Tuesday, April 15, 2008

Contrato e outras linhas




Hoje, fui de manhã à zona termal de S. Pedro do Sul, na Fontinha. Há lá um café bonito à beira do Vouga. Trouxe de lá um contrato em duas partes. Dos outros dias, tenho recolhido em Viseu muita palavra. Aqui vo-las deixo. A foto é do dia 10 de Abril de 2008.


TÁBUA

I. CONTRATO
S. Pedro do Sul, fim da manhã de 15 de Abril de 2008

II. NÃO SOMOS CONTEMPORÂNEOS DE NÓS
Viseu, tarde de 14 de Abril de 2008

III. REPETIÇÃO
Viseu, tarde de 13 de Abril de 2008

IV. TIRANDO O SEXO E O GUIMARÃES-MARÍTIMO, NÃO SEI DE QUE TE FALE
Viseu, fim da manhã e tarde de 3 de Abril de 2008

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I. CONTRATO
S. Pedro do Sul, fim da manhã de 15 de Abril de 2008

I
Nada me digas que não queira saber,
nada me contes que não possa esquecer.
Posso viver de ti todas as vidas que não saiba.
Não me é impossível ter-te fora de ti.

À beira do Vouga, em S. Pedro do Sul,
tenho comigo os mortos e os vivos.
Devolvo a uns e a outros os versos encontrados
pelo chão, pelo ar e vendo o rio.

Com eles estabeleço contacto e contrato.

II
Que este seja o nosso tempo, ninguém no-lo roube, que dele mesmo se rouba a si mesmo ele. Ouçamos o canto simultâneo das águas, sobretudo quando as não vejamos, pode ser o único mar, os rios únicos podem ser. Sempre por perto as árvores resistirão ao fogo, cinza é a nossa vocação, não a delas. Sinto isto esta manhã – cheguei preparado para a vida e ela não estava, sentei-me ao pé do Vouga à espera dela, pode ser o Mondego como o Pavia como o Tejo como o Ceira. A vida retornará, que não consegue ela resistir à sereia de cada rio, que o canto das águas a cada rio torna sereia – e nenhuma cera pode juncar-nos para sempre os ouvidos, esses olhos interiores que em cada homem cada mulher deixam cantar. Alternam o sol e a neve, não são como antigamente os outonos, nada tem de si mesmo a antiga mente. Como poderíamos nós primaverar os perdidos outonos? Todos fomos já obscuramente felizes – e agora. Agora fazemos como podemos. Eu escolhi as ruas do comércio, pistas de vidro escurecido pelo desejo das coisas por que ambulam os seres mais gémeos do mundo, os olhos tristes que denunciam escassez de moedas nas algibeiras, agora já ninguém diz algibeiras, diz bolsos ou, pior, pochettes. Se me vísseis aqui, à beira do Vouga numa manhã construtora de rápidas eternidades, diríeis decerto que faz este gajo aqui em vez de nas obras ou atrás de um balcão de lotarias ou empadas ou num escritório a escrever números ou assim. Resulta o mesmo, amigos queridos que queridos sois de outros amigos – e todos passamos, queridos ou não, querendo ou não. Uma mãe jovem chama ricardo a um filho como se o menino fosse um aperitivo francês ou algum rei inglês, como se Shakespeare viesse a vermutes a terra de termas. Só aceito o inaceitável, que este seja o nosso tempo, areia a nossa condição, seda o nosso papel voador de papagaios de cana e cola de farinhágua. Temos sim pousados nos ombros os corvos, em vão enxoto os meus com versos bonitos e tristes e para esquecer. Pode de repente apetecer-vos vitela no forno para o almoço, não tem mal, que a tarde sucederá como um outono cada dia, a tarde é o outono do dia, toda a gente sabe isso, se não dizê-lo ao menos tê-lo, cada dia. Na tarde do dia número doze deste mês, por exemplo, perdi um verso a caminho de casa. A caminho da morte outros perderei, como da vida. Mal nenhum: a insignificância perde-se sozinha. Gostaria, naturalmente, de não perder versos. Talvez gostasse bem mais, no entanto, de os não achar. Não nos percamos, ainda não, neste tempo a que chamamos nosso mas a que de facto pertencemos, por contrato.

