Thursday, February 28, 2013

Rosário Breve n.º 298 - in O RIBATEJO de 28 de Fevereiro de 2013


O BARQUEIRO

Da outra margem da minha vida, alheio a esta hora tolerada, está o barqueiro que me oferecerá flores e sombras.
Flores crescidas nas sombras da água, não longe de árvores altas que apontam, como lápis, os números sem leitura do céu. Tantas ruas agora corro, até que uma delas se feche. Entrarei. Terei chegado ao cais. Música de madeira molhada os meus pés tocarão. Verei no escuro os olhos de lobo do barqueiro. Verei o brilho dos dentes: para me sorrirem e me comer. Sentirei a vida pontiaguda das árvores-lápis apontando a desnecessidade de tanta leitura. Agora, não procuro. Sei que as ruas preparam o barqueiro. Tantas ruas, um só barqueiro. Uma porta para mim, por onde me escoarei como uma língua de luz, saciado e grato pela glória de algumas mãos cujos dedos cercaram as minhas mãos, os meus dedos já sem lápis pretos como árvores. Espero isso, caminhando embora, saindo daqui, entrando aqui, penetrando os jornais do dia (os crimes de Negritarias e Mançã) e as laranjeiras da noite, consciente de quem em bares frios adolescentes jogam videocêntimos, atiram electrodardos, escutam hipnomúsica, bebem o leite verde que lhes troca a consciência por uma hora melhor do que a vida toda. O meu barqueiro cultiva as minhas rosas. Esta noite, merecerei ainda o meu caldo de ervilhas com um naco de bovino afogado, uma lâmina de pão com cabo de mão humana, a minha esquerda, também colhedora de azeitonas e páginas pares de jornais da noite e de est(r)elas da tarde. Espero caminhando, amando a amargura, essa fiel irmã dérmica, pulsadora, intrépida corredora venosa da minha cartografia, lá onde a dopamina e outras terças-feiras se associam recreativamente para dar ao meu barqueiro estas flores horizontais a que não escapo nem quero. Posso ainda rondar o mar como um pastor de gaivotas, completamente vivo, não despedaçado ainda pela porta sideral que leva ao barqueiro cósmico, pobre funcionário crematório de rapazes tristes e putas tristes e tão triste e sossegado no leite verde que reflecte o barco, o barqueiro, as flores-lápis e as árvores-lazuli, um egipto de ruas portuguesas. Até que a porta suceda.
Truz-truz. 

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