Friday, November 02, 2007

Outro Dia D na Segunda Manhã N

Fotografia: © Gordon Parks, The Bridge (1995)
*****


Não me abandonou, ainda não, a claridade fria da manhã – nem a esperança que projecta cada noite como a um gesso negro.
Ontem, Dia de Todos os Santos, ardia o gás do ar a uma constância álgida, também. Manhã muito cedo, olhara-me lavando-me. Estrangeiro do meu corpo, vestido de água e espuma, de um ponto de vista que não sei localizar – pois se todo sou este corpo, como dele me penso a salvo, olhando-o – como se me não visse? Depois, na pastelaria, a tarde cedeu-me a trégua de um filme português do ano 1945, A Vizinha do Lado. Era como nos sonhos: mau som e tudo a preto-e-branco. Entre cenas da película, limitei a minha vida a uma cerveja e a quatro versos, estes:

De alhures janela alta assistimos
ao corpo que somos.
Nem janela nem corpo entendemos
– o que somos, o que vemos e ao que estamos
.

O filme terminou nas letras de filme sem l nem e. A noite insuflou sua tenda de circo universal, fui trabalhar, regressei a casa, aqueci a sopa, abri um livro, saí para dentro da história de La Sombra del Viento, uma coisa bem composta por Carlos Ruiz Zafón. Como não havia alternativa, deitei-me e adormeci até hoje. Sonhei erotismos tristes, como quase todos – todos os erotismos e todos os que sonhamos. Recordo nádegas brancas, olhos semicerrados e duas pessoas minhas conhecidas fazendo aquilo sem ter sido apresentadas uma ao outro. Resgatei-me para a pastelaria logo que pude, onde exerço agora o assassínio da memória mercê da palavra escrita.
Aqui redescubro não ter sido abandonado, ainda não, pelo frio claro do novo Novembro da minha vida. Dou uma volta pelo caderno, retomo versos da tarde de 15 de Outubro último, estes:

Não estive na Normandia a 6 de Junho de 1944.
Nunca estive na Normandia.
Tenho desembarcado e sido morto e sobrevivido
por conta própria.
Mas não a 6 nem em Junho nem em 1944.

Dá o mesmo: dias D todos os dias
.

Posso fazer, assim, o que precisamente faço: descobrir o meu corpo a ser descoberto por versos que, nada valendo, a tudo dão valor – sobretudo, talvez, a tudo dar corpo. É um exercício de sobrevivente: isto é: de vivente sobre a comezinha realidade do banho matinal, do resgate eroticonírico, da pastelaria cujos fornos invisíveis me amornam a mão calígrafa contra o claro frio da manhã.
Entre o entardenoitecer de 16 e a noite de 18 de Outubro últimos, passando pela manhã e pela tarde de 17, dei-me à composição de Tarde Ainda, Já – 26 Coisas. É outra crestomatia tristonha de incursões na língua, que não na vida. “Que não na vida?” – ouso ainda separar coisa de coisa? É como olhar o corpo – como se de fora, impossível mas demonstrada coisa.
Que importa? Esta manhã, tirei da caixa do correio o exemplar d’O Ribatejo datado de hoje mesmo, 2 de Novembro de 2007. Leio-o quase de ponta a ponta. Divirto-me com a celeuma cor-de-laranja que incendeia algumas páginas com o fogo frio da política local. Um dia destes, vou, a convite, a Santarém. Já lá estive, em duas tardes solares: uma, por causa de um livro; outra, por causa da nostalgia de um livro – pois que sou como todos os homens que viajam na nossa terra à roda de seu/deles/meu mesmo quarto.
No meu quarto, ontem à noite, liguei, pela primeira vez na temporada pós-estival, o aquecedor eléctrico. Está agrafado à parede. Desabituada, ociosa, pôs-se a engrenagem a emitir umas asmas rabugentas e uns estalidos de ominosa osteoporose. Aqueceu, que remédio. No interlúdio que raia os territórios da vigília e dos sonhos, senti vindo a baforada térmica, benvindourando-a eu como um feto anacrónico em útero de flanelas. Li algumas páginas de Ruiz Zafón, rapaz espanhol que comigo partilha graça de nascimento: 1964. Depois, acolhi, deliciado, o alpinismo abusador da gata, deliciada. Devemos ter adormecido ao mesmo tempo, já que não sonhámos outra com um.
Entra agora pela mais larga porta a tarde, essa larga senhora de tantos filhos. E ainda cristalina a pátina de frio – e muito clara. A montanha abre o peito ao ar cravejado de espinhas eólicas. As fragas vertebram o pré-humano espinhaço da imemória. É muito bonito. Da minha guarida de tirador furtivo, alvejo o roubo do tempo, o saque da luz, a arquitectura do arvoredo, a tonsura da cal, o azinhagamento da atenção, a caligrafia da amornada mão direita, beneficiária de fornos invisíveis.
Para a semana, em dia a determinar, voltarei a Coimbra para um dia, uma noite e uma manhã. Vou a trabalho de assentamento romanesco. Revisitarei lugares, cantos e lances através de que, desde 24 de Novembro de 2006, comecei redigindo o périplo de um anjo involuntário. É livro de que nunca aqui dei conta. É maluqueira minha – alguma hei-de ter que não do maluco mundo seja.
Da tal tarde de 15 de Outubro deste único 2007, a insuficiência de outros versos, estes:

Quebrado lacre de escarlates lábios
do amor ditadores do resto não sábios
vi já cerejando em frente a um copo.