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II. NÃO SOMOS CONTEMPORÂNEOS DE NÓS
Viseu, tarde de 14 de Abril de 2008

Reitera-me a manhã a graça do ouro, o ouro da graça.
Passo de pés doentes ao sol da praça.
Vim a ver os homens pobres, as pobres mulheres
de estampadas blusas, medusas, malmequeres.
Deus fez as igrejas e foi-se embora e desapareceu
de casa de seus pais.
Tenho os pés doentes, coxeio rua afora.
Num saco porto pão para as pombas,
as unhas das mãos roídas e rombas.
Já morei rente ao mar e não o via,
a vida como entre montes decorria.
Foi muitos anos depois de me mudar
que entre montes o vim a achar.
Não têm os eus com os corpos contemporaneidade,
a cidade é o campo, o campo é a cidade.
Isto pensa, sente, diz e escreve um eu,
pelo fim da manhã da cidade de Viseu.

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III. REPETIÇÃO
Viseu, tarde de 13 de Abril de 2008

I
Repito já dos antigos homens
o lento domingo e o lento passo
que rápido aprendi quando adolescia
e o domingo era o dia repetido.

II
Nas rodoviárias se escreve a bíblia dos pobres
sacos em vez de versículos
tantos em vez de santos.
Levam galinhas vivas garrafões vivos
e acumulam no meu coração o velho
evangelho da pobreza remediada contra a morte
deles e minha
por enquanto.

III
Parece-me por vezes o coração
não o que levamos aos médicos o outro
um calendário com mais santos que dias
um coração por assim dizer fora de cardiologias.

IV
Antigamente o pai dançava com a filha
no baile do casamento da filha.
Hoje a filha aceita comer um bitoque
no do pai
outra vez.

V
Tenho dois três quatro trapos no roupeiro.
São o que deixarei do corpo
não os versos.

VI
Um
dois
três
quatro versos.

VII
E há esse tempo que não quero deixar não ainda.
Havia no meu corpo uma saúde de pessegueiro.
Remela de verniz brotava da pele ao sol.
E eu como vós vigorava num vento vegetal.

Passavam autocarros mas qual rotina?
A vida aventureira era acordar.
Dizia-se por graça uma graça a uma menina.
E havendo gente na mercearia era esperar.

Apertam-se-me ora as veias na cabeça.
As fontes dão suíças já nevadas.
Escreverei é certo quanto me apeteça.
Sou gajo p’ra entrar em desgarradas.

Como vós vigoro ainda neste tempo.
Os pêssegos são contumazes relapsos animais.

Ora nem menos e ora nem mais.

VIII
As velhas pelas ruas do meu País
tão parecidas com a minha Mãe
as velhas pelas ruas do meu País
tão iguais cada uma a minha Mãe as ruas do meu País
tão iguais às minhas palavras
por exemplo
o meu País
tão igual ao meu Pai
que me basta tirar-lhe
ao País
o acento do i
e o s
para me tornar filho
do meu País
por essas ruas velhas.

IX
Toda a gente aceita morrer mas ninguém
quer estar morto isso não convém
sobretudo quando ainda se procura trabalho
ou que fazer ou o caralho.

Toda a gente é igual menos na marca do carro
na atitude perante o anoitecer de cada dia.
Toda a gente cedo ou tarde solta o escarro
mas nem toda a gente é gente de poesia.

Que lhes aliás interessaria
o ano mil segundo Georges Duby?
E a máscara de Dylan, o Thomas não o Bob,
que lhes interessaria agoraqui?

Toda a gente aceita centros comerciais
quando quanto maiores que a cidade melhores.
Sempre dá pró find’semana mais
serem as lagartixas do que os aligatores.

Versos ninguém quer. Nem homem nem mulher
vão por erotismos da fala do falo muito menos.
Nascemos é breves. Morremos é pequenos.
Nascemos é breves. Morremos é pequenos.

X
De amantes sejam gemas os poemas
diamantes que não gemas
só poemas só poemas.

XI
Anil clarão azuleja um fim mais a oeste
onde o mar não visto banha equadores.
A gente tem de ter amor que preste,
não pode passar a vida em desamores.

