Wednesday, December 28, 2011

LIGAÇÃO À MEDUSA - início de publicação




LIGAÇÃO À MEDUSA


Que o livro há-de ser o que vai escrito nele.

Bernardim Ribeiro, MENINA E MOÇA



para o ANIANO, em memória viva




entre terça-feira, 12 de Julho de 2011, e quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011



PRÓLOGO:
AGORA QUE ESQUEÇO MAIS DEPRESSA

Leiria, terça-feira, 12 de Julho de 2011

O admirável dia novo veio matizado dos ademanes que pôde: orlas e fímbrias filtrando frontes, fontes, volúpias e venturas, a havê-las. Na cidade já velha, uma esfera de palácios sem gente dentro. As pessoas, na antiga urbe, como satélites langorosos. As pessoas, fauna sempre insólita e solitária sempre: a quem amo sem corpo. Às pessoas, aliás, imolo e abjuro – juro. Escrevo em frémito, porém e sempre, súbdito eu-mesmo da autoridade da tristeza. Atento a tempo ao Tempo, esse areal invisível que funciona em matadouro de pavões & gansos & crianças & horas. Aí está ele, o Tempo, que a Ele-mesmo-se-mata-em-sendo. De Portugal para o Resto-do-Mundo: andorinhas-de-barro em umbrais caiados como putas japonesas. De Portugal para o Resto-do-Mundo:

Vela panda que anda bela
Voa branca ao estendal do sal
Drapejando vento que a anela
Não sei eu se pense nela
Com ramo de frescas rosas, rosas dela
Vela panda que anda nela.

Atento. Oscilo e consolo. Escrevendo, dou um bolo. Lendo, um dolo recado. Contemplo. Induljo. Se calhar, encanto. Prolo(n)go-me quanto posso, que este vai ser livro de ligação à medusa. Tudo o que for, tendo sido: digo: traves, aves, acontecimentos espiralados como cadernos cosmogónicos, entreténs-de-tempo, vícios óptico-roseirais, o Diabo e a Ausência de Deus. Um ramo de rosas frescas. O rumor e/ou do amor na mesma concha. Um glaciar azul e puro como só um glaciar e como só a cor azul que faz o céu acontecer de uma só vez sobre todo o glaciar. Ou as Cidades que pesponto a ponto por ponto: nomes de ruas, gente sem nome, cemitérios & berçários, acontecimentos musicais &/ou pedreiros, vagas ânsias arenosas no diafragma, versos perdidos de pessoas achadas, secas & molhadas. Música, enfim. Veio matizado o admirável dia novo. Isto é a minha vida. Um frémito drapejado: árvores fluviais remolhando vernizes & esmaltes como pessoas amantes em plena ginástica herética, digo, erótica. Essas coisas de que só falamos quando um copo de mau champanhe nos obriga a ser bons. Esta terça-feira – ou outra qualquer. Esta cidade – como qualquer outra. Esta vida – como só esta, só embora. Eu tenho andado muito na antemão do já-ido. Por igual, procedido tenho eu muito à audição de seres falantes que nem lêem nem escrevem. Só que a força das forças cria novos e admiráveis dias, a começar pela Música. Então, eu repouso o aparo sem amparo: e volvo-me audaz ave de tímpanos expostos à salsugem das partituras.

Como putas japonesas feitas de chá-de-papel. Kawabata etc. A face das pessoas: o olhar ao alto desse penhasco: é de onde cai.

Agora que esqueço mais depressa,
agora é ’inda tempo de ir sendo,
d’ir indo, meu lindo.

Não controlo nem a bondade nem a falta dela.

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