Monday, November 19, 2007

Avenida Lázaro

Esta é, precisamente, a entrada nº 1000 do Canil. O texto que lhe dá corpo é a história nº 78 da rubrica 1002 Noites, do programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela (http://www.anoiteceraotomdela.blogspot.com/ - de 2ª a 6ª feiras, entre as 20 e 24h00).





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Foto: © 1939, by Edward Weston (Rubber Dummy, Metro Goldwyn Mayer)

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Avenida Lázaro

1
Há quinze, vinte anos, um dos entreténs da minha vida era sentar-me em paragens de autocarros e ficar a ver o fluxo do trânsito nocturno. Os autocarros vinham e iam, eu não tomava qualquer deles. Com as horas, acabavam as carreiras, rareavam os ligeiros. Um que outro táxi passava devagar com esperança em mim. Chegava a hora das mulheres que alugavam o amor rodoviário. Também me olhavam, mas desistiam depressa. Eu olhava e não desistia.

2
Como o trânsito, os anos passaram. Uma espécie de noite ininterrupta garantiu-me o direito a parar na paragem que não pára nunca mas sempre finge tão bem que sim. Além, nas traseiras da Rodoviária, é o rio. Nas minhas costas, é a fábrica de artefactos de borracha. De tanto mexerem em versos, as mãos pergaminham-se-me, rugosas, mortais e pacientes.

3
Há quinze, vinte anos, já era o futuro. Nada me importou nunca que tudo fosse passagem. Uma das consolações da mortalidade é a eternidade aceitar prestações. O crédito é finito, eu sei, mas a despesa é ilimitada. Eu sentia isso à uma e meia da manhã, na paragem do autocarro. Em frente, a Avenida pulsava reclamos de seguradoras, ferragens, farmácias e senhoras de aluguer.

4
Clarões rápidos desmentem, fugazmente embora, o teor perpétuo do meu assentamento. Recordo manhãs na mesma cidade. Brilhavam cordas de ouro: e era a chuva quando fazia sol nela. Os meus destinos eram breves: uma taberna de terreiro, um pátio onde se mercava algum número improvável do Mundo de Aventuras, a margem direita do rio, a estação ferroviária que partia para o mar sem chegar nunca a lado algum: como eu, precisamente.

5
É verdade que continuo a ver passar autocarros e a contar quantas vezes certas senhoras acendem cigarros na solidão cronométrica do aluguer. Igual verdade é não haver aqui e hoje, quinze ou vinte anos depois, quaisquer senhoras e carreiras algumas. Também vejo cavalos vermelhos no monte, muros brancos sem vivendas depois. Se não vejo, escrevo. Escrevo para ver.

6
Escrevo para viver. Ou, ao menos, para passar vivo por fora, lado de que ficam as instituições, os casamentos, os centros de emprego e as recolhas de sangue para meninos leucémicos. É curioso que, mais e mais, leia menos. Eu sei: é o outono, essa estética caduca do autismo. Mas não o faço por mal. Nem o faço, aliás: acontece-me. Parei na paragem, sentei-me.

7
Parei na paragem, escrevo para (vi)ver, passo na passagem. Além, a Rodoviária. Mais além, o rio. Nas minhas costas, a fábrica de artefactos de borracha. No meu coração, a fábrica de artefactos palavrosos. Aquela senhora acendeu e fumou três cigarros em menos de quinze, vinte minutos, anos.

8
Quinze, vinte anos: tempo nenhum. Táxis olham-me com vã esperança. Homo-homens conduzem lentamente na caça sem altanaria da madrugada urbana. No saco, tenho um livro cheio de deuses egípcios. Já não tenho cigarros. Nuvens chumbam a Lua. Um cão fareja os pés a um contentor.

9
Quinze, vinte anos de outonos e invernos. Nenhum estio, primavera alguma. Uma só noite com algumas manhãs aos pés como quando deixo cair as folhas que escrevo. Deixo-as cair muitas vezes. Nunca me baixo para recolhê-las. Deixo-as ir nos anos, no vento de anos que passam, que passa.

10
Esta noite, estarei sentado na paragem de autocarros. O cão fareja a Lua, as senhoras acendem cigarros que lhes microfilmam o rosto de madeira: gémeas vegetais do carnal comércio. É tempo. Por hoje, nem mais autocarros, nem táxis mais. E então isto: com todas as folhas aos pés, levanto-me e ando.

Caramulo, tarde de 9 de Outubro de 2007

2 comments:

Paula Raposo said...

Um texto magnífico. Escreve-se para (vi)ver, porque se consegue ver coisas que de outro modo não saberíamos ver. Beijos.

Manuel da Mata said...

Há os que ficam a ver "passar os autocarros" e os que ficam na estação a ver passar os comboios.
"Surge et ambula"!