Thursday, December 15, 2011

Rosário Breve nº 237 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 15 de Dezembro de 2011





Tenho andado por aí



Circunstâncias da minha vida levaram-me a deixar aos 22 anos a terra onde nasci, aquela de que se canta e diz ter “mais encanto na hora da despedida”. Iniciei então um périplo que só ainda não parou porque todos os cães têm sorte.
Se se é para sempre de onde se viu pela vez primeira a luz do dia, então sou de Coimbra. Todavia, é verdade também que sempre se acaba pertencendo ao rincão socioterritorial em que se está – ou se vai estando, enquanto não dobra por nós a sineta da capela mais próxima.
Assim, no quarto de século já volvido a partir da minha saída das berças natais, fui íncola de Peniche, Figueira da Foz, Lousã, Louriçal, Pombal, Leça da Palmeira/Matosinhos, Aveiro, Lisboa, Tondela, Caramulo, Viseu e Leiria. Em todas provei o vinho, em todas saudei a manhã e suportei a noite, em todas me debitaram imposto e em todas tive terças-feiras de melancólica felicidade, que é a alvíssara da volta do triste pelo passeio dos alegres.
Santarém, Abrantes, Tomar, Coruche, Almeirim, Salvaterra, Constância, Torres Novas, Golegã, Alpiarça, Cartaxo, Chamusca, Xira e afins não me aconteceram ainda. Sublinho: não ainda. E sublinho que este sublinhar me decorre de um nomadismo que se me volveu natural (para não dizer fatídico) num país em que morrer parece ser o mais pertinente projecto de vida.
Ora, dada a sua iniludível portugalidade – para o bem como para o medíocre –, o Ribatejo parece-me tão boa região onde cair morto como qualquer outra. Nem que seja de riso.
Nem que seja de riso, a avaliar pelo era-para-ser autódromo de Fórmula 1 da Quinta do Gualdim, pelo basebol de Abrantes (cf. Dr. Eurico Consciência), pelo tango (ou “tanga”) de cadeiras do IEFP (que miserabiliza a mais curial essência de serviço público – cf. PS/Madelino vs. PSD/Oliveira), pela batida, velha & revelha “esmolaridade” dos pedinchórios natalícios (como tão acertada e editorialmente zurziu o duartirector deste jornal) e, enfim, pelo nanismo político-administrativo de um senhor de nomes vegetais que não é carne nem peixe mas cuja auto-anunciada não recandidatura pode ter finalmente encanto, na hora do despe-te & vai-à-vida.

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