Sunday, April 20, 2008

Voz para Vós

TÁBUA

I. CHEGUEI PELOS TRÂMITES DA ALEGRIA
Viseu, fim da manhã de 19 de Abril de 2008

II. PERANTE MULHER COM BOLETIM E CHÁVENA
Viseu, tarde de 18 de Abril de 2008

III. RUMO À MARISQUEIRA
Ibidem

IV. ISTOS
Também

V. NENHUMA25VIDA
Mesmo sítio, mesma tarde

VI. TEMPO DE TEATRO
– DECLARAÇÕES UNIVERSAIS DE UM HOMEM DIREITO
(UM HOMEM OU DOIS)
– para ler por dois (ou um só, tanto faz) leitoractores
Viseu, entardenoitecer e noite de 19 de Abril de 2008



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I. CHEGUEI PELOS TRÂMITES DA ALEGRIA
Viseu, fim da manhã de 19 de Abril de 2008

Cheguei pelos trâmites da alegria
a estas ruas sobre que tanto graniza
ruas da negra manhã do meteorológico boletim
e trago comigo a alegria rediviva
minha pobre Mãe pobre
rica tanto de quanto te amamos
nós
os que para as ruas de chuva a Senhora soltou
de seu vivo útero de cor grená.
O rapaz míope serve-me uma taça de branco
o senhor da loja das camisolas pensa à porta na vida
somos três a não ter ido para os mares do norte
Viseu, um sábado.
Comemoro ó Senhora minha Mãe os meus trâmites.
Já não devo nada a ninguém.
Devo satisfações à minha mulher, à casa que fazemosvivemos.
Chove muito negramente lá fora cá dentro
um dia me acercarei do para onde a Senhora vai
perfumes de broa de dálias de farinheira chegarão
a nossos defuntos narizes estou certo que chegarão.
Tenho uma mulher, Senhora Mãe.
Ela organiza os móveis, põe-me pão velho
no saco para as pombas.
Tenho meia-dúzia de amigos dispersos pelos ventos.
Vulgar saudade tenho das infâncias múltiplas da velhice
do senhor Fernando Duarte de sua esposa Dona Alice
octogenários como a senhora, Senhora Mãe.
Ando por estas ruas de casaco castanho.
Sou um corpo gramático quilogramático fotogramático.
Tenho uma língua na boca uma Língua no coração.
Sou um português à chuva pelas ruas, é sábado.
Pode ser tão triste, estar vivo.
Pode ser tão triste, ser português.
Eu estive voluntariamente na praia, paguei e fui.
É provável que nunca tenha voltado.
Eu não sou um caso especial.
As pessoas sentem-se.
As pessoas dão-se a cizânias.
Esta mesa é de madeira, alguém cortou uma árvore
para que vos pudesse escrever, que é dar-a-ver.
Uma divorciada fuma cigarros de mentol.
Os loucos recuperam pelas ruas a Idade Média de Viseu, Lisboa.
Senhora Mãe, como sabe, uma pessoa.


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II. PERANTE MULHER COM BOLETIM E CHÁVENA
Viseu, tarde de 18 de Abril de 2008

Perante esta mulher vos digo que não é vossa
nunca mulher alguma é tão pouco nossa
como qualquer mulher. Não ao homem é dado ter
obter pode ser que sim mas ter não uma mulher.
Olho esta como quem sem bilhete fica à porta da festa.
Ela surge toda ao mesmo tempo como por assim dizer
um cavalo lavado que a chuva toca mas não pode tolher
sequer molhar. Gosto da presteza com que cruza
rápidos números no boletim dos eurotostões.
Como desenvolta apruma à boca a bica
e fica de mão no ar ebúrnea e vítrea e vária
de quantas iguais já vi em anos de diversos
versos.
É de tarde chove muito e muito foi o que ontem
trabalhei como aliás hoje também.
Sosseguei-me aqui escapado ao que chove
as coxas das calças húmidas os lamentáveis sapatos
e o cabelo curtinho e molhado como pêlo de ratos.
A esta como a nenhuma vai homem algum apanhar
lá vai uma lá vão duas três pombinhas a voar
a homem nenhum é dado mais que alguma frequentar
estar é que nunca ser e ter muito menos. São como as casas elas
muitas salas muitos quartos muitos ameaços muitos partos
mas um homem sai por onde entrou
e é sozinho que fica como elas sós,
como só elas sabem assim levantar café e mão
num gesto da mais pura depuração.
Concorrem ao eurotostões por desfastio
previnem-se sempre de roupa para o frio
que a vida faz e são tristes construtivamente
como nós homens não sabemos consecutivamente.


