Friday, August 01, 2008

PARA UMA CINEMATOGRAFIA DO PEQUENO COMÉRCIO DE VISEU

PARA UMA CINEMATOGRAFIA DO PEQUENO COMÉRCIO DE VISEU
– mas sem borboletas
ou
MAIS VALE ISTO DO QUE ANDAR NA DROGA
ou
ANTES QUE TUDO ARDA – II



Texto: Viseu, tarde de 31 de Julho e fim da manhã de 1 de Agosto de 2008
Foto: Viseu, Rossio, noite de 31 de Julho de 2008



Ontem na noite preta vi um homem chorar água azul.
Ele tinha parado ante uma montra do pequeno comércio.
O vidro vertical não o reflectia.
Ele chorava azul cara a baixo: pensei que ele se tivesse perdido:
ou que amasse alguém: é
a mesma coisa.
Dava-se àquela hora uma ausência total de crianças e de animais.
Nem carros parados havia: a rua era exposta ao hidrogénio da solidão, os passos faziam-se vidro na pedra, o coração congregava os diferentes frios da
hora.

Não sei o que verei, se verei, amanhã.
Escrevo isto ontem.
De olhos fechados, sinto a rusga de cavalos que rasga
travessas e vielas:
sinto e conheço.

Tenho muita pena dos homens que amam
alguém, alguma coisa.

Músculos, dentes, tapetes, óculos, pés,
camisas, sacas, matrículas, marcos, selos,
números, pires, pedras, rapazes, cães:
tenho muita pena da civilização, muita
pena da beleza da boca que diz
cães, rapazes, pedras, pires, números,
selos, marcos, matrículas, sacas, camisas,
noites pretas dadas a águas azuis,
pés, óculos, tapetes, dentes, músculos,
cavalos na rusga rasgando.

Vi amanhã o formoso homem azul:
o meu pequeno comércio é isto: sempre
é melhor do que andar na droga.

A ausência das pessoas é uma tabuleta
cravada no deserto.

O deserto:
estas casas nunca foram habitadas.

É mentira que os mamilos sejam pousados
de borboletas. Tenho moedas, mas fecharam
as lojas: o vento fechou-as, os muitos
ventos que dissolvem os oceanos.

Um dia, os manequins hão-de sair às ruas,
hão-de conseguir abandonar as lojas, darão
passos de pedra nos vidros, virão para mim
vestidos de décadas, de genitálias cortadas
cerce, suas asas de periquito adejando
bandeirinhas de nações que não há, na noite
azul, nas águas negras. Parquímetros oxidados
de tanta espera marcarão o compasso, como
nos casinos desolados que a auto-estrada
exilou, algumas fotografias de grupo isso guardam.

Festivais de marisco em reclamos luminosos
rangem guinadas alegres, analectas escolares
loam elegias aos hipoandrismos da alma-
-mater.
Sobe o sável.

Noutro tempo terei sido o meu futuro
homem.
As boas-noites vos desejo, esta
manhã.

Uma sexta-feira clara como um caderno,
fui feliz na antemão das azinhagas
(e imperadores munidos de adagas
cravejavam esbirros os mais ternos,
era noutro mesmo inverno).

Ciganos pastam caracóis e ouriços a um canto.
Um canto é tudo quanto a voz pode.
Uma senhora muito doente gargalha perdidamente.
Fui a Coimbra ao funeral de um amigo, vim de lá com ele.

Tenho o mapa das estradas nas palmas das mãos:
deltas livres para quedas idem.
Tanta estrada e nenhum caminho.
Engenheiros com conhecimentos no município
engendram passeios pedonais
a tanto o quilómetro,
o abacaxi a tanto,
um filho a estudar em Aveiro sempre dá
despesa.

Em baixo, a casa do Hilário vê passar a malta
do smoke e do drink e de Abraveses
e de Repeses.

Na Aguieira, a pérola é azul entre verdes.
Os cavalos rusgam espumas, mães também.

A minha solução é aceitar que todos durmam,
antes que tudo arda,
II.

1 comment:

Rui said...

"vestidos de décadas"

Para quê isto? Para que tanta beleza, logo hoje que até vou de carro para o Malgarve?