Sunday, May 11, 2008

DÁ MUITO TRABALHO TER DIAS

Nos dias se não repetem os dias,
que um único mesmo todos são,
por mais que corram, como correm, a fio,
dias e águas e trabalhos em um mesmo só rio.

Conforme o dia nos paramenta a tristeza ou a alegria.

Viseu, Café Avenida, manhã de 9 de Maio de 2008



TÁBUA

I. ÁLEA DE PEREIRAS-DE-INVERNO
Viseu, Café Paris, tarde de 5 de Maio de 2008

II. ESTA NOITE DORMI NA FLORESTA
Viseu, casa e Café Avenida, manhã de domingo, 4 de Maio de 2008

III. (ESCRE)VER ISTO UMA VEZ
Viseu, Café Avenida, tarde de 2 de Maio de 2008

IV. LERDA CARCAÇA DE FRIGORÍFICO
Viseu, esplanada do Restaurante Colmeia, tarde de 4 de Maio de 2008

V. UM HOMEM ME SAUDOU DE CAMISOLA VERDE
Viseu, Restaurante Colmeia, tarde de 7 de Maio de 2008

VI. AGORA COMO SEMPRE
Viseu, Café O Bárbaro, tarde de 10 de Maio de 2008

VII. UM DIA, DUAS
Viseu, Café Mundial, noite de 26 de Abril de 2008

VIII. ALGUMAS CORES
Viseu, Café Paris, tarde de 5 de Maio de 2008


******

I. ÁLEA DE PEREIRAS-DE-INVERNO
Viseu, Café Paris, tarde de 5 de Maio de 2008

I

Tenho o coração cheio de coisas boas e de ruins coisas.
Uma das boas é certa quinta de moagem.
Entrava-se por uma álea de pereiras-de-inverno.
Homens e animais corriam-lhes as sombras
filmadas de sol folheado a farrapos de seda.
Sou hoje uma besta trágica, mas ali fui uma criança feliz
– e, como todas, rápida.
Disseram-me há meses que uns cabrões quaisquer
de uma putinstituição qualquer vão abrasar aquilo tudo.
Mas daquilo não podem os inumeráveis pulhas do numerário
destruir-me a memória viva e vivida e vivente.
A seguir à casa do caseiro, o pátio onde dormia a cadela Lira,
que líquida nos mirava como gente,
a adega à esquerda, os fornos da broa em frente,
a moagem sob a casa do caseiro.
O jardim de duras, elásticas sebes
qu’inda hoje comparo aos ossos das mulheres.
Além-jardim, a casa senhorial, que percorri
como tantos anos depois os sanatórios desertos
do Caramulo. Encontrei lá uma poupa morta.
Tinha ela entrado por quebrado vidro que não reencontrou,
como o não reencontrarei eu, um dia.
Morreu de fome, ela, não ainda eu.
Eu era um menino aprendendo a não ser feliz para sempre:
tive esse cadáver belíssimo nas mãos, devolvi-o
à terra no jardim, perto da água do poço
sublimado pela torre férrea do catavento,
cuja rosa cardial me ensinou que em todas as direcções
me perderia,

como perdi.

II

Os olhos tristes deste homem entristecem até
a alegria gratuita do sol.
Não me parece homem que chore.
Parece-me um homem descuidado de fincar no chão
os pés de homem que no escuro útero esquecido
da mãe calçou.
É de uma formosa fealdade, o rosto
pergaminhado de sonhos lavrados.
Molharam-me, os olhos deste homem triste
que pelas ruas balbucia palavras para ninguém
como certas pessoas que lêem com a boca o jornal.
Estava eu de volta às pereiras-de-inverno
quando o vi olhar-me sem me ver,
como a ninguém vê do alto rastejante, baixo cume,
de sua aguada tristez’azul.
Foi num contente café aonde venho, eu também,
para ser suavemente infeliz,
estabelecimento que dá pelo nome de Café Paris.
Aqui afio incontavelmente os meus lápis
comprados nos chineses a um euro/dez unidades,
aqui leio e releio o Ruy Belo, meu mais sobrevivo
morto-vivo dos poetas, aqui bebo a minha mini espirituosa,
aqui recupero da infância mais dela quão mais dela
me faz o tempo distância.
E aqui sei sozinho que não é com a vida
que a felicidade tem conta-corrente,
mas com a língua portuguesa.
Já vi este homem triste pelas ruas que o sol cartografa.
Hoje vo-lo deixo escrito.
Hoje vo-lo agonizo, aflito.

É de olho azul,
como todo o mar de todo o sul
que nem ele
nem nós navegamos já mais.

