Friday, December 24, 2010

Rosário Breve nº 186 - www.oribatejo.pt - 24 de Dezembro de 2010

Robin de Jesus

Era para deslindar-me desta crónica com uma proposta de petição a abaixo-assinar pelos meus leitores que alinhassem nisto: juntar uns trocos e contratar os serviços de tantos homens-do-fraque quantos os ministros deste ingovernável Governo. Mas como é Natal (“salvação e luz” etc.), decidi contar qual o meu mais fundo e legítimo desejo para a quadra. Este Natal, quem deveria nascer não era o Menino Jesus. Era o Robin dos Bosques. O tal que sacava aos ricos para devolver aos pobres. Era, era.
A global hipocrisia natalícia fere este ano mais fundo. O Estado, longe de colectiva pessoa de bem, usurpa mais e mais, qual Xerife de Nottingham, os campónios e os artesãos que involuntariamente o fundamentam sem ser por metáfora.
O Menino Jesus nunca nos fez mal. É certo. Habituado a burrinhos como nós e a vaquinhas como quem sabemos, Ele próprio é mais um na fila da Cruz e do matadouro. Partilhamos com ele tão-só o calvário, não a esperança.
Logo, quem nos daria e faria jeito era o senhor Robin dos Bosques. E devidamente acompanhado daquele dito Pequeno mas bem matulão João de abençoado cajado nas patas fortes com que zurzisse os malfeitores legalizados que tudo corrompem e aviltam.
Não é que eu espere, como os ingleses pobres da lenda de Robin Hood, o messiânico retorno da Terra Santa de qualquer Ricardo Coração-de-Leão armado em D. Sebastião. Não. Os Ricardos e os Sebastiões da salvação estão mortos, desfizeram-se em cinza e não voltam “nunca/nunca/nunca/mais”.
E a Terra Santa, por artes & manhas da Santa Usura, parece hoje chamar-se FMI. São “três letrinhas apenas” com que igualmente se escreve FIM. É onde estamos: no fim do ano como no fim do futuro.
Entretanto, o burrinho pestaneja as orelhas, a vaquinha tuberculiza, o Robin não renasce vestido de fraque e o Xerife de Nottingham local sente-se uma espécie de santo.

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