Wednesday, April 02, 2008

Postais da Cidade de Viseu nos Dias Último de Março e Segundo de Abril

I. Comoção perante o Independente Animal
Viseu, tarde de 31 de Março de 2008

Uma pomba cinzela na praça
seus ademanes de soldadinho-de-chumbo
caçador do esmoler pão
à rua caído como granizo de trigo.
Que bonito é seu peito de madame
(desejada seja ela por pombo que a ame!)
Que vermelhas mãos tocam por ela o chão
do município antigo, frente à fronte da fonte!

Muito me comove todo o independente animal
que viceja gerações ao mesmo em Portugal.

Estas pombas estes cães estes gatos
e estes absolutamente nacionais
morenos castanhos ladinos pardais.

Sim
que palavras procuro me brotem
quais animais de praça municipal.
O pão delas procuro eu também
a boca no chão.

Que palavra de pomba de município me redevolva princípio.

O trigo a areia o nome do mundo:
tudo pelo chão da boca reflector o céu
na pendureza dos olhos.

A tradição literária
o escândalo da economia
uma tarde morna uma manhã fria
– e um jeito de adoçar a distância com a boca
onde a Língua.

Acinza-se o crepúsculo desta segunda-feira
tenho mais que fazer recebi telefonemas
mas penso que a pomba de chumbo ligeira
me aceitaria migalhas e poemas
a gaiteira.





II. Um Dia Terei Sido
Viseu, tarde de 31 de Março de 2008

Um dia terei sido menino na velhice
rosas terei consumido amigo rui amiga alice
e dos meus passos pelo litoral
não restará pègada sequer mas não faz mal.

Um homem é dois homens
se contarmos com a sombra
três se com a luz.
Acredito nada em Deus
um pouco talvez em Jesus.

Terei tanto convosco sido parecido
contando trocos ao balcão da mercearia
pedindo à prata da lua o ouro do dia
amando como vós o que parimos
filhos palavras atitudes e até postais.

Um sábado pela manhã terei sido feliz.
Era um sábado eu era velho eu era petiz.




III. Postais da Cidade de Viseu
Viseu, manhã de 2 de Abril de 2008

1

As mãos dentro de água abafamos o grito
que nos curva o corpo para o tanque não o grito
de hoje mas o grito recordado o grito
que somos por dentro perante o que for água
o que for de risco de afogamento das mãos.

2

Se esta é ora a nossa cidade
quiçá a última de quantas houvemos a perder
nossos são os loucos dela
e seus pardais jornais e cor amarela.

Não sabe ninguém quanto nos pergunta
quando resposta espera de onde somos ora
como se o que somos fosse em que estamos.
Sê-lo-á talvez no futuro
não agora.

3

Ai as crianças que em nós se tornaram velhas
e de sacos coxeiam pela cidade
como rombas pombas ao lixo do capitalismo
apeados plúmbeos anjos do catolicismo
ai as crianças que de nós.

4

É decerto mansa a nossa loucura
cidadãos somos uns contra os outros
dois militares vestidos de azeitona
da paz porém o pousio não dispensa o atavio
três raparigas seis coxas de ganga
as faixas das três barrigas ao sol
a chaminé de uma fábrica que já não há nem é
o largo onde em setembro a feira cheira a novembro
um profeta de varapau e barbas emaranhadas
como uma silveira de báculo
o rio que nos amplia a água dos olhos
de quantos postais forramos o coração
é decerto louca a nossa mansidão.
******
Fotos: Viseu (Casa da Cera, à Rua Direita, e Largo do Pintor Gata - manhã de 2 de Abril de 2008)

1 comment:

alice said...

:) boa noite, daniel. estive dez minutos embrenhada nestes poemas, o que escreve é a prova de que nas mais pequenas coisas há poesia ;)

agradeço a sua visita de hoje, ficava muito contente que viesse, um grande beijinho.