Sunday, November 11, 2007

Eu Saio para o Lado da Púrpura sem Mal Algum, Sábado




1 (Nenhum Mal e Nenhum Número)

Hoje já quase não é o que foi: sábado, 10. Não tem mal.
Dediquei uma grande parte do dia a um trabalho que me deprimiu.
Era apenas uma revisão de livro para uma editora amiga – mas deprimiu-me.
O tema da obra é simples como a vida: as alcunhas de há meio século numa vila do País.
A autora do texto é uma senhora que conheço.
É de idade já avançada – como avançam os barcos no mar até à descoberta de não haver cais – ou sequer praia – de retorno.
Entrei na intenção narradora e na intenção narrativa (não, não são a mesma coisa).
Quando escureceu, larguei o trabalho e vim entristecer para aqui sem livro.
Trouxe o caderno comigo.
Antes, por causa do frio, fui ao quarto, tirei a roupa de fora, entalei-me no pijama, revesti-me e pus-me na breve alheta destoutra vila.
Não tenho a idade da senhora do livro, mas, como ela, estou já a salvo da juventude.
Agora, ando a ver árvores, candeeiros, ruas devassadas pelo favónio da alheia memória.
Alheia, sim: eu não me lembro de nada.
Sábado? 10? Não sei, talvez.
Estou pronto para a viagem seguinte: algumas palavras para uma não-posse, para uma resignação madura, para uma disposição dos já-não-factos – ou dos ainda-não-actos.
Estou pronto.
A televisão da pastelaria ladra americanices – sou-lhes imune.
No pátio, os castanheiros regelados atiram pedradas verticais – não colherei os frutos.
Vai ser tudo em português – a língua das pessoas da minha rua, incluindo as que já deixaram a rua, o idioma e a pessoalidade.
Vai ser o que for – e se por acaso já tiver sido, sê-lo-á na leitura, que a tudo volve vento e praia, mesmo que à praia – ou sequer a cais – não volvamos já, um destes sábados inumeráveis e inumerados.
Mal nenhum.

2

Já não tenho um coração de espadarte.
Já andei com um, deixei-o sair, um a outro
não volveremos.
É boa coisa, isto.
Um homem deve usar um coração de homem só até
lhe ser possível um coração só de pessoa
– de peixe, não.
Nem por espada.
Nem por arte.

3

Toca-nos a idade com preciosas mãozinhas
descostureiras.
Gosta tanto, a desmarinheira, de nos avançar
no mar.
Acho graça a essa descomunal rapariga
abreviadora.
Como de nós, rapazes, faz morcelas.
Como de vós, raparigas, faz naperões.
Só os gatos reciclam a eternidade dos velhos
pátios, onde pessegueiros e bicicletas
enferrujam com o céu nas costas
como um muro.
Tépida orquestra, apesar dela, ou
por ela,
marina passadiços de música
em feira não de praia longe – e somos
lá, dançando bebidas frescas à viração
de carrosséis ternários
para a pobre áustria da nossa
idade.
Uns estamos vivos.
Outros somos mortos.

4

Mãos que não precisam de flores para sê-las:
estrelas amanhecendo na noite de sábado,
em algum salão de baile para divorciados,
de quebradiço papel tais flores,
mas flores.

5

Ouço na noite os galos roucos como lobos,
à Lua expostos, eles também, como horas
de pedra.
Vivem mal em casebres de madeira e arame, os galos,
entre mulheres estúpidas e cães narcotizados.
Em torno, no mundo estrangeiro, caem
helicópteros e cometas, camionetas vermelhas
cheirando a fritos vociferam tosses eléctricas,
rapazes atiram pedras à água vertical das janelas,.
Sinto dos galos a sanguínea indignação,
aves reais apenas reais,
aves nunca mais.

6

Se assim o entenderes, senta-te aí com a tua bebida.
Não tragas para a mesa o que passaste
– para que eu não tenha de passar por ele,
vós dois bastais bem a tal passagem
e à minha bebida.

7

Era sábado ainda agora
ontem, amanhã,
mal também já não faz,
fará.

8

Há pontes.
Há o frio da noite.
Sempre tão gémeas, tais entidades.
Sempre tão únicas, tais identidades.

Já olhei muitas vezes a Outra Banda.
Estava frio, quase sempre.
A noite também, a noite também
Estava.

