínias, gardénias, gladíolos, gloríolas.
Fontes manando cristal-flúx por pedras.
Relances mulheris (flancos, cuspos, mãos na lonjura).
Exemplos santos (tantos) de alheias (alheadas) vidas.

Deglutições mecanográficas de máquinas registadoras.
Gás-interstícios de estrelas ao coalho de Deus.
Casais como dedadas de giz na serra que perdi.
Perdi tidas vidas, não mais que me deitando.

Ele vigora flacidezes espíritas (mortos moles).
Poucos carros nas imediações, polícias desquitados.
O Quarto-Casa deita raízes ao ar da terra.
Eu sou o que olha os pulsos e os expulsos.

Na antemão da manhã os corvos anilam-se.
É muito belo estar vivo noutro corpo,
querida.
Os moinhos de Gavinhos oferecem-se aeróbios.

Desço às profundas das Bermudas por azoto.
Sonho com já irreais passadas noites (de cristal).
Prospectivo uma fonte final, uma sede saciada.
Não é dormindo mas acordado que desejo nada.

Nada enseja, ele, em dele o santuário.
Corpo que menino foi, moço ora de nadidade.
O tudo da Cidade lhe merece relicário.
E relíquia é o tudo-nada da Cidade.

A(v)en(ida): a parte posterior da cabeça em chamas.
O que já amaste, o que já não chamas.
A flor óssea da horta craniana.
Sejam muito felizes – e bom fim-de-semana.

As orelhas criam lã, os velhos partem sós.
As pessoas montanham-se (serram-se) a sós.
Sofrem por vezes do terror da voz
que nunca eu, mas tu, eles e vós, nunca nós.

Veleidades, varíolas, varrasquices, vilipêndios.
Antes de viver: gente esperando comboios ou marés.
(Isto vinha tudo nos compêndios.) Dorme: escreve
versos, vê-te como és. Enorme no nanismo, solipsista,

querido. Às vezes, as gardénias corvoam.
Atroam de branco os ares lilases.
Os jacintos-de-água enfermam as pateiras.
E a riqueza de viver até nas lapelas se nota.

Vidigueira, Portel, Oiã, Santiago do Cacém.
O mapa é venoso na toponímia arterial.
Ele deita-se-me só, no só-Portugal.
E a caça às raposas é pólvora infiel.

Conhece-te-me a mim-si-mesmo, tu-ele.
O amor dos pais justifica angolas súb(d)itas.
Uma flor da horta perfuma a calidez.
E a rapariga sonhada sorri no escuro.

(Escreverei quanto não puder viver.)

(Escreverei enquanto não puder viver.)

Um amigo meu grafa foto-árvores.
Ama ele esses animais que vegetam.
Que vegetam da-luz-sintetizadores.
E a química dos astros o alabastra e lastra e lhe basta.

Avental, o meu coração é a tua maçonaria,
Maria.
Deito-me ao relento lento do vento interior.
E se sonho, são filmes sem pré-produção.

Impérios sol-nascentes em rubra franja.
Valor essencial da dança soliloquaz.
Sonhas com a submersão, a cor preta do Mar.
Morar ao pé do quartel da polícia, (exer)ser-se só.

Em 2003, em 2014, ontem & amanhã.
Municipalismos, planos quinquenais.
Homens deitando-se ao mar em sombras.
Um aquecedor eléctrico, um e-mail por abrir.

Onde antigamente cartas, um e-mail por abrir.
O sono-de-ser, o acordar na morte-gladíola.
Um filete lilás debruando o sangue.
E a partida dos barcos na noite-manhã-noite.

A esta distância, o Mazda floresce toxifumos.
Lisboa floresce como um cancro de luz.
Na imaginação dele, pessoas há felizes.
E a mostarda e os narizes.

Fui ao funeral de/por um amigo.
Tinha falado com ele poucos dias antes.
Ele estava mais vivo do que eu-mais-ou-menos.
É triste ter estado vivo.

Agora, o gelo agora nas ruas encalmadas.
Summer-parties, mansfields & wo(o)lves.
Água de açúcar na falta do dente.
Hei-de ir visitar esse gajo.

Parafernália de botões amoniacais.
O homem deitado no homem-noite.
Na paleta da vida acontece o único branco ser vinho.
E um resto de borbotões acode bolha-sangue.

Sê, deitado, o velocípede-me, o fugaz.
O fugaz gás das estrelas, o lapso dos estios.
O meu amigo Fernando, uma vez na vida.
O pretérito dos morangos na boca adulta.

Isso e ter filhado a paternidade mesma
que na vigília escura o brando branco sono igneia
a calma de ter sido só no futuro outror’agora.
E a praça toda pedra-flúx no cristal.

Ele na cama celibatária sá-de-miranda-se
e co’ a calma caem-se cadentes as doentes aves
de tetraversos inconsúteis à razão directa
dos tempos-espaços-amendoins & bagaços.

Que pena (verdade?) as pessoas morrerdormirem-se-nos.
Em Novembro, a vida foi Dezembro choupalino.
E tudo isto desde menino.
Viver-acordar-se-nos, que pena, -nos.

Fala-me mas é das cheias d’antigamente.
Alhandra, o Campo do Bolão, a infância
comunista do meu senhor Pai, Buarcos,
a vibração vítrea de outros estios-tios

agora frios. Vertebrais no corpo-corno, duro.
Puro, só ora o futuro.
O morango na língua februária, verde,
vária e febre.

O homem torna-se avô de si mesmo perdendo
os filhos, as filhas.
Repreenche os garrafões de soro (sono) só.
E a vid’avenida conquista (enquista)

foros de Cidade. O mais é corpo coçando
alma. Vibráteis brisas enfunam o rosto.
Películas vítreas encebolam o pranto:
pode um homem dormir sozinho jamais?

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