Thursday, March 31, 2011

Ideário de Coimbra - 138


© Jacques-Henri Lartigue
My Hydroglider with Propeller
1904


138. DIFEREM OS MIASMAS DOS MOSTOS


Coimbra, terça-feira, 28 de Dezembro de 2010


I


Diferem os miasmas do Estio dos mostos da Invernia,
que o digo eu hoje, vivo, em mais um dia
olhado e molhado, aberta a garra da tarde fria.
É terça-feira – e, derredor, são lentos a fadiga e o suor


de quantos, sobrevivos, a lenha buscam do passamento.
O frio que faz, faz frio o Tempo, a tempo
da formal abstenção moral de juncos e canaviais,
automóveis, padarias e todas as coisas demais.


II


A esperança é uma pré-embalagem de felicidade,
este ano não gastei a que a 1 de Janeiro de 2010 me coube
em sorte – ou falta dela. Talvez 2011, se
lá chegar, me recompense um pouco, se


o mesmo 2011 chegar, não sei. Os agentes económicos
amargam hossanas ante os micros da têvê,
rigores superlativos se anunciam ao limiar
de imaginários nevões que a vida adulta conhece.


III


Esse tempo que cruzamos em ricto móvel,
do lado da colina humedecem-se as casas orientais,
as árvores singram a verticalidade possível,
as nossas mães não voltam, não dizem nada.


Um duplo plano de estrelas sagra as mãos da pessoa,
rege-se o vidro, o linho, a nomenclatura citrina.
Telefona-se em mor e prol da menina,
há sempre porém alguma coisa que é boa.

IV


Não sabem o que dizem nos flancos as carrinhas
de transporte de valores seguros, não sabem.
Fora dos apartamentos pasteurizados, os casamentos
equivalem molemente ao poder do Outono.


Não sabem. Valores seguros? Os crisântemos
acontecem roxovermelhamente em sagração,
os cães transportam, eles sim, no casaco do corpo-couro
a segurança possível, ter nascido, que é ir morrer.

V


Falo-te agora da brevidade permanente das lojas,
os sonhos das pessoas que à função pública não quiseram,
ou puderam, penetrar, desses rapazes que
optar tiveram entre literatura medieval e
técnica de electrocanalização, disso te falo, que
conheço os andros e os meandros da economia
destas ruas, que todas perfazem meunosso
País. Pê de pais e de país, pê de
Portugal,
cujas laranjeiras arrefecem a neve das
em flor amendoeiras à
excursão de pobres
morredouros
de pontesdentrerrios.
Falo-te agora de uma patrícia portugalidade
cuja derradeira acepção passa pela brevidade
sempiterna dos caixeiritos de ourivesaria,
dos aprendizes de alfaiataria morenos
e contumazes, breves todos e todos como
ninguém e nenhum, pois que todos
algum.
Se isto te trago à trama, confia
na simplicidade de métodos,
de métrica e de,
Portugal!,
tristeza.


O resto é pão e vinho sobre a mesa.


VI


Nótulas e bosquejos da história-pátria buscados
podem ser, antoniosergiamente embora, ou ainda, em
nossa contemporaneidade. Isto é tudo entre-
-rios: digo: interamnense tudo. Entre Tigre
e Eufrates: digo. Entre ontem e amanhã,
digo também. Ou tudo música, que escrever,
também, é atirar canções de tinta a
papel surdo-mudo. Entre Douro e Zêzere:
digo: e me não, ou nem, ouço.


VII


A elementar visão física das pessoas acontecendo
ou – ai-que-ontem-sendo –
faz-me um bem também elementar:
confirma-me a sociedade, os preçários,
os precários custos & tustos de quem resulta
do vago amor de casais
operários uns, vários outros,
gente tudo
e
tudo agente.
Duas raparigas no café, uma das quais
empregada de mesa dos senhores
que grelham peixe e fervem brócolos
contra a insensatez matricial do
leite-do-peito.
A outra, mais envile-envelhecida, ralha
café-de-cevada-e-meia-torrada-sem-manteiga
– e é pouco meiga.
(Ontem como hoje:
digo:
já disse.)


VIII


Cultivo a amizade como um hortelão de couves
sonha rosas.
As madrugadas são frias, as noites também,
os dias acontecem como ecrãs de plasma
pespegados à parede da tarde.
Mas o meu coração não arde, não,
senão de arritmia, que a falta
de juízo torna convulsa.


IX


Uma noite de vento, quanto eu amo
uma noite de vento.
E quanto sou amado por o vento
de uma noite?
Uma noite de vento é quanto peço
e passo.
E passo ao vento
de uma noite,
uma vida.
Tu não?
Não todos
assim?
Não todos assim
vento-entes?

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