(Que sonhos viverá este ex-bebé de alguém?
Que idade tem?
Que idade a tem a tristeza azul?)

Enfarpelado de calça com mais dobra que barriga de parida,
calçado de sapato coxo, um pé, de coxa chinela o outro,
camisa tatuada de suor frio,
o cabelo ondulando como planta de rio,
a breve boca abreviada pelo breviário deletério,
o pobre porte nobre e sério,
a corda de embrulho em vez de cinto
e uma aguda garganta de caroço de maçã
onde Adão peca ainda o broche feito à serpente.

Estarrecem-me
(estrelam-me)
as mãos dele:
a elas, não a tristeza domina, antes se submete,
vencidas pela botânica invencível das cinco pontas,
as unhas miraculosamente limpas como
escamas de peixe
ou
rostos de cavalos.

Ele já aqui não está nem é, mas eu o sou,
por isso naturalmente o vejo e, gente, vo-lo dou.

É um desses cristos pobres que em vão nos ecumenizam as ruas,
os cafés, o nosso exílio das nossas infâncias.
Quanta beleza indefesa, a da miséria!
Quão mísera, a beleza!

Gostaria de poder contratá-lo para, assim vestido,
assim azul e triste assim, apresentar uma noite de gala,
cuja gala fosse ele, ele a dá-la.
Uma gala de uma putinstituição qualquer
de uns inumeráveis numerários cabrões quaisquer,
num inverno de álea de pereiras
azuis.

III

Nenhum amor é tanto quanto outro amor
não comparado a outro qualquer amor.
Aquele homem, que ao telemóvel comenta
o desumanizante disparo do preço mundial do arroz,
ama decerto tão dele as filhas quão eu as minhas,
nem eu sei dizer se ele as tem, teve ou vai ter.
E eu? Eu as tive? Tê-las-ei tido eu?
Deixámo-nos entregar ao amor e aos filhos-da-puta
do preço do arroz, do preço do amor.
E, mais do que o arroz, atroz é não sobrar,
dos campos-de-água onde fomos as filhas plantar,
qualquer amor, nem número qualquer,
de mulher, a quem ligar.

IV

(Os ombros servem de cabide ao tempo,
esse casaco de corvos.
Estiola o panasco no musgoso monte,
fossiliza em pedra-de-Ançã a lenta lesma.
Cada coração s’eleva a geodésico baixo cume
na nem já sequer sentimental topografia.)

Estiola o cabelo na musgosa cabeça,
cujas fontes temporãs não refrescam já manhãs.
E da pulsante barriga os imos
marulham leveduras, borborigmos.

Sintamos o gás das ruas p’ra sempr’oitocentistas.
Dos tísicos, a rosa de sangue ambulatória.
Decape-se a cada campa o tempo e a história.
Descelebre-se do conquistador as desconquistas.

Farfalham os plátanos pálida imitação de oliveiras.
Negreja a igreja, caia-se o corvo.
Nada é tão velho que não tenha sido novo.
Acidulam os limoeiros imitações de laranjeiras.

Hoje há petingas, gélidos jarros de branco vinho.
Os ombros servem de cabide ao tempo.
Vou já atender-vos, peço um momento,
que só ’stou ’qui eu – e estou sozinho.

V

Hei-de de novo ser novo por um momento
atirar pedras longe ao perto das oliveiras
que os mortos da minha vida varejam ’inda
açular os cães à doçura do sono da sesta
e, silvestre santo, dormir em secreta floresta.

Das mamárias glândulas odres de boas
só meus olhos a sós darão notícia
por essas coimbras viseus lisboas
já sem dulcificada delícia.

Hei-de pagar e receber cada minuto da minha vida
que menos é do que língua:
que, como vós, eu sou voz, e distingo-a
da voz de vós, nem sempre havid’ouvida.

Voltarei a ser novo novamente: tenho só de morrer.
Também tenho clarões de versos diversos
e pleno o coração de ruins coisas e de coisas boas.
E de coimbras e de viseus e de lisboas.

VI

A beldade da minha vida é ter da tristeza a beleza.
É achar bonita a arqueocartografia de cada dia.
Também é a mulher (a minha, a vossa) que à chuva aumenta o que chove.
É o resto zero menos nada e fora nove. Ou novo.

É ainda a rapariga que nos entardece de amor
até a genitália não genial entre portugal e a itália.
No fundo é a língua.
À flor é a língua.

Tenho uma vida tão bonita como flores não arranjadas.
Se não fora por coisas, diri’até não manuseadas.
Olhai comigo o esplendor tristíssimo das lojas que acabam:
como eu ficam de escritos à janela.
Comigo olhai as dinastias de sapateiros ourives louceiros
do nosso portugalito de hipermerceeiros
e do prof-açor salazarilhafre.