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III. RUMO À MARISQUEIRA
Ibidem

Teremos ainda se não juntos ao menos ao mesmo tempo
alguns setembros. Julho não que os ardi todos na infância.
Importa nada que esquálidos nos sejam os corpos
ao vento levados e lavados e trazidos a vento pelos areais.
Que tudo quanto nos desejo é um pouco de dinheiro
tal que visto cheirado sentido o mar recolher nos possamos
a uma marisqueira onde nos sirvam
algum pescado perfumado de orégãos
algum caldo com coentros
alguma da serralharia crustácea
de fins de domingo fazendo frio já apesar de setembro.


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IV. ISTOS
Também

Isto a que chamamos amor
fotocópia é do que desejamos
a nossa senhora mãe a nosso pai senhor
como deles provimos a eles voltamos.

Isto a que chamamos pensamento
surdo cinema mudo é que não muda
sequer um segundo do mundo por um momento
mor agonia sem mor ajuda.

Isto a que chamamos casa
e abandonar temos como a cães
e a mortos próprios à brisa
e a rimações outros alguéns.

Isto a que chamamos viagem
em tela negra tão total
que do nascido a mesma imagem
reduz projecta Portugal.

Isto a que chamamos lar e eira
este vento fresco na oliveira
esta avó morta ’ind’ à lareira
a vida toda a morte inteira.

Isto a que chamamos bailarina
curva porcelana sem fabrico
meio estatueta meio menina
ela fica eu não fico ela fica eu não fico.


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V. NENHUMA25VIDA
Mesmo sítio, mesma tarde

Nenhuma vida nos perdoará não termos vivido-a.
Bebido-a que seja ou fosse ou fora ou não tenha sido-a.
Nada nem ninguém nos perdoará nós não.
Um vento atravessa a sexta-feira: e nós, então?

Pensa nisto comigo. Isto é o lápis de um menino chegado
ao cais. Pensa os barcos que os meninos vêem de longe.
Pensa na outra banda, a d’além, onde laranjeiras e gado
são sempre além, Mãe, são sempre além.

É o tempo agora – e corre curto, o cabrão.
É o tempo das flores, das ainda-retrosarias
onde comprar o floral elástico
p’ra cuecas de nossas marias.

É o tempo da liberdade toda
o tempo da madurez pré-podridão.
Não é de baptizado nem de boda.
É tempo de não dar tempo à servidão.

Modos que 25dabrilsempre.


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VI. TEMPO DE TEATRO
– DECLARAÇÕES UNIVERSAIS DE UM HOMEM DIREITO
(UM HOMEM OU DOIS)
– para ler por dois (ou um só, tanto faz) leitoractores

