Thursday, December 02, 2010

Rosário Breve nº 183 - www.oribatejo.pt - 3 de Dezembro de 2010



Dois mil anos mais dois

Embora a datação seja ainda algo controversa, deve ter sido há coisa de vinte séculos que certa obra-prima da literatura latina (logo, universal) viu a luz do dia. Falo-vos de Satyricon, hilariante (mas seriíssima, também) narrativa de um tal Petrónio. Há mais do que uma versão portuguesa da obra, mas a que vos recomendo é a que Delfim F. Leão preparou em 2005 para a editorial lisbonense Livros Cotovia.
Lendo-a, tropecei em mil e uma virtudes diegéticas, estilísticas, estruturais, o diabo a quatro. Petrónio é grande escritor, Satyricon é deveras livro de primeira-água. Trago-vos (re)citações de alguns trechos. Ei-las:
- “Panela onde muita gente mexe, ferve mal.”;
- “Mas agora o povinho em casa é um leão, enquanto fora é uma raposa.”;
- “Mas quem não pode malhar no burro, malha na albarda.”:
- Uma cobra não vai parir uma corda!”;
- “Se não houvesse mulheres, teríamos de tudo aos pontapés; mas assim é mijar quente e beber frio!”;
- “Não sei por que razão é a pobreza irmã da sabedoria.”;
- “Quanto mais não vale polir o sexo que o siso!”;
- “Anda à procura de si a natureza e não se encontra.”;
- “O povo está à venda, a cúria do senado à venda está: o favor reside apenas no preço.”
Permite-me agora, meu querido irmão-leitor, que a estas pérolas com dois milheiros de anos junte duas outras. São de factura portuguesa. Uma é de 1980. Foi escrita a 13 de Janeiro desse ano pelo Professor António José Saraiva no Prólogo do seu, dele, livro Filhos de Saturno – Escritos sobre o Tempo que Passa (Bertrand, 1980):
- “Se o mercado mundial é um dos processos característicos da nossa civilização, é evidente que a mundialidade do mercado é um dos problemas que contam na conjuntura nacional.”
Avisadas e sábias palavras a que uno estoutras de Manuel Laranjeira (não sei de que obra, lamento). A data é fácil. Troquem de lugar o 8 e o zero da citação anterior. Dá 1908. Foi quando o poeta disse:
- “Mas não nos iludamos: ou nos salvamos nós ou ninguém nos salva.”
Fico por aqui, amigo. Faz favor de reflectir (no duplo sentido de reflexo e reflexão) Petrónio, Saraiva e Laranjeira.

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