A vitalidade da minha beleza é ter chamado
Putas!
às putas
mesmo que fossem homens na televisão.

Mas enfim
isto de poetas
é sermos poetas todos
mas nem todos
sido termos
de facto
novos.

VII

Que quantas como estão escritas tantas coisas
no rosto do homem pobre de olhos azuis?
Estou parado como a Sé no sítio da cidade.
As pessoas domingam-me de borla
suas segundas-feiras.
Agradeço-nos sempre profunda comovida
mente
sempre.

Minta meu senhor minta.
Fale-me a seguir de sua Mãe
de como ela o deu
ao azul’omem de trist’olhos.

VIII

Esse estranho sentimento da honra
hora a hora
honra a honra
que a si mesmo e a si mesma se vilipendia
se o sol se fez crisol do que chovia.

No oitavo ano
a minha Mãe tinha sempre
azeitonas e uma pastilha efervescente de vitamina C
para o menino
quando o menino
lhe voltava da escola
à vida.
Seriam trinta e três minutos depois da uma da tarde.
O menino aprendia
a crisolar em sol a água que havia.

Um dia destes perco a minha Mãe
e mais nenhum ano me será oitavo
mas derradeiro e primeiro sempre.

IX

A gente explora a praia fresca dos lençóis ao fundo da cama.
Quem o fez nunca, sozinho no verão sozinho do sono?
Um dia, faz-se outono – e é o mundo:
e frios ficam os pés no fundo do outono.

A gente faz café em casa p’ra toda a gente.
Toda a gente somos dois, um mais ninguém.
Tentamos fazer café como no-lo fazia a mãe
que temos mas não temos, como tod’a gente.

A gente ama-se lentamente com a pressa da vida.
Temos cacarecos de cozinha, que dependuramos.
A gente somos assim, a gente s’amamos.
São, amor, peras-de-inverno: álea, avenida, são a vida.

******

II. ESTA NOITE DORMI NA FLORESTA
Viseu, casa e Café Avenida, manhã de domingo, 4 de Maio de 2008

I

Esta noite dormi na floresta como um santo silvestre.
Rumor de água de invisível rio correu-me as veias num tropel cristalino.
Os pássaros tocavam, altos, seus pífaros de vidro.
Na floresta os mortos podem usar seus nomes vivos.
O adormecido é o mais fiel dos crentes: eu cri.

Estou desperto na cidade, não preciso de usar o nome.
Há um carnaval de gravatas qualquer na praça do município.
Tenho livros em casa que esperam.
Mulheres jovens antiguecem de filhos pela mão.
Não há desejo nem loucura, apenas resignação e persignação.

Entre mim e aquela árvore, está a vida.
Há prédios em torno, mas não contam.
Placas apontam o dedo a nomes de cidades improváveis.
Improváveis como a minha vida, que nelas vive
menos do que estive.
A rotunda roda como um carrossel de miniaturas adultas automobilizadas.
Uma massa de nuvens betuma o vidro da manhã.

Tão mais as mitologias individuais são comezinhas,
tanta mais é sua verdade humana, creio.
E muito tenho eu crido sempre que adormecido.
Creio na água, nas canecas de faiança, nas andorinhas
de barro crucificadas em pleno voo de cal portuguesa.

Agora me ergo, agora abandono
da morte a ténue imitação,
o sono.

Onde estiver a vida, terei ante mim uma árvore.
Não me cegará nem chegará a cidade,
ela sim não ténue imitação
da floresta
com mar detrás
e um rio través.

Nem silvestre nem santo sou.
Nem tu és.

II


É uma casa há muito desertada.
Há um jardim trancado a ferro de portão.
Há muito secou a flor da água do bebedouro,
que um cego anjo de pedra guarda para nada.

Faço de anjo.

Na devastidão do tempo,
casa, jardim, fonte e portão existem
para além dos ex-viventes hoje jacentes
em outro jardim, por outros anjos guardados.

Só mesma é a pedra, lá onde eles.

III

Algumas vidas tornam-se sucessivos ontens
inconsequentes todos os dias.
Será porque a felicidade partilha com a infância
a essência pretérita, não sei.

Sei que aos domingos (o mesmo único domingo
de todos os domingos) isso se me evidencia
com uma clareza que roça a claridade do dia.

Ontem ou hoje, morra o poema, viva a poesia.

IV

Já a manhã entardeceu para ser almoço.
Sabe bem procurar uma sombra, uma cerveja fria.
Uma aragem assobia refrigerante
ante a tarde que vem e tem a noite por diante.

