Sunday, August 17, 2008

MAIS ANO MENOS ANO, MAIS FEIRA MENOS FEIRA, MAIS SANTO MENOS SANTO, O TEMPO É UM ÓLEO DE FRITAR MENINOS


(estrofes-farturas para uma Feira de S. Mateus alternativa)

Viseu, nas imediações da dita, tarde de 16 de Agosto de 2008



O ourives e o homem do lixo são irmãos, juntaram esta tarde as respectivas descendências para um almoço amerendado, é sábado, troa lá em baixo a feira anual do santo.

Rondam os meninos como aves de entardecer no bico, as árvores frestam alto papéis amarelos feitos de luz rápida como pensos de ciganos, é sábado e é a vida, a vida ao lado da gente na rua como uma pessoa que passa pela gente.

Nos cabos pousam os corvos como notas de música, não, como pausas de música: ouço-os com os olhos enquanto planeio comprar um chocolate, ou um frango, ou um vaso. Eles adejam luminuras de feira, os corvos.

Rulotes parecem-me cristais, não sei porquê. Os meninos do ourives e os do lixeiro incandescem de corridas na gravilha sem ira e sem obrigação. Cheiros materializam-se como defuntos incapazes de readormecer.

Agora já não se fala nisso, mas tempo houve de as pessoas não poderem vir à grande anual do santo, tolhidas nos casebres das aldeias pelo sono em fome dos animais da criação. À luz do azeite, a fruta colhida ourejava contra o desespero.

Ouro e lixo. Meninos e corvos. Sábado e vida. Corvos e rulotes. Chocolates e frangos. Árvores e papéis. Corvos e olhos. Merendas e descendências. Pessoas e gentes. Cheiros e corridas. Corvos e corvos.

Aqui não soa o bramir dos cargueiros, aqui não raspa o mar as madeiras de ancoradouros nenhuns, há uma língua ribeirinha traduzida em fragmentos de lixo, plástico mormente, que as pessoas dizem à vida lateral do santo anual.

E os casais movidos a óleo alimentar bambam pelo recinto suas coronárias de média tensão: delas, o rego mamário farfalhando celulilaranjas; deles, os calções de alcooatletas acima das sandálias atiradoras de unhas grossas, amarelas. E as filhas já namoram nos bancos de trás de viaturas de matrícula francesa.

O ourives e o homem do lixo e eu somos todos irmãos – e todos quase amamos quase muito o país anual, o santo de feira, o galo escarlate e a couve roxa – e os meninos, já agora.

(Que ao menos a língua me não negue o que a vida não tem obrigação de me dar. Se, por exemplo, por aqui não houver vinhedos e trigais cabelando a terra, que triguedos e vinhais à terra cabelem, frestando-a de rápidos papéis amarelos, verdes.)

Pelas pedras que calçam a cidade, não riscam já chispas de eléctrico ouro as mãos dos cavalos, a bordo de que defuntos capitães reviveriam o corso dos saques, o terror dos conventos, a devoção capelista das malcasadas e os versos de cordel a prègar na feira do santo.

Alteram as massas meteorológicas os estados espirituosos. Flui bem a aguadilha dos suores, nem todos frios. Ressuma o sarro interdigital dos pés amorteirados de vianda e ossos porosos da perfuração porcívora. Ladram os altifalantes a espúria euforia emigratória. E cães de ninguém tossem esganas e espinhas.

Relvaram, ainda assim, uma margem pedonal. Um súbito pinheiro resina resignação contra ninguém: morto ou vivo. Rapazes de cinquenta e picos peidam-se de pêras de vinho, de arroz de frango e de aleijões de farturas. E uma espécie de ternura digestiva desce ao lugar em lugar do santo e em vez da gente.

Os meninos vão ser homens (de ouro, de lixo) mas não o sabem, não ainda. Agora sossegaram um pouco, aturdidos de química framboesa gelada e de cuspo de manga laboratorial. É tudo, como sempre, no poço-da-morte, mas em vídeo agora, dá no mesmo.

E se uma pessoa a si mesma lesma uma baba de versos, que prosaica se salvar venha, aqui ao monturo de cascas de fruta, de roídos entrecostos, de corvos churrascados, altos, numa baixeza de papéis e frestas.

Os meninos agora têm vidro, ou frio, em suas carcaças ambulatórias. A eles pertenceria o súbito pinheiro, se dele pudessem aperceber-se em retina, rotina, uso, hábito e idioma: mas o mais é altifalante, é óleo alimentar.

Lixo e ouro. Junção de vielas e transversos. O trigo subido de uma cabeça loura, a cujas faces presidem duas esmeraldas azuis: e a que subjaz uma ganga apertadora de febras, fímbrias, fiambres: alguma das filhas, irmãs mais velhas dos meninos expostos em ronda e derredor.

Toca-me de bolos uma venda de pano branco em tabuleiro de vime. A madrugada pode urdir assassínios domésticos e de alternes, mas por ora dá-se tão-só o doce urdume do sol em malvasia, isso tão português do entardenoitecer, atentos os meninos do lixo e os do ouro a seus pais e a seus versos corridos a prosa de cordel.

A fonte rotunda-se ainda, rapazelhos-clones basculam cãs prematuras e tardios telemóveis, ciganos rendem-se ao cristianismo esmoler dos pensos-rápidos, há até portugueses na ronda dos expostos. Entretanto, o santo.

Já decano, o ano emoldura-se de maravilhosos esquecimentos. Os preços, os estendais de roupa, os balões inquietos de hélio, os vinhais, os vinhedos, os trigais, os triguedos, as mulheres capelistas ante defuntos bandoleiros capitães acavalados, as cidades dos séculos XIX e XXI apenas isto, secular apenas – e apenas anual, santa embora, embora de ouro, de um lixo de meninos, irmãos todos, nós, meu santo.

1 comment:

incomunidade said...

santamente(re)publicado na incomunidade