Hoje é domingo. O centro comercial
fechou portões, igreja consumida.
Uma vela ardendo vale a mesma vida
que a vida acenda bem ou mal.

Isto é tudo tão verdade. A verde idade
não mora no corpo que a escreve.
Mas é passeando pela cidade
que a língua leva o corpo leve.

Nenhum quilograma. Quem ama
nem sabe quanto vale a pesagem.
É um anil clarão, domingo chama
à vela a bela anil imagem.

XII
Pressuroso toque em a redondilha virilha.
Temos contas que esperam fora dos corpos.
Não, o meu marido não se mete assimunto nos copos.
Ele é muntamigo dànterior filha.

Eu faço pela vida, ele desfaz a dele.
Assim s’entendemos, renda cada mês.
À noite, os dois nus, a pele co’a pele,
’xotamos o gato e é outra vez

o amor a fazer, ternos empurrões,
os riscos dos dois somando impérios.
Falta-nos a luz, são só apagões.
Acorda a manhã, içamo-nos sérios.

Dia de trabalho, é segunda-feira?
Repito de amantes os antigos homens.
O milho partido oureja nas eiras.
Os homens são velhos, os versos são jovens.

XIII
Hei-de ter fora desta vida um crisântemo
um carro melhor que o teu uma mulher melhor nua
que a praia aonde levas a tua.
Hei-de socorrer-me sempre desta agonia
que melhor que o teu dia é por falada.
Falada e rimada meu querido falada e rimada.
Hei-de ter contra ti um crisântemo e mais nada.

XIV
Haveria eu então de perder o dia
domingo que seja sem dar luta?
Fosse eu o filho da mais puta-maria
fosse como tu o filho da maria-mais-puta.

Não.

Ainda assim eu saberia
não perder este dia
como tu sem saber ser
filho da Maria.

XV
Não voltes tarde a casa não percas tudo
define casa define tudo

cultiva morangos aos borbotões no coração
não sejas burro meu vizinho meu cão meu amigo meu irmão
o tempo é pouco para cultivar sardinheiras
na praça os agriões estão pela hora da morte
como nós
mas tu meu caro dá voz aos agriões
não louves as fraudes não vás a apresentações
de merdas que nada acrescentam
mas tudo apascentam
digo

a poesia de merda dos merdas que nunca chegam a poetas nem a horas
os quistos sebáceos espremidos em suas boquinhas funcionárias
o esplendor dos melões dos colhões e das amoras
o esplendor dos poetomerdas que comem a merda e as secretárias

nada disto te faz conquistador do inominável eu a que chamo tu
nada disto te torna navegador de mares esbracejados
nem subsidia nada teus próprios versos mortos-nados

não voltes tarde a casa não percas tudo
não voltes tarde
não voltes.

XVI
O tempo de uma frase é um minério.
Entrar num café, uma geologia.
Dona Sofia, bom dia, está a tarde fria.
A frase é dita por um homem sério.

XVII
Um dia um de nós faltará
havia cozido à portuguesa e ele esqueceu-se
meteram-no em roupas brancas desencarceraram-no
havia cozido e ele esqueceu-se.

A gente fica na pátria a gente deve às finanças
para os bailes da morte nem cêntimo nem danças
um dia um de nós faltará
será triste e bonito e o sol brilhará.

XVIII
Como um casaco alto
num dia de inverno
seja a palavra que eu deixar
seja a palavra que me deixar
ter sido um casaco
por um inverno.
Alto.

XIX
Volta a casa e sê inicial no domingo acabado
tu e os outros.

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IV. TIRANDO O SEXO E O GUIMARÃES-MARÍTIMO, NÃO SEI DE QUE TE FALE
Viseu, fim da manhã e tarde de 3 de Abril de 2008

I
Ainda há tempo e nada quero.
Sujeito ao sol, dele sou objecto.
Venha o vento a dar o acto
exacto e grande ao que tiro

da vida: um andamento
entre pessoas pobres e casas
como elas pobres enquanto
correm as grandes, exactas brisas.

