Wednesday, April 21, 2010

RETRATO DA QUE ERA PARA VIR MAS NÃO VEIO A UM CERTO PONTO DO MEU INVERNO EM BALTIMORE

Pombal,tarde de 20 de Abril de 2010





Daqui vejo-a, ainda assim. Ocupa um canto sem alternativa da minha casa verbal. É de pupilas negras como negras esmeraldas, que um branco muito puro, de concha fresca, esmalta em torno. A boca dela fecha e abre, à maneira da dos peixes, legendas de ar em bolha como a imaginação dos caracteres de banda desenhada. Move-se na ventania aquosa com uma transparência de medusa. Arrasta longamente a longa cauda. Tem momentos de clarão em que aparece acabada de nascer. Não sei quem lhe sejam os pais. Talvez já tenha filhos, só pode. Floresce murchamente em algum emprego de repartição ou retrosaria. Mas é a mais bela de quantas são belas porque os meus olhos a escrevem – se eu soubesse música ou pintura, calar-me-ia: e dar-vo-la-ia a ver e a escutar. Assim sendo, digo dela os pés que levitam mercê de colaterais asinhas de madrepérola. Pestaneja cinzas furta-cores, que esmigalham pelas coisas redundantes mil caleidoscòpiozinhos insensatos e febris e éléssedês e bonitos. Perturba decerto um pouco, pensar que se pode amar alguém assim, que não é nem está, que não veio nem virá. Digo, todavia, que sem perturbação se não vive. E que a maior possibilidade de alguma coisa é a falta de tudo. A um canto inocupável da casa verbal que sou, a beleza dela alimenta o olhar como um vaso bem cuidado. Ela corresponde a certos trechos de parede ordenados pela sabedoria estranha das mulheres: aquele retrato do avô entre a estampa inglesa do hipódromo e a reprodução do veleiro antárctico que nunca mais voltará nem de 1911 nem de aonde foi.

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