Sabe bem por vezes a vida, desde que, a um canto,
um canto se lhe torne possível e audível.
Das bocas das crianças bolas de goma imitam
as de sabão de antanhantigamente.

Para se ser feliz, só é preciso não se ser gente.

V

Tenho olhos para ler
tenho olhos para ver.

Não os usei,
’inda não,
para viver.

VI

Contem que ontem contém
tudo o que amanhã tem.

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III. (ESCRE)VER ISTO UMA VEZ
Viseu, Café Avenida, tarde de 2 de Maio de 2008

I

Toma atenção
só vou escrever isto uma vez:

a palavra Mar
inclui a pintura a água da solidão do nascimento.

Também inclui o reverso exacto disso
mas podes sempre ser optimista
podes sempre fingir que não vês.

As crianças nascem sós
e dizem
vamos ao mar.

Chegam lá
deparam-se com a evidência exacta do reverso
põem-se a a coleccionar conchas e casamentos
muito distraídas
como se fosse nada com elas

e deveras

todo o nada é com elas.

Toma atenção.

II

Suave me traz o vento a mão transparente
(aparente mão de gente)
à face.

Dulcíssima carícia desumana.

De irmã mão ou mãe parece provinda.

É uma desumaníssima doce mão linda.

III

Nesta rua uma mulher velha costuma bater em outra mulher velha.
Filha e mãe.
A mais velha bebe.
A mais nova também.

IV

A solidão do nascimento passeia pelas praias
como envelhecida rapariga não casada.
Costumo ir à praia quando fecho os olhos na cama.
Quando enterro na cama o olhar
costumo nascer
ao pé do mar.

V

Sempre trouxe as minhas florestas para dentro dos cafés.
Já paguei bebidas a milhares de faunos.
Os pássaros das minhas florestas enchem-me os cafés
de caca de versos.
Gnomos e elfos, reformados de boné, mulheres
de cordões de varizes atados às tíbias:
tudo é florestal nos meus cafés.

E tu?
Diz-me que florestas trazes.
Não me digas quem és.

VI

Vim dos lados da vida
e ainda não encontrei a saída.

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IV. LERDA CARCAÇA DE FRIGORÍFICO
Viseu, esplanada do Restaurante Colmeia, tarde de 4 de Maio de 2008

I

Não deterás o tempo
mas deter-te-ás a tempo.
Tens tempo, não o deténs.
Assim é, foi, será.
Mas também ninguém
te deterá nem
terá.

II

Pôs-se a frondosa tarde, ovo de si mesma, clara.
É doce a brisa, um pouco fria, mas doce.
Perante a pedra pode antecipar-se o sono.
Perante o sono, pode dominicar-se a calma.

Gente há que navega o azul mais coralino.
Os peixes verdes transitam, luzes rápidas, fundas.
Essas vidas navegam a memória antes da memória.
São actuais, persistem, são senhoras do ir.

São senhoras do não-retorno.
Pôs-se doce a tarde , temos tempo.
Não navegaremos mas gare e neve
nos não deterão.

Há a questão da Língua.
O involuntário burguês a Ela sujeito
pode e até deve circumnavegar esse marulho dentro.
Dominique-se ele, desde que, claro, frondosamente.

III

Aos nossos mais fiéis fantasmas
mais fiéis somos.
Trata-se de uma lealdade só corruptível
por acção de degenerescência das sinapses.
O que mais fundo plantado foi,
mais alto cresce,
de mais alto cai.

IV

Um porto sei que existe desertado.
De abandonados barcos cresce na sangria poente.
Toleram as águas, ’inda, porto e barcos.
O conjunto mui parece o antigamente.

Inócuos óleos iridescem ’inda a flor da tona.
Tainhas boquinham tainhinhas nutrientes:
a canibal memória sobe às gentes
que invisíveis tornam desertos portos.

V

Não espero nem o autocarro nem a vida.
Se me sento na avenida,
é precisamente porque não espero.

VI

Espero o que não revirá nem reverei:
a tarde centrada pelo pessegueiro
junto ao tanque dos patos.

Atiravam electrodomésticos para trás do muro,
onde a frondosa, como esta tarde, silveira
acolhia a mais lerda carcaça de frigorífico
e a mais desdentada torradeira.

Espero não ter de esperar o que não vai chegar
– nem bastar, mesmo se chegar.

VII

Gosto da pequena eternidade das rosas.
Gosto de por ela ser desprezado.
Tenho eterno tempo p’ra coisas maravilhosas.
Mas não detenho o tempo ao mur’ atirado.

