Sunday, April 18, 2010

Quatro Dias do meu Futuro Recente - III

Tondela, manhã de 15 de Abril de 2010

Flor especiosa da minha memória e da minha atenção, o amor às terras de Portugal faz-me bem. Não sei pô-lo de outra maneira: gosto desta porra de País. Há registos prediais, casas-de-pasto, baptistas, acácias, postos de turismo, quiosques, homens antigos cujo rosto repete o pergaminho do chão, pombas senhoris como figurinos franceses recortados de revistas salazarentas, táxis & taxistas, alfandegários, costureiras, assadores de frangos, azulejos do sécul’azul-XVII, distribuidores de pastelaria, confeiteiros graves como órgãos de igreja, igrejas, antenas de radiodifusão, técnicos instaladores de ar-condicionado, hermeneutas e hermenautas, ferradores, cavalos entrevistos da janela do Rápido das 4, audiências, corsários & flibusteiros, grainhas de uva nos interstícios das anfractuosidades, dentistas, cáries & corações, cardiologistas, barbeiros & papagaios, deuses fluviais, pardais, tondelenses, penamacorenses, caramulanos & scalabitanos, magistrados & magistrais, vacas azuis povoadoras de nuvens, cães muito amarelos e muito filósofos, relógios-de-sol & horas-de-sombra, as mais formosas mulheres do mundo, ínsuas & tangerineiras, rodapés de texto, turistas & puristas & juristas & epicuristas & arrivistas, narizes coxos e patas pingonas, pinga de catorze e meio, taças de badmington & de verdasco, soberanias dissipadas, pagelas dos padres Américo & Cruz, tomates do outro, o Inácio, gente chamada Manuel & gente chamada Maria, canções votivas dos rebuçados peitorais, Águas de Carvalhelhos, evangelistas do Caramelo de Badajoz & arautos do Torrão de Alicante, frequentadores de nespereiras, carrancas de chafariz, aipos & gaitas & sirigaitas, dias 6 de Novembro uma vez por ano, ossos em calabouços & tremoços em bouças, gente chamada Vasconcelos & gente chamada Lourosa, formandos & gente chamada Armando, Eustáquios & Samuéis & Ginásios Figueirenses & Camisolas TEBE,
(Meu Portugal inócuo e demorado,
minha terra de canas de milho,
minha serra de abelhas, meu vespeiro,
minha telúrica mãe-terra pobrezita…),
mel & cera, prospectos do LIDL de audiências, casaquinhos de caxemira rebordada a dragão dourado de chinês de Carnaval, fanecas fritas ao borralho em sertã de ferro por viúva também de ferro, estátuas verdes como fins de sonhos, cacos de milénios como de azulejos, bigodes engraxados a poalha de carvão, bichos-da-fruta & refilhíssimos-da-puta, lombos de serra em silhueta de mulher reclinada.

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