Tudo topo.
Nada quebro.
Espero q’abra.

Ou então estes:

Refulja a mansa fria estrela
em meu espelho-de-água
que estrelas reflecte
sem mais atributo
que o de esperto e bruto
de gostar de vê-la.


Estas coisas assim. A acção do Diabo, conjurada da distracção de Deus, investiu-me, nove dias mais tarde, noite de 24 de Outubro recente e irretornável, na função de quinze versos mais, estes:

Mal vi o dia, todo o dia.
Fui talvez feliz, dentro da lâmpada.
Fria lâmpada fosca: pouco o sol
venturou árvores e ruas.

O anoitecer foi uma confirmação dura,
não o suave escândalo do costume.
Agora, caminho sobre pedra envernizada
de humidade e recordações.

Torna-se à direita, sobe-se um pouco.
O ângulo do vale canta árvores,
mostra-se todo diadema no veludo.
A respiração ouve-se no coração.

Arfando, chego à rádio, pouso o saco.
Sento-me num banco de pau, espero.
Bem vou ver a noite, mas ter não toda.

Estas coisas assim, enfim: fados enfardo em fardos de enfado. Mas não. Nunca me aborreço: um cacto esquecido distrai-me e recreia-me, como, do chão, uma folha escrita em caligrafia vegetal por uma árvore dada a outonos e a estilhaçados sonetos. Olho as pessoas xadrezísticas em suas casinhas pretas e brancas, cinzentas e amarelas, em seu episcopado de cavalos, suas torres monárquicas desertadas por peões republicanos. Muito mais me divirto do que me converto. Mas não, nunca me aborreço. Se me mareja a retina genital algum cisco erógeno, curto sozinho e calado ruidosas visões como a arquitectura de umas nádegas amordaçadas de ganga, o istmo-de-ninguém que a fêmea alheia anatomia a alguém concede em direito de perfuração, o níveo tangerinismo de decotes cortados a língua por cutileiros que não eu. Entre gajas e senhoras, tudo é homem. Estas coisas me ocorrem – ou não a mim, mas a meu corpo, entre versos, vestidos de água e verticais cintos de sabão.
Abandona-me já, agora mesmo, a claridade fria da manhã – posto que vos deixo, por hoje ou apenas agora, com

Tarde Ainda, Já – 26 Coisas

1

As tardes acabam como pessoas que conheci.
A de hoje fez-se bonita, morrendo: uma
neblina marinha envolve, lenta, a
montanha.
Eu sei: também a beleza é precária, como a hora:
como tudo.
Não faz mal nenhum.
A solenidade desta indiferença ao acabamento
é contagiosa: solenizo até os bocejos, que,
como a rolha a uma garrafa,
escancaram do corpo a alma.

2

Entre barcos, pelos passadiços da marina.
Outro fim de outra tarde, noutra vida.
Sentei-me, os pés na água.
Comi um pão e uma maçã, dividi o pão
com as tainhas imponentes que fluíam
no chão feito de água.
À vista, a ponte unia margens, não os dias.
Talvez reunisse umas a outros todas as noites,
mas não creio nisso, como na altura
não cri.

3

Mais e mais me acontece: caminhar parado.
E voar no chão. Tenho a certeza: é a passagem
dos anos: de todos os anos, cada dia.
Agora é Outono, as folhas recamam a terra.
Um cão deitado ergue devagar a cabeça.
Desconheço o que olha. Nem eu sei que olhe.
A luz crepuscular rebenta clarões roxos:
como se atirassem baldes de tinta à redoma.
Carros regressam a casa como mulas tóxicas.

4

Estrofe a estrofe, árvore a árvore, o poema do bosque.
É o maior caso de solidão colectiva que conheço.
Quando ao chão deste poema formos devolvidos,
parte seremos do majestoso nada.
Acoitaremos rápidos animalejos invisíveis.
Talvez nos seja dado, não falar, mas ouvir as estrofes.

5

Quanta água senão toda na palavra lago?

6

Agora só aqui entre a gente:
tenho mesmo alguma coisa
a dizer?
É a voz com que nasci suficiente
para dizê-lo?
Tenho de renascer com
outra?
Ou devo renascer para
outra voz,
outra dicção,
outra ilusória posse?

7

Seja: lágua.

8

Renascer ainda para
outra voz ainda.