VIII

Quand’onde foi que se estragou
uma alegria que nem minha era,
pois que nas crianças sempre entrou
p’la razão imediata da primavera?

Ond’adulto me adulterei e porquê?
Quem não lê/não sabe/não vê.
Quando perdi porquê quem ond’era?
É hoje mai’outono, inverno é e era.

IX

Passou o tempo das botijas de gás
que os pais compravam contra o frio e a fome.
Uma mercearia havia ao cabo da rua.
Tinham botijas de gás.
Era pesado comprá-las, trazê-las.
Era lixado ser gaibéu em casa própria.
É lixado fazer um poema-redol cheio de pisca-olhos
à portuguesidade, aliás reles, dos nossos dias.

Mas havia gás em todas as mercearias.

X

Ito, ito, ando um bocadito cansadito de versos.
A porra da poesia é ter algo a dizer sobre nada
a ninguém.
Sobram, naturalmente, o Pai e a Mãe.
Mais esses, quatro datas.

XI

Undécima sílaba um pássaro, num sopro,
usou p’ra me dizer que se faz tarde.
Cinzelo o verso, sei, d’uso de escopro,
que martela em vão sílaba verde.

É numa esplanada. A transluz,
ardendo de veia verde vegetal,
permite que ainda em Portugal
se ouça passaritos de som & luz.

É o mesmo domingo.
Ouve pássaros na esplanada para nada.

XII

O tempo das casas é diferente do das pessoas.
Eu não compreendo isso.
Eu acho que as pessoas são as casas.
As casas não acham isso.
As casas deixam de ter pessoas e continuam
a ser pessoas – e até casas.
As casas sem pessoas insistem no ser as
pessoas que foram.
Eu não compreendo as pessoas mas eu
compreendo as casas.
Ainda hoje fiz de anjo fora de uma casa.

XIII

Há de facto, excepto viver, tanto que nos pode acontecer.
A ontem ser.
A em não ser.
A não me ser.

Viva a Língua Portuguesa!
Viva viva viva!

E não morra.

XIV

A questão da Segurança Social ’inda não foi
bem explicada pelos jornais.
Eu trabalhei alguns anos em jornais
– e portanto sei que a questão, por exemplo,
da Segurança Social não é para
explicar.

Quem é social, não pode segurar-se.
O mais que pode, é publicar-se.

A questão não é os que estão.
É quem é.

Portanto, a questão é.

XV

As rosas também nascem nuas
e ninguém mal delas diz.

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V. UM HOMEM ME SAUDOU DE CAMISOLA VERDE
Viseu, Restaurante Colmeia, tarde de 7 de Maio de 2008

I

Vivemos os nossos mortos com a unção extrema devida.
Não andamos aqui para enganar ninguém.
A chuva melhora-nos o amor.
Ind’ora mesmo um homem me saudou de camisola verde.
Uma delicadeza de pássaro usou para me dar a boa-tarde.
Deu-me a boa-tarde (mas chove) de dentro da sua loucura.
É um louco de rua. Conheço-o menos pela camisola verde
que pelo extravio de ave barbada esgravatando o lixo
e o meu coração.
Vivemos os nossos vivos
etc.

II

Somos a delicada nocturna traça de poeirenta asa
ferida de argentino pó de estrelas.
Somos tão-só tão pouca gente nós adentro.
O que nos dizemos, vendo chover, chove também.
E nos parques de estacionamento cheira a guardado frio
férreo – como nossos corações,
nossas camisolas outrora verdes.

III

Há um favor no respirar que nos esquecemos de saudar
cada instantexpirinspira.
Este favor de estar vivo perante a morte
perante os mortos
os amados mortos da nossa vida
que nos transinspiram
cada instante.
Tão pouco nada nunca sabemos do que ser
seremos.
Talvez amados mortos quando nós.

Falta-me-nos o ar.

IV

Recado no-vo-lo dou agora da madura senhora
que da viola curva as mesmas ânforas ancas à cintura:
casaquinho verde apessoado lhe cinge busto e costas,
a ampla nalgação firme e quase breve sob ganga.
Rica senhora.
Mora numa pensão aqui perto.
Vejo-a muito passar, muita para mim, uma só.
Deve trabalhar em rendilhada retrosaria
ou assim.
Mas não é senhora para mim.

V

Com a ponta da língua toca, podendo, a própria Língua.

VI

Completo amanhã uma redonda e capicua data de anos.
Sou o terceiro sempre a chegar a esta triste festa.
Antes que eu fora e estivesse, foram e estiveram meus pais.
Faço 44 anos: sou já mais velho
do que os homens grandes de quando
eu era menino.
Estranha coisa, ter sido menino, ter vindo de um amor
fora de nós para que nós
fôramos.

