Sunday, December 04, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 56. EPIFANIAS E ENDECHAS E EPIFANIAS (conclusão)





56. EPIFANIAS E ENDECHAS E EPIFANIAS (conclusão)

Louriçal e Leiria, domingo, 26 de Junho de 2011
Coimbra, segunda-feira, 27 de Junho de 2011


 O dia vira de si mesmo a página, eis-me, uma vez mais, ainda (era) uma vez, nesta Cidade – Coimbra, a que por bandas dos Covões, relanço endechas:

A farta senhora / de vestido ’scuro
’ind’ é sedutora / sob o pinho puro.

Ao sol de Coimbra / também eu fulguro
e auguro ainda / novas do futuro.

Vai larga e alta a manhã local: parece uma camélia menos dada a róseos encarnados que ao maciço verde e ao azul aguado. O bafo do Estio já fincou a tenda. As dermes amorenam-se, o suor oleia as juntas dos corpos portugueses. Um insecto minúsculo lê-me o caderno na página seguinte, que ainda não escrevo mas vou, enquanto espero que Isabel venha da Hematologia. Na mesa em frente à minha, um pequeno-casal-almoço: ele chupa laranjada de lata verde por um tubo de plástico preto e come um pão com uma tira de carne seca; ela come coisa homóloga, mas preferiu uma garrafa com ambrosia, ou néctar, de pêssego. Ele é narigudo e pré-careca, rosto bem escanhoado, relógio de bracelete, largo-metal no pulso direito; ela tem um relógio parecido no esquerdo, vestido de fina gaze com motivos florais claros. São jovens, casados uma em outro. Conversam com serenidade: átomos, habituados a fazer da inflexão a mensagem mesma. Ele comeu a sandes toda; ela, metade da dela, embrulhando a sobra no guardanapo de papel. Ele tem um sinal lateral no nariz e outro na narin’asa direita. Ela está grávida a metade da gestação: parece-me mulher de meio-meio, dada a sandes e o filho. Recebe um telefonema, percebo que percebe do ofício bancário. Dá indicações precisas sobre depósitos, cauções e movimentos, determina instruções activas de modo sumário e claro – até eu saberia o que fazer ao dinheiro, seguindo-a. Ela tem um sinal alto e escuro sobre o lábio superior, que aliás a não desfeia. Terminaram, partem. Ele dá-lhe a mão esquerda quando descem o breve lanço de escadas da saída do bar do hospital. Manhã alta e larga e local.

Um eucaliptal denso enriquece a vista a oriente. Dois pinhos-mansos, depois quatro, guardam um relvado e uma vivenda branca com grandes portadas de vidro. A serpente murcha de uma mangueira dormita no relvado. Muitos carros ao sol sobre um chão de árida gravilha. Riscos de música: vozear de pássaros velocíssimos contornando as esquinas e as rotundas da brisa. Um enfermeiro inchado e lento acende um cigarro-pausa ao pé de um carro vermelho. Uma rapariga das limpezas sorumbatiza agarrada a um esfregão. Um doente das tripas amareleja de pantufas pela álea érea principal. Quanta lhaneza chã, a da humanidade livre de demandar os cantos da existência-prisão, senhorita Yourcenar, verdade?

Ouço (12h54m): cerrada serração sonora de cegarregas: músic’açucena da infância que hei sido: ressonância, portanto, do ser, do ter sido, do ir-sendo, do a-ser.

Mais do que como pessoas, é como gerações que as estátuas envelhecem; mais do que como gerações, é como séculos que as catedrais envelhecem; mais do que como catedrais, é como milénios que os séculos envelhecem em pessoa.

Penso na minha morte sempre que a sinto pensar em mim. Não é morbidez: é a lucidez dela, a evidência da clarividência dela.

Deixámos, Isabel e eu, Coimbra para trás. Por uma via (EN 248) interior, nomes marginais em placas remetem para sítios não visitados: Sebal, Cavada, Oureça, Casal do Brás, Pouca Pena, Alencarce de Baixo, Quinta de Dona Maria, Grisoma, Carvalheira, S. José do Pinheiro, Brunhós, Samuel, Gesteira: coágulos arteriais do sangue habitacional.
E Casalinhos etc.

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