Viseu, entardenoitecer e noite de 19 de Abril de 2008

Sou como vós da pátria da noite
da pátria da noite sou como voz.
Ando pelas ruas tiro palavras vivo discretamente.
Sou o homem que é educado ao balcão.
Sou ao balcão o que não ladra nem morde.
Tenho uma colecção muito particular muito jeitosa de filhos-da-puta.
Gosto de comentar a chuva com as mulheres velhas.
Gosto de indignar as pombas chamando-lhes galinhas bonitas
galinhas lindas.
Sou por assim dizer um coirão.
Transporto um pénis um coração um risco ao lado.
Não sou um caso especial.
Também não sou um filho-da-puta
excepto quando é preciso
já tem sido e portei-me magnificamente.
Gosto da redondilha maior.
Da menor também gosto mas é mais difícil
eu acho.
Há versos que ficam dentro de mim.
São versos que me vêm de fora.
Sofro mais do que o meu corpo.
Gosto de alguns vivos falo para alguns mortos.
Às vezes olho-me a mão esquerda como se fosse doutra pessoa.
Eu também sou doutra pessoa.
Eu ando por aí e digo.
Nunca vou desistir vou só cansar-me.
Durmo entre pinheiros numa orla de barragem.
Sou o irmão mais velho dos meus sobrinhos
o tio mais velho das minhas filhas.
As palavras contam-me segredos irrelevantes.
Sou triste mas gosto de fazer rir a rapaziada.
Uso asas nas costas quando digo obscenidades.
Transporto um pénis não é obscenidade.
Faço como vós amor nos sofás que posso
posso e faço amor como vós.
Este é dos tais poemas que nunca leria à minha Mãe
nem à minha Irmã(e).
Não tenho ilusões versos são tintadechinesices.
Tenho sábados domingos não tenho ilusões.
Às vezes há vozes.
Às vezes chego a casa com um poema.
Chego a casa com um poema leio-o à minha mulher.
A minha mulher olha-me a boca como eu olho
a minha mão esquerda
às vezes.
Eu agora não sou um menino sou casado tenho uma gata.
Parte do orçamento familiar é minha responsabilidade.
Eu tenho de fazer isto até o fim da vida.
O fim da vida pode ser pode não ser hoje.
A desimportância disso é um caso pessoal.
Não digo um problema digo um caso digo pessoal.
Gosto de ser educado aos balcões.
Há balcões que me conhecem.
Também só venho quando tenho moedas.
Nem sempre tenho moedas mas as palavras não me faltam.
Daqui vejo a plateia vazia esplanada.
Explanada para nada.
Vivo no corredor dos ventos.
Sou como vós um corredor de ventos
corro os vento como voz.
Já andei tão sozinho como um cão à chuva.
Vi o sol em adros de igreja olhei os campos.
Olhei os lírios do campo fui o sal da terra.
Retinei visões de animais caleidoscópicos.
A lição das estrelas é fria e exacta e correcta.
As estrelas desenham grandes animais.
Nem sempre cedo à tentação das rimas.
Um trecho de rio é quanto me basta para livro.
Todas as letras de rio estão na palavra livro.
Muitas cidades uma só as nossas vidas.
As nossas vidas um dia retratos.
Um dia estas praças sem nós.
Tenho uma opinião respeitável sobre a situação política.
Como poucas bolachas sonho com campos de trigo.
Sofro amores irredimíveis invencíveis.
Olho uma parede vejo vozes nas paredes como retratos.
’inda hei-de ir aos cornos a este e àquele gajo.
Fá-lo-ei delicadamente.
Fá-lo-ei até com pena. Fá-lo-ei.
Tenho uma força que o Tempo cinzentará.
Sou o vosso homem hoje não é o guimarães-marítimo
é o marítimo-braga.
É sábado é a pátria nocturna do sábado.
Antes de almoço caiu granizo pedra saraiva.
Comentei a queda com mulheres velhas.
Olho-as acho-as a minha Mãe repetida.
As mulheres velhas gostam de falar comigo
acham-me parecido com os homens dantigamentedelas.
Eu sou parecido com antigamente.
Uma vez falei com um homem antigo.
Ele percebeu que eu queria falar com outro século.