VII

As nossas mulheres são países que se deitam connosco
menos ao mar.
Sob a frígida Lua, as nossas mulheres lunam
seus sóis tão particulares delas, suas ínfimas contas,
suas mercearias nutrientes, seus delas reservados
homens quase nós.
As nossas mulheres exercem a fala sem usar a voz.
Receio por vezes que nem homens precisem de nós.
As nossas mulheres são todas nossa mãe
mas são também
todas as mulheres que na rua passam além de nós.
Nós somos os cigarrilhas-creme, os casacos-dantílope,
os botas-pretas, os porta-chaves-bmw-em-caso-toyota.
Cada um de nós é e faz de idiota.
Nenhuma de nossas mulheres é menos
do que uma fonte luminosa.

Em vão batemos numa rosa.

VIII

Toca dentro de mim minha usança de joalharias.
Tange meus gázeos cortinados de ama masculina.
Eu tenho noites-te, mas te tenho dias.
Geada frecha albas de rosimenina.

Vem um bocadinho aqui dentro à tradição.
Ist’é séc’lo XXI, mas finge um pouco
que tem crestomatia e leixação
de quem límpida te larga – e a mim, rouco.

Voz a quem (nem adentro) mulherismos.
Nem passagens, sequer, ganga-mulher.
Voz de laticoisaparabismos.
Voz que eu nem m’atrevo sequer.

Toca dentro de mim a mais suave
vilegiatura crepúscula-condição.
Que tu se vires gato caçando ave,
conta-me com os versos, que eu sou cão.

IX

Era uma vez um fim de tarde, as pessoas iam.
Iam, não – eram levadas, não no sabiam.
Era o tempo da desformatura, o tempo das laranjeiras
em que dois minutos bastam p’ra vidas inteiras.

Era uma voz tocando sinitos de mil pratas.
Sinitos campamelados em quartos de meninas.
Fora, até a aragem cheirava a ar de tangerinas.
Assim acim’a Lua iluminava latas.

Era uma vez.
Vem uma voz.
Trabalha dentro.
Faz a couve por dentro, chama-lhe rosa,
como o coração te dá por fora,

a verde camisola,
o casaquito verde.

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VI. AGORA COMO SEMPRE
Viseu, Café O Bárbaro, tarde de 10 de Maio de 2008

Nos múltiplos beirais de pedra os muitos pombos
preparam a noite – engendram-na,
como foram fechados anjos de chumbo.
Por mim, que mercurialmente ambulo, reconstruo
com palavras o que se deixa destruir conforme a natureza,
a começar pela reconstrução.

Todo o sábado o sol foi néon, um vento frio
encolheu quem passava – todos passamos,
a todos nos encolheram eles, vento e néon.
A pé pela cidade, planeio outras viagens a pé
a outros cantos de Portugal, do qual
a principal pedestre viagem é ter aqui nascido para aqui
morrer.

Agora como sempre anoitece como para sempre.
A sopa de quem tem sopa ferve já nos lares de quem
lar tem.
O vento desceu seus índices de produção, o frio não.
Agora os candeeiros postam a imitação do sol,
os derradeiros gatos tintadachinam as vielas,
o comércio mínimo bruxuleia de velas,
duas ou três, não mais,
os derradeiros pobres recolhem aos beirais.

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VII. UM DIA, DUAS
Viseu, Café Mundial, noite de 26 de Abril de 2008

I

Não todos nós, mas muitos alguns de nós
temos e levamos ao ombro,
geralmente o esquerdo,
um pássaro com cara de iguana.
Nem todos estamos,
às vezes somo-lo apenas,
tristes,
nem todos sabemos porquê.

Pode ser o velho hábito de o ser
nem sempre e nem todos
o hábito de o ser torna-se maneira de ser
facto sobremaneira bem aproveitado
pelo pássaro pela iguana.

Conheço-nos alguns
pulsa-nos o peito nas costas
mania talvez do coração
que olha o passado futuro
a coluna vertebral sobe-nos à garganta
crava-nos na laringe
a vértebra chamada atlas
e a vértebra chamada axe
só nos não crava as outras trinta e uma
porque não é preciso.

Não somos todos assim
nem todos assim estamos.
Alguns morremos
outros também.

II

Sábado à noite num certo café
numa certa cidade de certa província de certo país
sou um incerto homem.

III

Nem tudo dói
longe disso
perto disto.

IV

Um dia não olharei.
As coisas as cidades a montanha o mar seguirão
sendo olhadas.

