Saturday, April 12, 2008

Uma Sexta-feira na Cidade das Formigas



Viseu, fim da manhã e tarde de 11 de Abril de 2008

A Cidade não é uma nem una, mas tantas quantas as suas formigas. As residentes como as passantes: todas passantes, afinal. Há os nomes dos mortos nas esquinas das ruas, os dos vivos (odontologistas, advogados, esteticistas, astrólogos, professores africanos) nas placas afixadas ao primeiro andar do olhar de quem passa. Há quem venda uma solução imediata, mesmo nos casos mais difíceis ou graves, com urgência. As formigas andam de olhos muito abertos pelas ruas: conferem-se mutuamente as cegueiras. Não se tocam com as antenas: um olhar cego é quanto lhes basta. O Sol marca a Hora, a Hora marca o Sol – mas faz frio nas pistas. Em escritórios, formigas brancas registam os trabalhos, as doenças, as contribuições das formigas negras. É preciso perdoar a todas, negras e brancas, tantas e tão malbaratadas sextas-feiras de esperança num mundo melhor. Amor, amarração, aproximação, afastar, problemas familiares, sorte, dinheiro, emprego, negócios, atracção de clientes, justiça, protecção contra invejas e maus-olhados, doenças espirituais, depressão, impotência sexual. A Lua marca a Hora, a Hora marca a Lua. As cadeiras-de-rodas rodam frente a lojas de sapatilhas. As formigas ingerem doses maciças de vitaminas barbitúricas. Procuram o quente das pastelarias aquecidas a fornos a gás, as formigas. As formigas também procuram a beleza. A beleza difere de formiga para formiga. Quando uma formiga se encontra com a sua beleza, não se sente formiga. Quando isso acontece, a formiga abandona por dentro a Cidade. Estabelece residência à passagem. Não está porém na beleza a vida. Sabem-no as formigas que a viveram. Também não nos livros está a vida. Sabem-no as formigas que lêem. É sexta-feira-dia-onze – e nada conta ter havido uma quinta-dez: como não contará um sábado-doze. Longe, as marés assestam a eternidade da repetição, de todo alheias aos horários dos portos, às matrículas dos cargueiros, às ínfimas angústias das formigas-pescadoras. Os autocarros, vistos do papel, parecem assegurar a condição arterial da vida – mas é venosa a passagem como venenoso é o tráfico. Há fumo da boca das formigas, é ígneo o mineral da sua condição respiratória. Bem podem ser vistas nas áleas & áleas dos corredores dos hipermercados: tossem filhos, rangem carrinhos de arame, lêem os preços das prateleiras mais baixas na esperança de um verso mais acessível, mais arcaico. As mais arcaicas formigas crestomatiam nostalgias sem outra redenção que a do poder de compra da queixa chorona. Na zona da Cidade delimitada pelo recinto da feira, há as formigas que se prostituem mas engravidam e há as formigas que engravidam mas se prostituem. Trabalho à deslocação, presencial ou por correspondência. As formigas também sentem a graça. Não a de foro divino, mas a correlativa: o hálito gélido que mana das bocas negras, os portões escancarados das frias igrejas vazias. As formigas são sopradas pela filarmónica desse deus folclórico, roxo, sardinheiro, esse deus de torrão-de-alicante que subjaz à feira da fé e ao recinto da feira, em torno do que as grávidas poupam para a côngrua e para o vestidinho. Da chuva, todas as formigas sabem o preço. Os ocasionais helicópteros de escolta a alguma vinda da formiga-presidente espantam e euforizam e espalham as formigas-eleitoras, varrem-nas pela Cidade como ventos de velho testamento, o acendedor de sarças, anátemas e perpetuidades demais dos destinos créus. Doenças espirituais, depressão, impotência sexual, fenómenos estranhos, vícios de drogas e alcoolismo, emprego – nada escapa ao helicóptero do vento: mas não desanime. Sexta-feira é dia de boletim no concurso de eurotostões. As formigas filam o bocado nas agências de apostas. Os anjos de pedra persignam as formigas corredoras. No parque da Cidade, fantasmas de corças bucolizam o susto de já se ter vivido a vida, queimada a savana verde de irlandas outras que não esta. Arenques e noruegas branqueiam glaciares de enciclopédia na memória das formigas que nunca foram para o Norte. Exposições de artesanato convocam nas formigas uma lembrança colectiva que não há mas parece bem autarquizar que há. Parece bem, também, aderir à noite da sexta-feira rondando pelos bares ocidentais, onde o tam-elec-tam-trónico substitui a conversação, essa tolice das palavras a trocar. Nenhuma excepção, nisto: pela tarde, as formigas-acne já putinharam pelas lojas de camisolas escritas NewYorkNewYork nos peitos. Ainda há, ainda assim, fontes à luz do dia. As fontes não doem de água (de Tempo) a todas as formigas. Preferem-lhes, aquelas formigas a quem as fontes públicas não doem, os chuveiros domesticados das casas-de-banho das tocas formigueiras. As formigas também se reproduzem sem necessidade. As formigas amam muito, sobretudo quando odeiam. Amam sem necessidade e deixam de amar por razão nenhuma. Cultivam os mortos em pedra, as formigas. Elas, que nós somos, perfumam de aves assadas os quintais traseiros. Devoram peixes como tocadores de harmónica. Usam popelinas, gabardinas, cabinas, benzinas, bombazinas. Portam dentro rios escarlates ligadores do corpo ao pensamento, mas é sangue que lhes chamam, as formigas. Sindicalizam-se cada vez menos por causa das tosses. Ajoelham perante a lei antitabágica de alto-lá-com-o-charuto. As formigas consideram a heteronímia uma maria-vai-com-as-outras. As formigas só vêem o mar quando estão longe dele para sempre. Poucas formigas reconhecem que abandonar o mar é pior do que abandonar uma pessoa. Pior, porém, é quando uma delas, sozinha num bar de hotel, é acossada por um piano tocado. A formiga não pode deixar de entregar-se à doçura desse uivo métrico, esse apelo da selva genética, essa excepção ao mau-tempo. Mais sossega as formigas, do que o piano, a mole gentia das catedrais. As catedrais arquitectam a moral votiva das formigas. A Cidade é o que sobra da Sé. As formigas formigam auto-estradas com o mesmo peregrino denodo com que extirpam percas às barragens em concursos de pesca patrocinadores do orago estival. Atiram automóveis a ribanceiras por dificuldade económica, as formigas, que da causa só conhecem o desespero. Não se sabem ancestrais, nem como o vento repetidas, as formigas. As formigas jurariam que são desiguais, por incomparáveis, os filhos que atiram ao mundo como carros a ribanceiras. A frivolidade não acomete de raiva as formigas, fá-las só sonhar com férias de sonho. Também faz as formigas sofrer por comparação com as formigas da televisão. Cadeiras e cadeiras e cadeiras e cadeiras juncam de baquelite escarlatamarela as esplanadas a que as formigas acorrem para sedimentar a passagem dos verões, sobretudo quando chove. Vale às formigas que um olhar cego é quanto lhes basta, para solução imediata, por mais difícil, por mais sexta-feira.

1 comment:

Afectos said...

somos formigas. só que algu(ns)mas não vão por alí mas por aqui o que faz lembrar de uma conversa com a uma flor chamada Jessica...
bfds