Sunday, October 28, 2012

ANTES DO REQUIETÓRIO - 52 - manhã de domingo, 28 de Outubro de 2012


52. DUAS MISSAS BREVES

Leiria, manhã de domingo, 28 de Outubro de 2012

I

Quando vejo os velhos, é como se estivesse no desembarcadouro da gare. Ferroviária ou marítima. É ver os que estão de partida. Nunca como ante eles sinto a espessura do termo passageiros.
Entre os velhos, há os que nunca se desmatricularam da vida tida por simples, esses que se ligam à terra para quanto sempre lhes coube e houve. A vida interior do hortelão, percebes? Esse músico vitalício ligado ao solo por via das partituras vegetais. Em coro e a solo, derredor, seus animais. Bucolismo tonto, o meu. Nada me interessa se meu, se alheio. Não se trata do elogio do asceta, do pária, do apátrida, do associal. Trata-se do homem com suas couves, sua leira, sua água em profundidade freática, seu porco salgado em arca, sua metafísica de vinho contado para todo o ano.
Temo não lograr vir a ser um poeta desses mas tão-só este homem que entre pastelarias julga preferir Maeterlinck a Claudel.
Porejam luz fresca os azulejos da manhã: a esmalte azul moldurados, arvoredos e chaminés negoceiam em placidez a civilização. Um cunho primitivo salva-nos do horror possível da desatenção. É possível sozinhar sem desespero a instância do país matinal. Ou assim: é possível viver todo-só de humanidade agarrada ao corpo como um cheiro de cozinha à roupa.
Ao menos partilho isso já com os velhos. E contigo – que és aquele tu a que sempre me dirijo quando parece mal gesticonversar sozinho, à maneira do espelho-da-barba.
Percebo, percebes (perceberás?), que isso a que chamam Morte é um telefonema que nos fazem enquanto somos quem atende o telefone e não (ainda não) o assunto dele.
De modo que todo e tudo o restante são a vida, não é?, a vida – que uns se limitam a levar vivida, ao passo que outros levam a transformá-la em vida.
(Talvez te tenha rezado alguma coisa, não sei bem, ora-me tu a mim agora.)

II

Encostado fumando devagar a um dos pilares da galeria já tomados pela luz directa da manhã. Absorvo e assimilo o sol no corpo como o giz recebe e apre(e)nde dos dedos do menino primário a caligrafia. Olho o quadro, que repito nos dias través as estações: a área desportiva obsoleta já à nascença, a veia viva via-rio que a escolta de árvores ri de brilhos ridente-brilhantes, homens e rapazes numa coragem de calções trabalhando-se tónico-oxigénico-musculares, mulheres-da-erva rumando a capela alvinitente, alvidúcida, cegas do Deus da mesma rotina com que enxundiam o porco, esmadrigam os filhos, esborcinam os púcaros, esnocam as oliveiras e esgarçam a si mesmas, o sempiterno cão público vadiando sua leonina privacidade, o cardápio de possibilidades sexuais as mais inclementes que a falta dominical de táxis adensa nos homopeões de pochette à cata de rapazinhos de mochila,
mas tudo porDeuscomDeusemDeus
ao Sol,
que o Mesmo Um e Outro são,
ide,
que
ite missa est. 

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