Sei onde são as pontes.
Desconheço quem as passa.
Eu não,
todas as vezes.

9

No céu dos olhos anoitecem reconhecimentos
como pássaros não bruscos, antes lentos.


Há crianças encerradas em delas a infância
e em casas magras como galos pobres.
Crepita no espaço a tempestade de cabelos eléctricos.
Temem-na e adoram-na, à tempestade, as crianças.

As crianças alimentam-se pelos olhos, de olhos ouvem
e hão as revoluções e as memórias antecipadas.
Ouvem os pais no quarto havendo-se escuramente.
Pessegueiros e bicicletas ardem no frio humaníssimo.

No céu dos olhos anoitecem reconhecimentos
como pássaros não bruscos, antes lentos.


Recordo a fala estalactícia dos móveis no ar preto.
Era tudo noite, mormente nos retratos.
Toda a casa sarcofagava o futuro, a não-presença:
digo: o céu dos olhos que olham a criança.

No pátio do pessegueiro, a bicicleta, os cacos
de louça e de gatos, a pulsação venosa das horas,
a queimadura do luar no muro, a falta
injustificada do sol marinho na terra seca.

No céu dos olhos anoitecem reconhecimentos
como pássaros não bruscos, antes lentos.


O futuro como uma mentira bem contada e mal dita,
os homens do tempo em que olhávamos para cima
para vê-los. Suas bocas arroxeadas pelo vinho e pelo
operariado, em setembros emoldurados por janeiros acabados.

De angolas e moçambiques chegavam fornadas
de ex-porvires cristãos, tudo tão parecido com galileias
e pragas de profetas escumando civilizações
de um evangelismo fundamentado no subsídio

e, naturalmente, em Deus.
Nós já anoitecíamos há oito séculos, que os egiptos
tinham sido drenados pela providência e pelos
microfilmes americanos que nos encerravam,
infantis, em nossas não desenterráveis tróias.

No céu dos olhos, no céu dos olhos.

10

Talvez me chegue ainda a carta que o carteiro
traz escondida no sovaco como uma coronha.

Não sei. Penso que não. Julgo que não. Julgo que penso.

11

Talvez eu recorde (mas não o garanto, posto que o escrevo)
rapazes numa fímbria de bosque, ao sol de um junho,
rápidos os diamantes altos no folhedo alto.
Uma recordação assim talvez me tornasse feliz,
no sábado que acaba como uma maré sem barcos.

Rápidos rapazes rapaces, torvelinhadores de rios, não:
um só rio – talvez um só rapaz.

Uma fragrância de maçãs azedas e gatos mortos,
no torno do açude. Distante, a postal-cidade
agremiadora de bardamerdices doutorais e papaias outras que tais
– como as do porvir e das famílias e dos empregos públicos.

E não éramos filhos de ninguém então, então. Éramos
éreos e não venéreos e sérios e sóbrios – e a diferença
era o não-lembrar para a frente, era o perfume
do guisado que crepusculava os regressos

do rio.

Rápidos, rápidos rapazes.

12

Ainda te hei-de rever à chuva na rua,
os retratos da sala todos na rua, na tua
chuva, na tua
rua.

13

Sim, claro e decerto: as antologias do futuro
são modernismos passados. Algumas coisas,
ainda assim, ficam: certos lapsos da língua viva,
bifurcadora do coração; incertos licores exsudados
por inglórias matrizes de poucos anos e muitos
bilhetes.
Eu, se pudesse, mandaria traduzir os nossos poetas
em verso.
Mas não no posso, que,
bem mais que eu,
podem mais
os medalhismos pátriomunicipais.

14

Não me treblinkes nem m’auschwitzes,
que eu não ando à buchenwalda.
Nem me losálames nem me colditzes,
qu’eu só hiroshimo com calma.

Littlebighornas por defeito
quanto buçaco eu por mim.
Se normandias a preceito,
também ardeno eu, enfim.

Aljubarrotas só pescada,
bêbêcês degaullas: palha-vã.
Comigo tu não, amanhã,
kennedyporcas enseada.

Por isso os dois, entre rapazes,
façamos aqui de vez as pazes.

