Thursday, May 08, 2008

Uma Notícia e Três Crónicas



Alice Campos, autora de belíssima e fortíssima poesia (ver link aqui no Canil), vai publicar o seu primeiro livro em papel. Chama-se “o ciclo menstrual da noite”. O lançamento é no Porto: Casa Museu Abel Salazar, sábado, 10 de Maio de 2008, pelas 16 horas. Quem puder, não perca.

Seguem-se as três crónicas (três, porque passei a colaborar também no viseense Jornal do Centro).

1. Rosário Breve – 51
(O Ribatejo, http://www.oribatejo.pt/)


QUAL É A TUA, HOMEO?


Esta semana, vou falar-vos de homeopatia.
Pior do que a homeopatia, é ficar pa’ tia. Suponho que é o que vai suceder a Manuela Ferreira Leite, se ela tiver o azar de vencer as directas internas da Laranja. Calculem o número de “sobrinhos”, rezingões uns, melífluos outros, bajuladores todos… Não lhe invejo o escrutínio. Nem a ela, nem ao próximo treinador do Benfica. A não ser que o próximo treinador do Benfica seja ela.
Bem, mas estou aqui para falar-vos de homeopatia. A homeopatia é uma ciência brasileira que trata do pulgão da couve com pinças astrológicas derivádófactas do Leblon. Aprendi isto naquele programa do Jorge Gabriel que tem um pianista muito engraçado que nunca me faz rir nem assim este bocadinho. Mas pior do que isto, só se Manuela Ferreira Leite fosse a pianista do Jorge Gabriel. Estou daqui a ver a cena: Manuela ao piano, Santana aos ferrinhos, Rio no bombo, Jardim como bombo e Patinha Antão a explicar sozinho a ninguém o que é a homeopatia.
A homeopatia, diria Patinha, é a ciência que quase consegue explicar como é que Alberto João Jardim, enfim. De uma coisa estou certo: neste preciso ponto, Patinha seria contrariado por qualquer outro dos 282 candidatos à liderança da Laranja, até porque, enfim, mas francamente.
Nisto, entra o Brasil a ensinar-nos que homeopatia se-debia-de escrever sem “h”, “i” em vez do “e” (porque é complicado para as crianças e para eles, brasileiros) e “manuela” em vez de “patia”, o que Manuela agradeceria.
Para a semana, tenciono falar-vos de mialgia. De mialgia ou de ptiríase versicolor, moléstia da pele que debe-de ser atacada com pomada à base de sabão cor-de-laranja com largo espectro de acção fungicida.
Disso ou da vida.



Crónica Mundial – 1
(Jornal do Centro, http://www.jornaldocentro.pt/)


TEMPO, VISEU E MUNDO


Ela era Augusta. Ele foi Augusto. Ela era Cruz. Ele, Hilário. Augusta Cruz. Augusto Hilário. Ela só viveu 32 anos. Ele também só viveu 32. Ela nasceu cinco anos depois dele. Ele morreu cinco anos antes dela. Augusta Cruz: 1869-1901. Augusto Hilário: 1864-1896. Ela cantou. Ele cantou.
Agora ela e ele são duas ruas de Viseu. Perto uma da outra, uma do outro. Atiram à memória futura seus nomes antes passados. Seus nomes magoados pela breve vida e pela duradoura morte. Ambas as ruas de seus nomes deitam esquina à formosa Praça de D. Duarte, no exacto coração histórico da mui formosa, também, cidade de Viseu. Sim, de D. Duarte, que El-Rei foi de gente como nós. D. Duarte, que teve o desaforo de viver mais 15 anos do que Augusta e do que Augusto: 1391-1438. E de quem, que conste, não consta memória de haver cantado.
Escrevo-vos de mundial modo a partir de homónimo bar, perto de Duarte, de Augusta e de Augusto. Vida e destino (que nem sempre são aquilo que dela e dele se diz) me tornaram, conimbricense que era, viseense agora. Vivo aqui. Trabalho a partir de aqui. E Viseu se me tornou o mais recente dos meus amores antigos. Sim. Tornou. Decerto porque de aqui perto era, foi e será o meu professor primário, na mesma Coimbra que o Hilário cantou como mais ninguém. Chamou-se Elias Rodrigues Faro. Dele vos farei crónica em breve.
Entretanto, o tempo é de convidar-vos para um pouco de sol: o mesmo sol que, quando quer, faz da Praça de D. Duarte, aqui junto à Sé, um hino de luz de ouro a essa etérea pedra que dá pelo nome de Tempo. O Tempo que, escrito em minúsculas, é o tempo de Duarte, de Augusta e de Augusto.
Deles e nosso, em Viseu como no resto, no rasto e no rosto do mundo.



Contra os Canhões – 6
(Região de Leiria, http://www.regiaodeleiria.pt/)
DAREM-NOS O ARROZ

A república do mundo volveu-se uma monarquia de idiotas. Isto não é uma opinião: é uma verificação. Assistamos, de longe, ao preço do pão. Do arroz. Do petróleo que incha de direitos humanos (desde que “direitos” e “humanos” rimem com “norte-americanos”). Agora, os tesos que não têm petróleo mas têm arroz – esses decidiram “bushar”, eles também, o mundo. Nada conta que este mundo seja um pobre mundo. Nada conta que este seja um mundo de pobres à força.
Não: esta não é mais uma refutação às teses de Feuerbach; não, se Hitler tivesse ganho a guerra (como Franco ganhou e como Salazar, fraquito de pernas, não teve sequer de disputar), este mundo não seria melhor para as pessoas. Nem para as pessoas nem para os animais.
Este mundo é feito de propósito para cantigas de amigo e para amigos cantores. É ligar a telé: entre acnes madeirenses que triunfam na liga inglesa e gorduras circenses que escabriolam na Madeira, o resto é prós-e-contras de exibição, por assim dizer, madeirense. É o preço do arroz, que em não suaves prestações vamos pagando enquanto não tivermos têvêcabo.
O arroz tornou-se-nos mais precário do que a mirada, de fora, sapateira de aquário marisqueiro. Enquanto não empenharmos as próprias almas, glândulas e retinas a nórdicos ou austro-húngaros violadores de próprias-filhas, não vamos nem iremos lá.
É este o mundo dos palácios de gelo, dos hipernadas, dos macromicros, do TGV e do arroz. É de facto e definitivamente o país (o mundo) dos idiotas: dos que mandam e dos que são mandados. Os que vendem o arroz a preço de gasóleo e os que os nos dão o arroz com moral gasolineira.
É o mundo (o país) a que nos deixámos reduzir. Porque Hitler, porque o Vietcong, porque o 25 de Abril, porque o arroz.
Ao contrário de vós, resguardei pacotes de massa tipo macarrão em casa. Estou safo por duas semanas: a mim, só me dá o arroz quem quer.


1 comment:

Afectos said...

est un obligé d’écrire qui sait écrire sei que com (pequenas pausas) o que é humano. boa continuação.