Nascemos
dizem-nos que o mundo precisa de nós
para ser mundo para ser famoso
quando afinal
nasçamos ou não
o mundo é mais público do que uma mulher
de avenida
uma mulher
por assim dizer
da vida.

Um dia não verei
o pequeno comércio
os lenços da nenhuma sorte grande dos cauteleiros
as mulheres-sinaleiras de luvas brancas
como se tivessem metido as mãos em cal
as revoadas de pombas ao pão que pude
as velhinhas autocarretando queixinhas de saúde
os poetas enrolando cigarros sem filtro
e filtros sem poesia
e poesia sem lume
como a minha
naturalmente
como a que posso.

Um dia não voltarei
nem ao que fui nem ao que sei
desconhecerei o rumo o retorno
serei finalmente um pássaro embranquecido
uma cera parecida com o meu Pai
com o Pai dele com a ala de pais
que deixaram um dia
de olhar
de ver
de voltar
quando deixaram de ser filhos
do pequeno comércio
da afinal tão pequena sorte grande de ser.

V

Pertenço a uma vida que quando posso não é
deste tempo.
A minha última inocência é dar
pão a pombas.
Noutro tempo antigas mentes assim faziam
assim se davam
a outra vida a que pertenceriam
se a pudessem
como eu não posso.

VI

Sou às vezes de uma árvore se ant’ela paro
para ser de alguma coisa, para pertencer,
como se, como uma árvore, ficasse e não fosse
só alguém que passa só, como sou
e passo.

VII

Uma rapariga não muito nova não velha ainda
esclarece o ar em torno mercê da pujança láctea
de sua mamária celulite sua sela de ancas
suas sandálias estremecidas a verniz de unhas.

Fala por cima do colo a garganta suturada
a anéis geodésicos a topográficas curvas de nível
e põe em tudo o que fala o nada que diz
valendo-lhe ser bonito o nariz.

Formosa fêmea a emprenhar por bancários
militantes do partido e do clube locais
do rancho e da banda e dos bombeiros
e de outras súcias que tais.

Foi o que nos deu o 25 de Abril
de 1143 1640 1820 1910 1926 1974.
Não estremece porém ela ao langor das guitarras
nem aos sinos das datas supra em sol.

É de noite, o sol dorme, a lua inerme.
Distraio e traio o olhar pelos projectores
que o município apontou a capelas e fontes
como se nada fosse comigo e não é.

Isto já era o futuro ontem. Não há aves.
Há lances zéfiros mínimos mínimas revoadas
de mínimos lixos pelas calçadas
dizem que terça-feira volta a chover.

VIII

Convoco por cerrada boca as antigas ânimas
que almas deram por dissimilação fonética.
Muito gostaria de rever quem nunca vi
por ter morrido antes do dia em que nasci.

Os meus e os vossos avós essas vozes
encostadas ao canto dos anos como bicicletas
que deixaram de prestar deixaram de servir
deixaram de falar e por isso de se ouvir.

Esta noite gostaria de os mortos viverem
um pouco mais deste lado antes de menos
sermos os que destes os saúdam ’inda
como fora a morte feia e a vida linda.

Como ’inda não enlouqueci
não espero resposta à convocação.
Mas gostaria que esta noite fosse o dia
dos vossos e dos meus Pai e Irmão.

IX

14 de Março de 2008 foi o
Dia da Incontinência Urinária.
Não posso concordar com a data.
Ao tempo que para aqui ando a mijar incontidamente versos,
deveria tal Dia ser a 8 de Maio.
Faço 44 anos.

X

Muito mais do que connosco
seremos parecidos um dia
com a casa que deixamos vazia.

XI

Agora
é tudo o que posso chamar à
hora.

Vê (vem) comigo:
a Capela da dita Senhora dos Remédios
que nada curou de curar ninguém nunca;
a súbita sombra no coração da tarde;
o súbito coração na sombra da noite;
o verso bonito que te comove sem remédio
como a dita Senhora:
a devolução dos cravos
a que procedeu o Fernando Jorge
dia 25 de Abril de 2008 em Vila Verde,
o Pai dele devolvendo.


vem
agora.

Agora
as coisas vêm e vêem.
Ando aqui a mijar versos para quê para quem?
Agora
é o tempo
o que implicamos nascendo
o que só explicando morrendo indo.
Lindo, lindo.

É tudo o que posso chamar.

XII

As baleias copulam procriam na água pois pudera
parem girinos nodosos como veios de madeira
os cantores fumam holofotes como jogadores
de campos pequenos de pequenos cantos.

A matéria dos sonhos é transpiratória
mais do que relevante.
Nos bares salificados a néon
gela o alicate do lavagante.

