Monday, December 26, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 63 - trechos do POSFÁCIO - 5 a 11 de Julho de 2011



A minha morte pensa em mim, irada,
como amante toda a vida desprezada.

*

Vento que o rio treme no trecho da cidade:
é agradável estar vivo como uma pomba
a ele exposta.
Esta é a única resposta
que tenho e mantenho
na quarta-feira leiriense.
Um quase-frio, um quase-nada,
sabes,
a vida.


*

Agora a cidade continua jade, idade. Ela, jasmim, jaz-me. Estou pronto até para o que não der nem vier. Toda a manhã (10 de Julho de 2011, domingo) por campos que nem um ribeiro avizinha. A pé, em frente, toda a manhã. Respirei eucalipticamente, lavandei-me andante e andando. Tomei café devagar, vi as igrejas presidindo aos casais, as cegonhas às igrejas. Devo ter sido feliz. Pessoas orlavam a ribeira, avançavam na claridade e na clareza do matino-domingo português. Alfaias, máquinas agrícolas, muitos pássaros. Mas as manhãs acabam e as cidades renascem na noite. Acabo o domingo num café mecanizado pela ginástica de ferro da solidão urbana. Um homem lendo sem atenção o jornal já velho, acabado já. Um naufrágio na Rússia, um sismo no Japão, uma tragédia ferroviária, não ouvi onde. O duque de Bragança, não sei quê. A noite muito viva em tudo quanto é sítio, quanto é mundo. Um sítio chamado Mar Báltico, um mundo chamado Mar Morto.
Traficantes de droga, lavadores de dinheiro, pequenos meliantes, poetas de freguesia limitada & concelho limítrofe, jacarandás explodindo viole(n)tamente nas urbes, escrituras & panegíricos, Isabel & Dinis, Demétrio & Nicole, é-apenas-a-morte-é-apenas-a-morte, gritam os arautos da Senhora-da-Boa-Idem, vi as relíquias de Madre Maria do Lado, um fragmento do cérebro, um fragmento do corpete, um fragmento do véu, um monocandelabro: pobre rapariga louriçalense viva & morta em transes da Superstição.
Dois homens caminhando à chuva num cemitério. Vista aérea de uma aldeia de casas feitas de terra. O sol nessa tarde edificada. Rapazes mordendo pão com carne num café de Leiria. Serôdias puberdades, livros que reamanhecem limiares pessoais.
O Sol numa montanha: o festival que isso é, a música disso, a Música que isso é. O sol dando casas de terra com água por vizinhança. Os regueiros, o milharal, o arrozal, as cegonhas. Os corpos exsudando ribeiras, a pé, toda a manhã.
Dinis & Isabel pela linha terras-ribeira. Na cidade, uma mulher tatuada como uma iguana.
Os horrores omnívoros das guerras ecuménico-económicas. A ONU, os agriões da ribeira. A comezinha vida das espécies. Os Grandes Gelos, a tristeza glaciar. Um bigodudo de olhos verdes como duas cegueiras lúcidas de sierra-madre. A iguana sorri servindo bebidas. Leiria, século XXI.
Áreas sobrevoadas por pessoa sonhando. Ribeiras que ribatejam transmontanamente. Piscinas de água-de-olhos. Um novo livro na calha dos escritores mortos, dos passados idos leitores deles. Poupar costelas, não cautelas. Lábios não sábios, que ébrios, nem cúpidos, que sóbrios.
Famílias como quimonos: assombrações de seda & papel & dragões combustíveis carburados. Crianças em vitelina pele, aclarando as vozes da manhã (toda a manhã). Valor da superfície das coisas, agora que vamos morrer. Aventuras marinheiras em terra (mas as ribeiras, Isabel, a água-pele delas, recorda).
Estes dias que vou queimar-me.
Estas manhãs-tão-noites-tão-amanhãs, Senhora. Polícias tresandando a convento. Lápis urdindo filas-formigas no alfarrábio-sensorial.

*

A costureira Júlia é casada com o caixeiro Arnaldo.
A Sarmentinha serve petiscos com vinho-do-lavrador.
Na secagem do arroz, andorinhas e cegonhas nidificam.
Eu nada-fico, (d)escrevendo embora renascimentos,

os mínimos renascimentos da cidade sem mar
que no mar pensa, nem saber por-ou-para-quê.

Um homem moreno-ar-livre com um saco de papel:
pão, grão, agrião, feijão.
Ele bebe um copo de vinho, tasquinha um pires
de tremoços.

E na orla marítima, por estas horas, bandeiras:
pinceladas de cor que o vento dá de cor.
Por cá, ruas sem calções nem sandálias, tão-só
o império regional do que-s’afoda-matilde.

Brava alegria, ainda assim: coretos e gares recebem
a convocatória palavrosa da tanta quantas as pessoas
realidade.

Noutro tempo, eu frequentava o Café Ripa, a Cervejaria
Nau, a Bibliografia Steinbeck, o Liceu Infanta D.ª
Maria, o Café Paris, o Barroca, o Haussmann,
o Galego da Rua de Santa Prepúcia – agora
adeus, ó Lúcia!

Um delíquiourazul toma a imaginação,
hei-de manipular como sempre a aguardente
verbal que água se imagina versilivremente.
(No resto, como toda a gente.)


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