Saturday, October 13, 2012

Esta manhã de sábado, 13 de Outubro de 2012


28. E AGORA AS ACTUALIDADES

Leiria, manhã de sábado, 13 de Outubro de 2012

I

Só quando deixa de o ser me interessa a actualidade. Este caderno-livro, os que o antecedem e os que talvez lhe sucedam, são, pois, de uma hodiernidade espúria. Colecciono actualidades que foram. Vivo esta com a lucidez do fósforo – mas só o cheiro a queimado deveras me interessa, atrai e recompensa.
No saco, uma agenda trago para inscrição do Ano dos Anos. Notas exemplares de Janeiro 1 a Dezembro 31 – devassando séculos, obras, pessoas, fontes, pontes, montes, o diabo-a-quatro-pintado-a-sete.

II

Uma mulher alta e larga e branca como um móvel de leite. Lê o jornal da manhã enquanto pequeno-almoça um bolo seco e uma chávena de chá verde. É desejável: a carne abundante segura-se a boas cordas musculares. Ela cuida-se. A cor não natural do cabelo é compensada por uma higiene clara, irrefutável. A três quartos transparente, o vestido (listras horizontais violetas sobre campo de mármore) entrevê o elástico forte do soutien. Tinha aliás de ser forte: o balcão do peito abre dois globos maduros de peremptórios mamilos, o tudo pesando muito grama. Ancas fantis, apuradas, capazes de aparar um ventre de acordeonista veterano. Pés claros também – e utentes de bons esfoliantes, posto que os calcanhares não se encascam de cera, o que é raro. Ah, os olhos. Olhos de mulher de cinquenta anos: 25 cada um, portanto. São aloftálmicos: o mesmo é dizer que diversamente pigmentam as íris: cinzurazuis com joaninhas pinturando pontitos de carvão molhado, por assim dizer. A gaforina, isabelada qual videira americana-outonal, merecia volver à natura cromática, que suponho de claro castanho – mas reincido na evidência lustral da lavagem a sabão nosso, do azul-branco. Gentil, oferece-me o jornal, saciada dele. Agradeço-lhe quase muito, de mais quase, sorri-me, regressa à mesa dela, em cujo tampo floresce já a rosa gritante da revista de modas e figurinos. É quando me é dado fixar a quartapisa do vestido que a usa: barra de um roxo forte, violento quase, traço que seria de um catolicismo brutal não fôra a peanha obstinada das coxas. Louvaminho-a, turibulo-a, incenso-a? Sim. Ornamento-a, atavio-a, enfeito-a? Sim. Colaço de seu corpo lácteo e grande se me sente o escrever, o que aliás se nota sem esforço. Ao entregar-me ela o jornal, sofri eu dela a manação almiscarada. Tão cedo ’inda na manhã, já ela cheira a floresta nocturna, sua chuva, seus lobos. Suponho-lhe (decerto com acerto) angustifoliado o delta púbico, seja: de folhas estreitas, coerentes, solidárias, amariçadas – mas desbraváveis a doce custo sem amarugem alguma (quase). É mulher de uma actualidade de ensejo. Actualidades assim, sim, sempre me interessam, até porque à beira, eu também, dos cinquenta anos, a ginestesia me venha sabendo mais e mais, cada vez mais e mais de cada vez, a ontem.  

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