Wednesday, May 15, 2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 16 a 20


16

Leiria, tarde de 9 de Maio de 2013, quinta-feira


É com férrea disciplina que cometo afinal a minha vida.
Colonizei todos os lugares que respirei em presença.
Cedo pouco importância até ao alude dos anos.
No fundo, não tenho medo, facto que me apazigua.
O problema, a havê-lo, estaria na urgência inelutável
de tudo escrever sem o luxo do repouso.

Postulo, por tudo isto, uma verdade pessoal e ínclita
quase. Faço-me livros de que hei veloz necessidade.
Eles acabam adentrando-me a fala, a vida social,
os nervos da flora, a ubiquidade dos animais,
a ventania que desde menino me euforiza aos gritos,
me iça aos ares frios atordoados de azul.

Não posso ser igual a mais nada, a começar pelo espelho.
Quando bebo uma cerveja em atento silêncio, sidero
a solidão gástrica e dela a vocação de entranha
labiríntica, ao fervor da sede que a aridez da esperança
implica e imbúi. Encastoo os meus ferros em oral
veludo, o que é muito para um pobre e nada para o moribundo.

Os núcleos efervescentes da minha vida têm amor dentro.
Sou um pássaro de calças sobre areias e mirtos
(e mortos também, sempre & para sempre), querida.
Vejo que toda a criança reitera a eternidade caduca.
Vejo o cão que dança de lobo dentro vigiando.
E com férreo disciplinado amor atiro pedras à água da fala.

17

Ib.


Gosto de coisas como a que ora mesmo aconteceu:
um velhote de boina que antes de se sentar
boatardou todos os circunstantes (um homem/uma mesa)
no Café da Rosa. Sim, sou de gostos simples,
como o de gostar de bons-dias, boas-tardes, boas-noites
dadas e recebidas por e de pessoas não conhecidas.

Em este Maio me pergunto quantos Dezembros serei ainda.
E se será em casa que de vez adormecerei.
A minha casa – esse país por onde traficam os meus
Amados Mortos o amor mais estupefaciente em
açúcar cristalizado e violáceo, violento às vezes.
(Sim, estou hoje capaz de verdades.)

Não percebo o aquário como não aceito a gaiola.
Mas em casota caninamente me encerro, pulguento
de tanta poesia ao mundo desnecessária mas a mim
crucial, em Língua Portuguesa de Portugal. E tal.
Sou bonito quando atiro diamantes às pombas, embora
pão seja só, de rosas esmigalhado-diamantinas perfumado.

Sim – e viva o fado. Quando músico de baile, certa noite,
adentrei o bufete no intervalo para rifas em quermesse
pró-pobrezinhos da aldeia. Lá fora, chovia gelo quebrado.
Pedi uma cerveja, que o director em função barista
me serviu com rodela graciosa de tremoços gordos
curados em serapilheira no ribeiro. E eu dei-lhe as boas-noites.

18

Ib.


O Inverno de Queluz sempre me acinzentou a imaginação.
Aquelas pessoas, sabes, a fazer de canários nos andares-gaiolas.
Que luz Queluz não pode ter, dada a taxa de divórcios,
óbitos do amor contratual com que os católicos não-
-praticantes enganam a Deus? Adeus, adeus, não
quero morar jamais em Queluz, nem no Monte Abraão,

que Rui de Moura Belo circum-escreveu como ninguém.
A minha Mãe tinha uma prima velha chamada Clementina
e muito sozinha que morava em Queluz. Nos Julhos de
primórdios de 70/XX aparecia-nos na praia da Figueira da Foz,
a minha Velhota e ela conversavam eternitardes
enquanto eu absorvia as cores mais salgadas da felicidade.

Às vezes falo de coisas assim à minha Graça,
ela não acha estranho que eu continue ao pé da Bola-Nívea,
por isso nos casámos. O meu Pai vinha de comboio
aos sábados, não sei por que terá deixado de fazê-lo,
talvez porque não dêem aos mortos dinheiro que chegue
para o comboio, que naquele tempo eram de cartão

p(r)ensado, os bilhetes da ferrovia. Às vezes a minha vida é
Queluz, outras em que luz. Isto depende dos sais,
que são mancúspias grão-cristalinas como as enzimas
mas um bocadinho menos.
No Verão, o Mar exulta.
E os Campos aureolam-se de ricos fenos.

19

Ib.


É uma espécie de transe.
Uma combustão, um quase-grito.
É um amaciar de coxas.
É como ser flibusteiro.
É lapijar a cores o mapa das laranjeiras.
E é não ter hipóteses.

Respondi exacta-sic-mente assim à pessoa
que no Largo das Forças Armadas, Leiria,
me perguntou em que trabalha o mundo
e que sentido pode haver em que ele trabalhe
e para quê tanta pomba tanta criança
tanta às vezes aflição.

Vi depois um homem todo vestido de roxo.
Talvez fosse o vinho: o meu como o dele.
Sim, pode ser aflitiva a consciência verbal.
É quanto tenho.
Se poderia ter mais?
Não o quereria.

Depois, o carro da polícia passou em frente à Rodoviária.
Um notário filatelista pediu chá de tília.
Pensei nos telefonemas que de quando em vez faço à família.
Sementes agrícolas e ceras apícolas e agonia viária.
Página em frente, trabalha muito, sê gente.
Não escreviver, morrer seria, seria ser igual só, nunca dif’rente.

20

Ib.


Um rapaz representante de vasilhames
teve à nossa frente sua quebra-de-tensão,
demos-lhe todos água açucarada
e face-palmadinhas de cristão carinho,
o moço rearribou,  é de calvície precoce,
pele tipo cor-de-sobrinho-filho-de-padre.

Depois, a Celeste, que usa e abusa daquela blusa
que lhe acarna o seio adiposo de amamentadora
profissional, quis saber qualquer coisa que não ouvi,
não me sendo portal, perdão, por tal
possível poetar seja o que for
com Celeste sextilh’ adentro.

Três-euros-e-meio são setecentos-paus dos antigos.
Há já quem consumo-minimize isso a senhoras
nos bailes-das-velhas que são
a mais admirável circunscrição
desta como de muita re(li)-
gião.

Aguardo activamente o Poema que me resgate,
qualquer coisa tipo
Os-Lusíadas-como-os-diz-Molero.
Ainda não será hoje.
Pego nas manchas de tipografia.
(Não há dia em que te não deseje bom-dia.)

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