As mãos dele eram de casca de árvore.
Ele ramalhava.
Ele tinha comprado uma folha de mármore para a mulher.
A mulher tinha-se-lhe ido. Ele nas pastelarias
olha o jornal sem ver.
Ele sabia mais nomes de ruas de mortos do que eu.
Eu nunca vou ser como ele quem tem de comprar
o mármore é a minha mulher conto com isso.
O marítimo ’tá a dar quatro-a-um ao braga.
É de noite sinto-me patriótico vosso compatridiota.
Esta é a minha vida. Gosto de favas.
O meu irmão gostava de favas já não gosta.
As pessoas têm muito a mania de não
gostar de favas quando morrem
as pessoas têm muito a mania de morrer.
As pessoas nem sempre têm a mania de viver muito.
Eu lembro-me homens adoçados pelo pôr-do-sol
trabalhavam muito nas fábricas nos campos
pelo pôr-do-sol regressavam como animais cansados
cansados mas vivos cansados mas adoçados
pelo pôr-do-sol era na minha infância
eu sempre vi homens eu hoje vejo retratos.
Este começa a ser um poema que eu leria à minha Mãe
e à minha Irmã(e) também.
Estou numa cidade feita de pedras devagar.
Se um filho-da-puta me abordar (tentação da rima)
parto-lhe ambos os cornos um com cada mão
nem que seja meu irmão.
Não há outra loucura nisto que a da vida.
Chove tanto hoje velha senhora Margarida.
Comprávamos ovos à senhora Teresa.
A senhora Teresa era uma mulher de duas filhas viúvas como ela.
Tinham reformas vendiam ovos bebiam chá devagar
olhando o monte o meu monte o monte onde deixei
a pele da infância.
Comecei a gostar de livros por me lembrar de mulheres.
Não eram mulheres. Eram senhoras.
Comecei a escrever livros quando mudei de substantivo.
Eu agora faço falas para vós.
Eu agora faço falas para voz.
Tirando os filhos-da-puta ninguém também
vai andar por aí a fazer-me dizer-me mal.
Eu já tenho versos já sou citável e o caraças.
Há pessoas que se metem comigo por computador.
Um escritor inglês esplanava as mãos muito brancas em tampo verde
de mesa de jogar às cartas.
Nem caderno nem caneta só as mãos muito brancas na flanela verde.
Disse eu assim para mim quero ser assim.
Quero umas mãos um tampo verde um tempo.
Quero dormir dentro quando estiver para morrer.
Uma orla de barragem uma sombra de vetustos pinheiros.
Estou a falar contigo.
Fora de nós os nossos olhos-nos-olhos.
A minha cara aproximando-se de retrato.
As velhas senhoras cheirando a continente.
As velhas senhoras cheirando a incontinente mijo de velhas.
Os retratos juvenis para sempre das minhas filhas e das vossas
e dos meus sobrinhos.
Calma.
Ainda posso possuir devagar certas porcelanas
esses objectos que são a família em vez dela
nas mudanças de casa nos tropeções da vida
nos anos atirados fora como cagalhões.
Este é o meu tempo. Pertenço-lhe. Faço
falas para vós para voz de teatro.
Ainda há tempo. Cuidai das avenidas
ao domingo quando a oblíqua luz
vos trestraspassar o coração
esquecei não o pão para as pombas galinhas bonitas
galinhas lindas.
Depois fecharam as fábricas desempregaram os homens
da minha infância.
Viviam calados frente à mercearia.
Olhavam para a vida como pedintes.
A Pátria existia mas não era nada connosco.
Eu fui para a universidade aprender a lamber merda.
Não lambi.
Vim para aqui fazer versos para vós
vim para aqui fazer versos para voz.
Escrevo versos em cafés tutelados por
putas brasileiras de acrílicos colãs.
É Viseu faz-se noite.
Todo o mundo é Viseu todo o mundo se faz noite.
Sou como vós. Sou como voz.
Devagar. Sou como. Como sois?

1 comment:

Manuel da Mata said...

Quando a coisa tem de ser medida,a redondilha maior à menor prefiro.
Gostei deste conjunto. Sinceramente.
Abraço,
Manuel