Monday, June 03, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 28 e 29 (manhã de 10 de Maio de 2013)



28

Ib.


Deixo o eu-corpo ir dar sem mim uma volta.
Dou-lhe o arroz que trouxe para efeito de pombas.
Em troca, ele deixa-me como de facto sou: em sombra.
Quando penso nos meus Amados Mortos, é o mesmo.
Tenho dinheiro para um par de cálices, meia-dúzia
de cigarros acalentam o bolso esquerdo do gibão.

Ao telemóvel, uma mulher louca queixa-se de quanto
engordou a uma remota outra Heloísa chamada.
Passa-se esta eternidade degradada no Café Colonial,
a que muitas vezes aplico tributariamente o nome de
Café da Rosa,
que hoje me (a)parece um seu tanto nervosa.

E quando as crianças sobem no ar como balões,
a gente madura sente a dor morna do ter-sido
às cores atmosféricas que o deslumbramento do Estio
volve estrelas capturadas em espelho nos fontenários.
E quando o senhor Carlos toma o seu chá & a sua torrada,
o que Leiria merenda é o pousio mais restaurador.

Por isso, podes imaginar em uma espécie de falida Detroit
inçada de motor-fantasmas, riscado o chão de poemas
a óleo. Quando o corpo me voltar, se voltar,
darei com ele a ronda do reconhecimento da luz,
que a 10 de Maio de 2013 tornou em glória franca.
E o Diabo dispara até com uma tranca.

29

Ib.
                                                                                                                                               

O Diabo até com uma tranca dispara
assim nos disse o Alferes Sardinha
em Mafra, Escola Prática de Infantaria,
acabava-se o Inverno de 1987/88.
Éramos homenzinhos verdes na parada,
marcianozitos do Serviço Militar Obrigatório.

O Abreu diz que vai deixar de fumar,
eu não fui ainda à Ereira, a Sesimbra sim.
A Trompa-de-Eustáquio silva o aquário cerebral.
Nada é tão lamentável quanto o viúvo entesoado.
Aqui na Colonial Rosa aparecem muitos,
com a agravante de as esposas serem ’inda vivas.

Leonor, ó minha gardénia clara,
volveste forte a minha vida e rara.
Teresa, jasminzito delicado,
volveste sorte a minha vinda e rara.
Não se pode errar tudo.
Esperar não é remédio.

A 8 de Março de 1988, adentrei o Convento de Mafra.
Nas arrecadações dele vive a tropa.
Aprendi a traçar o azimute & a disparar a tranca.
Cometi a melhor marca nos 80 metros: 9,4 segundos.
Disseram-me que só o Nené do Benfica tinha feito melhor.
Contei isso ao meu Pai, que viu logo que eu era para ser poeta.

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