Sunday, November 04, 2007

Dia 3 de Novembro de 2007- II - Tarde, Viagem e Noite




Do mundo ambas, formosura e tristeza equivalem-se em intensidade e suave espanto. Por causa de ambas, também, vim para este ofício desassalariado de escritor de província.

Olhai-me estas águas: a luz, a colectiva individualidade do arvoredo, as flanelas de sombra guardando cantos, a mulher de saca-serapilheira na mão e foice engastada no ombro descendo a estrada rumo às marés da erva, o nanismo dos eucaliptos jovens fervilhando de vida na terra nutriente, a presença invisível dos lençóis freáticos, as vivendas congeladas na claridade, a parrésia ubíqua do sábado do Universo, os nomes das terras como poemas breves e suficientes.

Eu sei, eu sei: viajais comigo. Dar-vos isto é tudo o que quero – e posso. Dar-vos a rápida fortuna dos limoeiros, um por pátio, em clarão óptico. A caminho da cidade, resguardado pela veterania que concede apaziguamento, resigno-me na desconformidade descomunal do mundo. Não é esta uma estrada com putas de berma, pelo que posso fauná-la de ridentes meninas gratificadas de tule azul – como as do sul da minha vida. Não ignoro que resulta improvável dar-vo-las a ver, mas sou, como toda a gente, feito de aproximações – ou de tentativas.

À frente, uma camioneta letreira Transporte de Gado Vivo, a começar pelo condutor, suponho. Entre tábuas, os olhos dos animais violados à nascença por Deus, o Magarefe-Mor destas bandas siderais. (Má conversa para levar a Viseu, aldeia metafísica infectada de seminaristas e de bacocos sintonizados ad aeternum na TV-Fátima – mas não deixo nunca de chispar o látego aos lombos das vãs criaturas e das vis obras do Senhor: que os pariu a todos, enfim.)

Desvio do trajecto por Fail: novidade, há obras no itinerário principal. Desagradável, no entanto, é a constância pós-prandial dos bocejos. Escancaro a bocarra como um contentor de tampo empenado e solto uns urros proboscídeos que me caem mal ao atavio de prosador das berças. Bocejo tanto e tão fundo, que me sinto descalço, tal o arrepanho das íntimas febras venosas. Chegada a Viseu, entretanto.

Subo do Teatro Viriato à Rua Direita, tiro um par de fotografias à esquina da Rua Escura, ingresso numa confeitaria com discrição. Vou à privada e ejecto bens fisiológicos que me atormentavam os odres desde a chegada à cidade. (Como é maior, nos tempos que correm, a produção do que a recepção literárias, isto é, como se desproporcionou a relação entre cifra e decifração, isto significa que fui cagar.) Discreto sempre, tomo um café para não fazer do estabelecimento uma sentina sem consumo mínimo. Não me demoro muito, o tempo só de tomar o café e escrever este parágrafo: é que a aparelhagem sonora da casa emite a vozinha glande-cristã, ou prepúcio-emigresa, do Tony Carreira, o trovador que todos nós, por castigo, acabámos merecendo.

Tenho sorte: a luz, que é eterna, na cidade antiga. Não está frio, existir parece, ao menos esta tarde, uma coisa temperada. Subo à Praça de D. Duarte, alguém subiu uma braçada de flores ao Rei. Um turismo manso de crianças e máquinas digitais a tiracolo pervaga pelas calçadas vetustas servidas de comércio por igual manso. Atiro-me devagar ao Largo do Pintor Gata, miniaturista íncola que foi de dois séculos: XVIII e XIX. Entro no bar irlandês para um copo de cerveja e um exercício mirone mais. Aqui, ao menos, não passam o Tony nas colunas. Não preciso de esforço algum para confessar que esta cidade me agrada. A primeira referência que tive dela foi na meninice – e veio de uma das pessoas cuja memória me é das mais queridas: o meu Professor dos quatro anos de escola primária, esse cavalheiro humaníssimo chamado Elias Rodrigues Faro. Para que se me não humedeçam os olhos à sua evocação, fecho já o parágrafo, a consciência e o caderno.

Retomam as sombras já
delas o lugar primevo:
digo – o mundo.

Anoitece-nos a hora. Olhai:

podemos colher do ar
a macerada violeta crepuscular.

Nem sempre, mas vezes há em que o Tempo nos dá a face para que o toquemos a ele nela. Mulheres e homens haverá que assim procedam – mas conheço tão pouca gente, que aventar é o mais que posso: e devo. Recolhi ao Esquina. Sou o único cliente do café. Pierce Brosnan desempenha na TV um 007 mais. A luz fez-se pó – e o pó voltará a carvão. Dilui-se a boca do céu em sua mesma saliva: uma baba anil que dilui até a amargura. Eu agora aceito isto com uma resignação de veterano. Adiro, paulatino, à física dos diluentes. Eu sei: a serenidade é trágica, como a revolta é uma comédia. Somos os vivos e os mortos, luz e sombra nos jogam. Em lugares tribúnicos da imprensa regional, arengo ainda inofensivas moralidades de crítica sociopolítica. Aqui, calado, não: assisto à fotogenia da realidade, a suas formosura triste e tristeza formosa.

A vida não é trágica sozinha. Precisa de uma consciência para sê-lo.

Recorto da visão de um homem velho a mão esquerda. Uma mancha roxa carimba-a de um estigma cartográfico. É uma mão que já tudo pôde: nada pede, agora, a não ser viver um pouco mais a existência aracnídea de toda a mão. Que terá matado esta mão? Que terá ajudado a nascer? Estrela e tarântula: como toda a mão.

Num café crepuscular, receber a violeta: digo – o mundo.

Gostei da limpeza das ruas, da pátina morena das pedras dadas ao sol. De pautas altas de segundo andar ouvi as notas de cor da roupa posta a secar. A caminho da noite, fui tomado de uma alegria invencível, esta: a temperatura favorecendo que algumas árvores da António José de Almeida chilreassem como realejos de passarada viva. De muita música é feito o silêncio interior de um homem caminhando a seu tempo. Traspassa-lhe a emocional porosidade certa devoção do comércio à efemeridade gentia dos peões. Reina dos céus o dardo epifânio: uma frecha de ouro amnistiando uma casa ensombrecida. Eu se calhar gosto da vida, embora lhe prefira a ortoépia.

Caramulo-Viseu-Caramulo, tarde e noite de 3 de Novembro de 2007
Foto: Viseu, tarde de 3 de Novembro de 2007

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