II
A linha nº 6 é a de Orgens-Santo Estêvão.
Os óculos escuros barricam esta senhora.
Mas eu não espero já que se comovam
nem os ceguinhos nem São Cristóvão a esta hora.

Manhã na cidade: bolsa de luz,
transpar’cida medusa mundial.
Deus é quem dá a chuva. O sol, Jesus.
Viseu, Café Avenida, Portugal.

III
Adventícios e adventistas,
Maurícios e Baptistas,
de todos há por estas ruas.

Snackalmoço, no intervalo,
poema com ovo-a-cavalo,
batata ’scritas duas a duas. .

IV
Vim para o norte num comboio nocturno.
Para a morte se vai ficando.
Dizem os vivos: – Vamos andando.
Na vida fui eu já q.b. diurno.

A boca toda entrapada de seda.
As adocicadas palavras do comércio.
Dou-me todo por tudo e por nada,
não valho un sou nem um sestércio.

V
Os meninos pedem bolos às mães,
comendo crescem por dentro na boca,
não podem saber ’inda quanto amargarão

a presente presença do passado,
quando, perante montras, nas ruas,
as mães já só tiverem estado.

VI

Não sei de que te fale, mas não
é por falta de palavras, não.
É mais por fadiga do coração.

Nos bares a madeira ressuma bosques.
Luz a joalharia estantes de vidro.
Perto, a igreja refulge no adro.

VII
Esqueci-me de ir à igreja pedir qualquer coisa.
Um sinal, um guisado, uma muda de roupa.
Por versos exponho a falta de bolos.

Tenho pão num saco, ’inda ontem
contei p’ra que serve: uma busca de aves.
Pousam na igreja, não me lêem nem ouvem.

VIII
Não, não me esqueci, fui dar de comer ao gato
que ontem me deu a primeira de quatro prosas.
Sim, não, não me faltaram hoje as rosas.

Levei arroz de carne de outro dia.
Tinha-o no frigorífico, arrefecia.
O gato gostou doarrozdasrrosas.

IX
Alguma poesia é de alguma pessoa
a própria profecia.
Digo eu, que a não digo, quem diria.

Mais certo é, ao sol da Praça de D. Duarte,
Viseu, ter arte de pessoa.
Que isto é Viseu, não é Lisboa.

X
Ficarás sozinho em teu vinho.
Portarás pão de pombas, que esmifrarás.
E nunca terás sido mau rapaz.

Estenderás os pés de cera agudamente ao tecto.
Tuas filhas te terão o amor mais discreto.
Teus netos te repetirão a cera e o vinho.

XI
Deus institui que uma parte da água seja para fazer olhos
e que os olhos subam ao que for rosto
e nele constituam a nostalgia das muitas águas
do mundo
as represas as lagoas as ribeiras as baías

e que cada olho com diferente cor do outro
do mesmo rosto
olhe.
E depois é quinta-feira
e a gente
nem sabe para onde
(m)olhar.

XII
Passou poragoraqui um gajo cujo oblíquo andar ou era da vaidade
ou dalgum quisto dermóide incrustado no cóccix,
não sei.

Sei que as pessoas partilham a vida com elas sós,
não sei,
por este andar,
não sei.

3 comments:

Anonymous said...

Mene, vai ao porco. Tá lá uma foto-post que vais adorar.
Exupério

LM,paris said...

Bonsoir daniel,
je sors d'une nuit qui se termine
en décalage horaire...
le rythme dans vos vers, celui de la marche qui provoque et accepte son du.Ce qui vient, je prends.
La langue réinventée dans votre bouche passe dans votre escribe matière, ou du pareil au-même, étrangère comme il se doit. Se vivesse aqui, ainda acabava algelmado à cadeira do aviao de volta a um pais que nao conhece mas que dizem ser o seu...estrangeiro, é mau, rua!
poesia sua, alimento. quando vier de ir ao porco, eu conto-lhe o que fazem aos porcos, numa quinta na china, um...artista plàstico belga...suspense.
Como era a frase do escriba Barthelby, de Melville? A negaçao, lembra-se?
"I'LL prefer not do, or be?...
bjos lidia

Daniel Abrunheiro said...

já estou curioso, Lídia, mas cheira-me a barbaridade contra os animais.