Tuesday, May 14, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 6 a 10


6

Ib.

De anémonas um rosário eu possa,
ora que ’inda é hora de escre’viver.
Um cântico é um ladrar solitário,
quantos palcos de associações recreativas
venci na penumbra de anos esboroados,
tangos, valsas, fandangos & fados.

Operática nudez me convoco sem pranto,
nas salas-de-espera dos apeadeiros concebi
a inconcebível solidão moral do músico,
já então me adornava de cadernos impublicáveis,
lia com minúcia os mapas-horários,
meu era o fervor da ópera, da tragicomédia.

Coimbra, sim, mas Peniche, mas Aveiro,
mas o Caramulo com seus fantasmas hécticos,
Viseu com seu brasiledo de putas,
a por vezes inumana (inumada) Lisboa,
pensões de cinco tostões cuja humidade
fervia peixes frigidíssimos de agora-que-me-será-?,

fecho os olhos, canto (tom e meio sobre a linha melódica)
a Montanha, a Lua Fanal da Montanha,
canto a Grande Rapariga de Prata no Tempo,
canto a poliglotia dos animais mais mudos,
só não canto o quanto uma pontada de desespero
pode furar coração adentro um desejo simples.

7

Ib.

Quem ainda trabalha no meu ex-negócio é
o José Cid, coitado. Compreendo-o bem,
é afinal um português que gosta de cavalos
e de falar de D. Sebastião, o cachopo realengo
que se foi fazer ferrar a África. Falei
uma vez com ele – o Zé Cid, não o Sebastiãozito.

Fora & tirante o Cid, não mantenho grandes ícones.
Talvez o Conjunto Maria Albertina.
A Hermínia Silva. O Max da Madeira.
Um pouco de Händel, concedo.
Uns pós de Vivaldi na sensibilidade, vá lá.
E Paulo Frederico Simão do Bairro das Rainhas, NYC.

Tudo quase quanto hoje sei, é onde há pombos,
pombos e laranjeiras e cabeleireiras sós
como peúgas desirmanadas em marquises,
troco às vezes a serenidade por uma botelha,
uma botelha daquele bagaço que sabe a evangelho
todo cagado dos pombos.

Verdade é, também e porém, que isto tudo deriva
da habit(u)ação: às marés terrenas sufragadas
pelo vento de música dos bailes da mocidade,
quando eu era para não ter sido, não ’inda,
uma calota polar do que se junta, janta &,
irrefragável, se dispersa – cinzas quase tudo.

8

Ib.

Delego na memória fabril o febril produto,
que operário sou da articulação dita,
que não falada, da indústria poética.
No Largo do Cónego Maia, Leiria, anos-ora-depois,
Inscrevo a sombra confessa do meu Inverno,
o meu portátil Inverno de rapaz português.

Sou, em verdade mo repito & crocito, um órfão.
Tenho uma experiência venatória, pelo lado
do gamo. D. Fuas Roupinho não m’ enjeitaria.
E do meu tempo de infante pedonagem
reservo a pedraria viva de gafanhotos, sardaniscas,
ouriços, raparigas lácteas, primeiro desejo

de ver o universo em verso.
Evoco às vezes um vocativo que não há,
como se em palco de associação recreativa
me dirigisse em rogo a um público
de namorados zundapp-motorizados
e costureirinhas perfumadas de bolacha.

Quan/d/to assim escrevo, deponho. Não é o mesmo
que enlouquecer – não ainda, minha linda.
Eu sou do Verão de 78, da Primavera de 74.
Mas também do Mondego, que o Pavia e o Lis
me repetem em aquífero eco.
Não me quero par de qualquer badameco.

9

Ib.

Cantei uma vez a solo, andava adoentado o cantor.
Desempenhei-me na função como canário tristímano.
Uma mulher dentre a assistência quis saber mais.
Não havia telemóveis na altura.
Quando me apareceu com um copo de Dimples sem gelo,
Agradeci-lhe, primeiro, questionando-a depois

se era mordoma de alguma festividade religio-fogueteira,
dessas de aldeia que Agostam a portugalidade,
disse-me que não, que gostara de me ouvir cantar,
que se eu compunha,
disse-lhe eu que ainda não,
que só em Maio de 2013

me atreveria a compor um Baile mas Sozinho,
redarguiu-me ela, em aquiescência, que sim,
que compreendia, que às vezes se sentia sozinha
entre tanta pomba e tanta laranja,
& que sentido é haver por aí tanta ourivesaria
e tanto cantor e tão sozinho dela ser o dia.

Isto não é verdade. Nunca aconteceu. É só um livro-só.
É apenas como se eu tivesse integrado o Trio Odemira.
E só o Bailinho-da-Madeira em quádruplas sucessões
de sextilhas em estilhas verbais.
É só um ter-nascido-e-já-sido.
É não saber mais.

10

Ib.

As linhas cantadas atiram lírios aos pés descalços
que a alma usa quando a desnuda a música.
Senti vivamente isso em certos desempenhos bailadores,
quando o conjunto menos era movido pelo dinheiro
do que pela urgência de partilhar a chaga-viva
da rima tónica, em C-cortado, tipo slow.

Outra coisa são as linhas contadas.
Essas que em família soliloquamos nos invernos.
Essas que nodulam (ondulam) a garganta à saída de casa
para a vida definitiva, essa morte da canção,
vê se me percebes, vê
pelo menos se me ouves.

Recordo entre bailes
(entre livros, sobretudo)
certo hepático cavalheiro
cuja amarelidão traía
muito granel de aguardente
e muito hectare de tabaco acre.

Era Serafim:
a mulher traía-o.
O bairro via-o (e, casquinho, escarnecia-o).
Não nascera amarelo. Foi fugazmente, por bebé, até belo.
Gostava da música que a gente fazia,
mas no fundo só queria tão-só companhia.

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