15

Dizes-te pobre e quando vais ver
todas as pedras e todo o ar
te pertencem como lhes pertences
como aliás pertences tu a tudo
o que disseste e o que não

por pura pobreza.

16

Eu saio para o lado da púrpura.
Arminhos frios rendam geadas
num tapete de laranjas públicas.
Tenho toda a confiança em a nossa
cobardia. Dela me alimento aliás
no lado lilás que arraia
armazéns industriais a agências de viagens
ou de emprego.
Churrasqueiras estalidam crestações.
Lojas de móveis concorrem tábuas vãs
contra garagens de pesados internacionais.
Quantas são as crestações do ano?
Quantas as estações do dia?
Podes falar assim como te falo?
Podes calar-te assim como te calo?

Há por vezes surpresas nos jantares aniversários.
As esposas revoltam-se muito entre detergentes.
E os aturdidos senhores maridos de todas por nada
tossem aos filhos impropérios economicistas.

Eu já não digo essas coisas.
Venho para aqui e faço versos.
A mulher dorme-me na paz adida – ou
adiada.
Pulsa-me pelos corredores a gata egípcia,
farolim de ouro-lazúli,
exploradora e colonialista.

Gráceis porcelanas em pastelarias quinquilham
barros rachados
a já muito preço vidrados
de pubercúleos tineijas
de videoconsola.
Assiste-se entretanto à bola.
É sábado,
calma.

A púrpura sai-me do lado direito
o do coração
passa-me o tempo
passa-me o sábado
e eu não sei

não.

17 (Nenhum Número e Nenhum Mal)

Jogam na televisão Vitória, o de Guimarães, e Paços de Ferreira. Branco contra amarelo – como o ovo. Um menino chamado Fábio range dentes lácteos numa teimosia de chocolate. O irmão mais velho (herdará as fontes despovoadas do pai, o olhar despovoado da mãe) faz de adulto. A mãe é uma rapariga igual a uma palmeiranã – se tais legumes vestissem blusas azuis que tais. Uis. Ais. É o sábado em sua glória dele. Já não estou a pensar no livro que amanhã terei de rever até o fim – até que a nenhum cais – ou sequer praia – chegar.
Digo entretanto que

18

Uma loja diz-te como a vida te diz:

Desculpe, mas disso não temos.

19

Há um celibato essencial no olhar existencial,

não há?

20

Vamos outra vez falar das chuvas que esclareciam,
no início da adolescência, a impotência mundial
da criança.

Era quando chovia na própria idade.
Das corredoras alegrias não sobrava arruada.
Já não se podia viver à vontade.
Nem já se podia fazer nada.

Vamos outra vez falar
etc.

21

A nossa Mãe é hoje o mais imóvel
móvel da cozinha,
onde outrora urdia os guisados do regresso
do rio.
Seca devagarinho como uma especiaria
não já especial.
Cresta-a o salitre sapador de fontes.
Dela os pulmões motorizam uma asma
inequívoca.
Dela os pés tortulham elefantíases lentas
como recados não atendidos.
Embaciam-se-nos os olhos da nossa Mãe:
janelas à chuva de uma terça-feira
absoluta e maternalmente
particular.

E ainda assim
lhe chamamos lar.

Até que nos telefonam
lamentando o telefonar.

22

Se os armazéns vizinhos aumentarem a frota,
suspeitarás de inteligências que não tuas.
Se tiver sido há trinta anos, na mesma
suspeitarás do mesmo.
Envelheçam entretanto as buganvílias e as
mercearias, mas disso não darás conta
antes que te ameacem o armazém
– e a frota das tardes em que vinhas
de trabalhar
e tudo só não podia ser mais
porque já tudo era.

23

Eu já olhei e já não vi.

24

Tinha de ser na sequência do pessegueiro e da bicicleta.
Tinha de ser dito que a Roberta Flack não matou
o vizinho do NSU que se espetou contra a infância.

Nessa altura, a permilagem matava muita criança ainda.
Mas um vizinho morrer de NSU contrariava os pátios.
A vida não tinha de acabar em 1973.
1972?

Sábado.

Textos: Caramulo, noite de 10 de Novembro de 2007.
Foto: também.

1 comment:

Paula Raposo said...

Vou repetrir. Não percebi se ficou o que escrevi. Um fio condutor familiar? Às vezes parece que nada percebo...