Thursday, April 03, 2008

Quatro Prosas para Vós, para Putas e para um Gato

Viseu, tardinha de 2 de Abril de 2008

1

Há muitos anos que não via um gato comer pão.
Vi agora.
Vindo de junto à Sé, desci a Rua Dr. Maximiano de Aragão à procura de pombas a quem dar do que me sobrara em casa.
Encontrei-as onde a Aragão esquina com a de Serpa Pinto.
Há ali uma igreja cancelada, que nestes tempos até Deus se vê laqueado a cimento.
Para lá da cerca de ferro, um adro mínimo pareceu-me bom sítio para atirar o pão.
Elas interessaram-se pela equívoca rainha-santa masculina que às vezes sou, faltando-me as rosas.
Não desceram a comer a oferenda porque, de repente, do nada, um gatito famélico apareceu a dar conta do recado.
Escolheu os bocados mais sólidos e pôs-se a comer.
Notei-lhe a harpa das costelas gradeando de sob o casaquito sujo de cor brancamarela.
Fixei o sítio, amanhã trarei vitualhas mais orgânicas, assim ele por lá (de)more.
Desandei.
Desci a Serpa Pinto até meio, cortei à esquerda, atirei fora a ponta do cigarro.
Então, subindo para mim, um rapazito de menos de quinze anos pediu-me, com humílima timidez, tabaco.
Menti-lhe que não tinha.
Mas deveria ter-lhe oferecido do pão que me sobrou no saco, o saco que, por toda a cidade, trago e levo em busca de pombas, faltando-me as rosas.

2

À tardinha, gosto de ir ver o regresso das putas pobres aos cafés pobres da zona de S. Mateus.
Vêm beber qualquer coisa antes de jantar qualquer coisa nos quartos.
Trazem sempre um saquito de compras mínimas, a que nunca falta o adereço de um cereal, um chocolate, um iogurte – qualquer mimo para o filho de anterior-1001-relação.
À noite, voltam a ser agressivas, frágeis, rápidas, ríspidas.
Mas pela tardinha, no intervalo das imitações mecânicas de um amor que nossos pais usaram para que fôssemos, elas são o mais vivo retrato da candura e da formiga que se permite um pequeno luxo de cegarrega-mãe.

3

E então, entre gatos e putas, encosto o cadáver portátil da minha vida a um canto de café.
Espero uma hora que venham buscar-me para o trabalho da noite.
É um trabalho de palavras, o meu, ofício ideal para fazer, eu também, de puta e de gato.

4

Nada trago de novo ao que é e debaixo do sol está, mas é ao sol
o meu lugar, como à chuva será quando e quanto chover
o que Deus – ou o Diabo por ele – der.
Não lamentarei nem os versos achados nem os passos perdidos,
que generosa me tem sido, quem no diria,
a grande vida para além das pequenas mortes de cada dia.
Da madurez a lentidão é para descobrir de repente,
que a gente de uma pessoa a si basta como gente.
Basta uma praça ao sol, uma fonte pulsando o império da água,
um restolho de pardais vivos como folhas ao vento.
Nada trago de novo e nada lamento.

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