9

Na chã vida, não abdicar de algum
jogo aéreo.
É uma vida chã – assim é.
À sua terraplenante condição, opor
alturas.

10

Contar com o próprio, cá dentro, sempre,
recusando sempre, porém, a imbecilidade do
umbilicalismo.
Nenhum altruísmo pode chegar sem
que parta o solipsismo.
Escrever um poema é uma coisa.
Deixá-lo acontecer, outra.

11

Tenho recebido a poesia de outras pessoas.
Cada uma delas (a pessoa, a poesia), um mundo
no mundo.
Intersecção de mundos: espaços como margens,
épocas como rios, palavras como pontes.

Ainda ontem li uma coisa de Ezra Pound sobre
Camões. Acho que não percebeu quase
nada, o Ezra, do Luiz. Isso, porém,
não tem importância – como eu não tenho,
nem a minha poesia tem,
nem as minhas margens, rio e
palavras.

12

E a brandura quase triste da hora
vogando de brancas velas pela luz?
Adoçada tristura que resiste, embor’
amargura se tudo a nada se reduz.

13

Um passeio breve dei pelas áureas áleas.
Ouvi perfeitamente os chamamentos.
Distingui a frase dita por um ramo alto.

Que tenha sido há meia hora ou duas décadas,
que tem quando tenha sido, se foi já?

Para que volte a ser, escrevo.

14

Windsor, Moulinsart, Duíno:

quem mais e quem menos real,
quem mais e quem menos subido da criação,
quem mais e mais fantasioso:

Isabel II, o Capitão Haddock, Rainer Maria?

15

Não, não vivo – de ou para isto.
Sim, vivo – por isto.

16

Sendo invariável
a final remuneração,
que todas as horas
sejam extras,
então.

17

Do amolador de tesouras
a flauta pânica
tril’ ainda
a cromática infância

e sua terna miséria.

18

Raso explode o sol no chão,
linha em sombra guarda ao lado.
Ali dorme um cão deitado,
meio ao sol, metade não.

Vem a criança aos rebuçados,
dormita o velho senhor.
A criança traz trocados:
meu senhor, se faz favor,

quero o sol em rebuçados,
acorde, vá ao balcão,
a sombra tem muitos lados,
tire-me o sol do chão.

19

Não tarda, anoitece.
Tarde ainda, já anoitece.

20

De frescas raparigas canta do rio a água à luz.
Há um rumor de canoas: ossos de madeira
que à carne suportam o desejo como a
refrigério que queima os escuros homens.

É uma cena fluvial sem história nem relato.
Azulejos ao fundo reverberam a cidade postal.
De madeira de canoa feita a ponte é também.
E faunos ciganos bruxuleiam canaviais adentro.

Ígneo sol estraleja joalharias correntes
que ao curso mortal brilhos vivificam.
É tudo um teatro sem falas nem gentes,
bonecos tão-só: estão mas não são – nem ficam.

21

Também – cumprir a vida como a uma pena
não forçosa,
forçada apenas,
que o pouco da vida não tira
ao muito da pena.

22

Como foi feito um hoje de há muitos ontens?
Conta esse dia como pilar ou como alude?
Penso em silêncio em coisas assim.
Se coisas assim constam, constantes são:
iludi-las é iludirmo-nos.
Consta que sim.

23

Ao sol numa cidade poderosa de esquecimento.
O conforto do anonimato: não ter ali nascido – nem sido
mais do que um passageiro
transeunte das pedestres barcas: as ruas-rios,
ao sol impiedoso, muito branco nas casas negras.

Adeja o jornal estrangeiro entre nacionais:
escaparates e disparates.
Fritos e motorizadas perfumam vidas.
Brota água de um cano roto, vou ver, é só
luz, afinal.
Crianças comentam a luz.
Velhos lamentam a exaustão da água.

Falo de cor: não estou senão de memória
na cidade.

24

Esta tarde, vi um homem na pastelaria: um homem só.
Tinha um copo de vinho e uma aura de solidão
que podia ser – decerto
era-o – a da santidade. Barba envelhecida,
corpo curto e sofrido. Tinha a cabeça
entornada para a mão aberta, em cujo centro
ardia de frio uma moeda escura. O homem esteve
muito tempo a olhar para a moeda.
Olhava com aquela inconfundível intensidade
de quem olha para dentro de si qualquer
coisa que só por fora parece uma moeda, ou um
copo de vinho – ou a própria mão.
Momentos depois, levantou-se e partiu.
Desconheço se o reverei.

25

Um homem só.
Um só homem.
De quanta diferença é
feita a igualdade.

26

Do coração sobem à cabeça,
da cabeça descem à boca,
da boca sobem ao chão
dos outros: as aranhas
silábicas que amam tanto
fugir para os outros.



Datação: a prosa de ligação dos poemas é da
manhã de 2 de Novembro de 2007.
As datas dos poemas constam da prosa de ligação.

1 comment:

Anonymous said...

uma coisa bem composta por carlos ruiz zafón concordo,