Friday, May 30, 2008

Quatro Jornais, três crónicas

1. Rosário Breve - 54

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ALTERN(E)ATIVAS

A cera dos ouvidos não é para ser tirada em público, muito menos com o cabo da colherinha da bica. É por isso que (tem tudo a ver) vos peroro esta semana sobre a necessidade de as casas de alterne serem fora-de-portas da cidade. Todo o alterne. De todas as cidades.
“Alterne” é o nome técnico hodierno da prostituição como consumo mínimo, gozo médio e despesa máxima. É, também, sinónimo de “lenocínio”, com sotaque conforme ao “acordo” (ou “açorda”) ortográfico(a).
A minha tese é esta: dentro da cidade, não. A prostituição, eufemizada embora pelo léxico (que nunca pela semântica), pode ser irreprimível. Pode. E é-o, de facto, há milénios sem conto. Mas pode ser reprimida, também: dentro da cidade, quero eu dizer. Façam a coisa em vivendas de pinhal, em sobrelojas de gasolineiras, em motéis psico-hitchcockianos: mas dentro da cidade, não.
Nem é pela salvaguarda moral das crianças.
Nem é pelo vão atiçar dos velhinhos.
Nem é pelo estremecido frenesim dos gatos.
Não.
É por isto: moro no centro histórico de um burgo muito dado, por fora, a êxtases clérico-pastorícios – mas, por dentro, é casa de alterne porta-sim-porta-também. Aqui é a minha casa. Ali é uma casa de alterne. Resultado: bum-bum de colunas de som até às seis da manhã, hora a que as catorze senhoras (todas esposas do mesmo Sr. Lenocínio da Silva) debandam arrotando em voz alta miríades de bolhinhas de espumante manhoso rumo a um pequeno-almoço de bifanas com minis pretas traçadas de refrigerante de guaraná para mata-saudádji.
Ora, a alternativa, minha, seria morar eu fora-de-portas. Mas isso não pode ser por causa do(s) preço(s) do gasóleo. Como eu não posso, têm de ser as meninas a poder.
Sim. Sim, porque triste não é haver alterne. Triste é não haver, p’ra mim, altern(e)ativa. Nem altern(e)ativa, nem colherinha de café.

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Contra os Canhões – 9

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BARCO (IM)POSSÍVEL


Se puder, não torno a meter-me num avião.
Se não puder, talvez seja bom sinal, coisa de me pagarem para ir a algum lado fazer alguma coisa irrelevante, como tudo o que faço.
Tenho cagaço de me render àquelas descomunais geringonças imitadoras de pássaros. Até hoje, só me aconteceu seis vezes – e este “só” é uma eternidade muito só. Custa-me muito, isso de me render às mãos dos deuses fardados que são o piloto e o navegador. Custa-me menos, é verdade, sofrer a graça algodoada das hospedeiras: casaria com todas e qualquer delas que me trouxessem, como trouxeram seis vezes, comida, bebidas e sorrisos da mais fina gaze labial. Casaria, sim, apesar de suspeitar de cornos internacionais em todos os aeroportos do mundo delas.
Um dia destes, se calhar, tenho de ir ao Brasil. Se puder, vou de barco. Não devo poder. Sem ser nas palavras, viajo muito pouco. Cada vez mais, viajo o menos que posso. Tenho uma mulher e uma gata em casa, não preciso de quase mais nada. Viajo para ver as minhas filhas, uma de cada mulher anterior, uma de cada vez, de vez em quando. Quando vou ver a minha Mãe, é sempre como apanhar o avião do Tempo. Ela nasceu em 1924, quatro séculos exactos depois de Camões, Fernando Pessoa tinha ainda 11 anos para cumprir a pena afinal não perpétua de viver.
Digo-vos a verdade: prefiro voar em casa sobrevoando datas: 1900 – morte do Eça; 1933 – nascimento do Ruy Belo; 1917 – nascimento do meu Pai e triunfo dos Sovietes; 1944 – em Junho, o Dia D; 1945 – em Agosto (Hiroshima, Nagasaki), as Horas H; 1993 e 2000; as minhas filhas nascem-me: e em 2005, as minhas mulher e gata.
No meio, entristeço civilizadamente em cafés. Vou-me exilando da infância, cuja vigorosa pureza tento em vão resgatar em versos e crónicas de homem aterrado até por etimologia, peão, podógrafo e rasante.
A verdade é que só escrevi até hoje uma coisa de jeito: foi quando me assaltou a evidência de, em vida, já termos morrido muitas vezes. Como assim? Assim: morremos já todos em todos os sítios onde estivemos e a que não voltaremos.
Se puder, aproveitarei o Brasil para renascer, no caso de não poder lá não ir, a não ser que de barco.

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Crónica Mundial – 4 e Bairro Nosso – 2

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CRÓNICA DECRESCENTE

Sou finalmente, muito a sério, parte de uma maioria.
Toda a vida tenho sido minoritário. Mas agora, finalmente, não. Não sou. Finalmente. Agora, também já sou português de 3ª, cidadão de 2ª e queixinhas de 1ª.
Queixo-me a quase todos de quase tudo: do acne tardio que me retarda o barbear e me alonga o coçar das costas, das obscenidades-SMS que ouço nas pastelarias, da vulgaríssima vulgata da ignorância, da televisão em geral e dos canais em particular, das velhas que querem parecer novas à força e à custa de baldadas de creme e de talochadas de rímel, dos jovens que não-lêem-não-sabem-nem-querem-saber, dos polícias que amodorram 30 anos uma pré-reforma para um futuro ilusório de algarve-time-sharing ou cancro-sem-mais-time, das pombas do Rossio de Viseu que me tratam por tu quando lhes levo trinca de arroz mas por você quando é só pão que lhes posso dar.
A vida é tão parecida com esta crónica, por outro e por este lados, que me faz medo não me parecer maior mas maioritário. Chove muito, nesta primavera falsa de fim de maio, faz sol um bocadito enquanto faz, nubla-se tudo: regem-se as maiorias, sempre e aliás, pelo tempo que não posso transformar.
De qualquer modo, isto deixo dito: pertenço, finalmente, a uma insonsa (e sonsa) maioria que é o sal da terra, o lírio do campo, a bandeirinha republicana à monárquica janela, o desemprego maciço e massivo, o custo da vida acrescido ao custo de viver.
O preço de viver só implica a tal minha (nossa) maioria: todos somos sobreviventes, até notícia em contrário. Mas nem isso nos tornará, afinal menores e minoritários, notícia: pois que, de verdade e em verdade, somos todos de terceira (3ª). E de segunda (2ª). De primeira, hum, julgo que não. Nunca mais, como sempre.

1 comment:

Anonymous said...

Olha lá, ó Abrunheiro!, quando é que começas a cronicar de cotio num jornal que eu encontre aqui a deslado? Já é mais que tempo, irra!

Britannicus