Thursday, April 24, 2008

Duas Crónicas - uma com PSD e outra com Salgueiro Maia


A partir de hoje n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt) e no Região de Leiria (www.regiaodeleiria.pt)

Comparações quase revolucionárias mas só quase

Não sei com que mais se parece o PSD do momento: se com uma mulher mal divorciada, se com o actual Boavista Futebol Clube.
A comparação com a desquitada é gira e triste: o partido fundado por Sá-Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota (des)comporta-se hoje como uma mulher descompensada que, louca de amores e desejos pelo ex-marido (o Poder), vai queimando tempo, dinheiro e os últimos laivos de juventude com namorados fraquitos de corpo, débeis de vontade, anémicos de alma e descartáveis como pontas de cigarro em bar de não-fumadores.
Já a comparação com o clube axadrezado é gira e alegre: o que falta ao PSD do momento não é a senhora Ferreira Leite, nem o senhor Aguiar Branco, nem o senhor Passos Coelho, nem o senhor Rui Rio, nem o senhor professor Patinha, nem, muito menos, o clone íncola de José Sócrates, o senhor Santana. Eu sei o que falta a este PSD: é um “investidor” como o que o Boavista ia arranjando para retalhar, mais ainda, a sua manta. Sim, aquele rapaz estranho chamado Sérgio Silva que gastou os seus 15 minutos de fama a escrever “balor” em cheques mais descobertos do que as searas alentejanas.
A Laranja amargou a pontos impensáveis. O País também. A Rosa, símbolo que mal disfarça um punho direito fechado, invadiu tudo o que era, ou estava para ser, do âmbito social-democrata: o clientelismo, o carreirismo, o aeroportismo, o têgêvismo, o acordortografismo, o mariadelurdismo, o asaeísmo, o inemismo, o socratismo (versão rosa do santanismo, mas em sério).
E agora? Não me perguntem a mim. Se eu soubesse, diria. Mas é que não sei. Vai ser 25 de Abril outra vez e eu para aqui sem saber com que se parece mais a revolução cujos cravos deram rosas em vez de pão, como a Rainha Santa: se com uma mãe de mulher divorciada, se com o pai do João Loureiro.



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Salgueiro Maia Sempre


Há trinta anos, vi um homem no centro de uma praça.
Era o que se chamava uma figura de homem: um corpo maciço pedestalizava um rosto franco. Os maxilares emparedavam a firmeza da boca, essa porta sob um olhar de janelas. Cabelo militar, braços amplos em cujo amplexo uma arma podia parecer uma guitarra. Mãos firmes, dessas mãos que tomam para libertar, como as mãos dos músicos. Atrás e perante esse homem central, milhares de figurantes armados aguardavam. Todos tinham a boca seca de expectativa. No centro da praça, no exacto centro da multidão, o homem avançou. Avançou só, como é da vida. Dirigiu-se ao comandante do outro lado. Disse-lhe poucas palavras: as suficientes, as definitivas.
Em torno, o tempo tinha parado: era a eternidade. Por acção desse homem, o sangue não correu para fora dos corpos que esperavam atrás e perante ele. Mercê das palavras do homem, as armas já eram guitarras.
A praça dava para um rio. Também o rio tinha parado, também o rio esperara as palavras do homem. As palavras do homem disseram ao rio que seguisse para o mar. E o rio seguiu para o mar. Havia uma quantidade extraordinária de cravos cor de sangue justificado pela antiga ânsia do mar. No interior das hostes, o rio de sangue era uma profusão de cravos. Bandeiras falavam ao vento multitudinário.
O homem estava vestido de verde. E sangue lhe corria dentro: ele próprio era um cravo. Não posso esquecer isto. Eu tinha dez anos. Foi a primeira vez que vi um homem. Quis logo ser como ele. Tenho tentado.
Com o correr do tempo, esse outro rio, conheci outras gentes, assisti à eternidade de outras praças, soube de outras flores. Tenho algumas fotografias mentais para vos mostrar: a papoila acesa na pastagem; a harpa inconsolável da chuva; uma gaivota de Peniche; uma mulher cercada de filhos como uma oliveira de rebentos; um nadador que se suicidou na América junto a um livro aberto de Álvaro de Campos; a condição imperial de Beckenbauer; o meu professor Elias Faro instituindo a Primavera com uma palavra dirigida aos olhos; um homem falando sozinho numa estação de comboios; a gola de renda de uma morena no Jardim Botânico; uma cadela amamentando um gato; uma chávena almoçadeira debruada a filete de ouro; um livro de Camus lido na sala de espera do dentista; os joanetes do senhor Damião d’A Brasileira de Coimbra; as noites perfumadas de fruta de Alcobaça; os olhos do Adelino; a mercearia da senhora Albertina, em cujas arcas de cereais eu mergulhava os braços avulsos; a enorme cama de ferro onde a minha tia Maria expirou como uma miniatura; a colher de óleo de fígado de bacalhau; o ano em que o União de Coimbra subiu à I Divisão.
Mas no centro desta praça mental, no cerne solar dos dez anos de idade que há mais trinta tento manter, está aquele homem. O nome do homem é Salgueiro Maia.
A verdade é que todos os homens verdadeiros se chamam Salgueiro Maia.
Salgueiro Maia sempre.



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