Bonitas são as noites a perder como meninas.
O gelo azula seus arredores como de costume.
As estátuas parecem vidro muito histórico.
Nunca temos nem dos reis nem de nós a certeza de quem.

Escrevo muitas vezes
Coração
por ser o que falha.
Olha o coração falhou-lhe dizem-nos de repente
de alguém que nunca nos falhou.
Tem-me acontecido. As baleias vão sempre ao funeral.

XIII

As damas maiores do nosso Teatro
tiveram também
por portuguesas
piolhos.
Acompanhou-as a chá de champanhe
o mesmo andrajoso
por português
barão nem bem nem mal nem por aí além
relacionado com o cônsul da Bélgica da Flandres.
Pagou-lhes na decadência
uma taça de branco
um càlicezito de ginja
algum onicófago de Moscavide.

O nosso Teatro
etc.

XIV

Envelhecemos quando nos revirginamos sem querer.
Acontece-me estar parado entre cervejas
como entre comboios entre estações entre horários
entre calendários.
Só rejuvenescemos quando nos devolvemos
às putas sábias que somos que sempre fomos.

Perante o curso do Rio o rio do Curso
nada nos adianta o dia ante nós.
Consabida lição é a perdição. O urso
etnográfico dá coimbrice não tem voz.


Envelhecemos ante o Mondego.
Razões de Estado terão presidido talvez
ao homicídio e ao pré-desassossego
do cru Pedro nu e da nua Inês crua.

Não sei.

Envelheço.
Pretendo envelhecer nobremente.
Não vou a tempo de ver o nome de certo alguém meu
atribuído a uma rua
que, como Inês nua,
mais a tenha merecido.

Muito temos tenho envelhecido.

Que me conste
nem foi
Inês
pela virgindade
que ficou.

Nem nós nem nossa voz.

XV

Caça as tuas lebres porque te ensinaram a matar.
Cuida um pouco da tua horta de hortênsias.
Cuida um pouco da morta, ajuda a pagar
o enterro. E fica p’ra receber as condolências.

Não cuides de teu idioma. Só porém ante doutores
do fisco, da vagina ou de estertores estende
cuidados antioxidantes, que nisto de falar com senhores
mais vale o ser entendido do q’o que se entende.

Esmaga as tuas minhocas, cerca tuas ratas.
Ele há ’inda bicheza em Portugal.
Loucos avençados botam fogo às matas,
mas tudo de que tratas é mui moral.

Caça as tuas perdizes torguianas.
Finc’até esfíncteres eugenianos.
Terás lançamentos todas as semanas
de versimunicípiossucessos anos e anos.

Nunca arrisques nada. Muito menos a Língua.
Encosta a teus ancestros o idioma.
A Viseu, indo-a, indo-a,
é linda a Língua, vê-se-lhe o aroma.

Caça as tuas lebres, não te caces nem coces.
Não t’atires a um poço de ínsua.
Muito te atempes, tudo te espaces:
vem de língua a Viseu, indo-a, vindo-a.

XVI

Nem sempre felizmente mas acontece
chegar-nos dupla gota de água do mar aos olhos
salgada como a tal água compete
às vezes acontece.

Há ocasiões banais quase até comercindustriais
em que até apetece: funerais e coisas assintais.
Outras não é o caso.
Outras é o ocaso:
no pôr, o sangrento laranjal do sol;
no meter, a oriental alba de pastorinhos e orvalhos.
Às vezes choramos como reses
em súbita consciência de matadouro.
Presidem-nos os olhos, o que é mau.
Residem-nos olhos, o que não é bom.
Uma mulher alta pode levar-nos a chorar.
Uma chuvada sem ser por nada também pode.
O valor de uns olhos anónimos não sujeitos a câmbio.
O comércio invencível das nossas mesmas mãos.
O fideputa que nos não dá emprego.
O fideputa que nos tira o emprego.
Os gajos que fedem a cultura de esquerda com tiques de direita.
Os gajos que tocam com a direita punhetas canhotas.
Os gajos que fedem.
Os gajos que fodem porque não podem
amar.
O pão das pombas – o pão das pombas pode fazer chorar.
Não o alegre prant’riste dos palhaços pobres
como o nosso português país.
Digo: o mar é gajo para nos visitar
em dupla pérola
os cabrões
dos olhos,
tão sujeitos
(mais do que nós, objectos, sujeitos)
a prantos
a marinho sal afeitos.
Pode acontecer.

E acontece.
Ainda ontem me.

XVII

Se tiveres filhas
navega-as como a ilhas.
Ilhas são – e boas.
Não por serem filhas
mas pessoas.

Avisa a navegação.
Avisa a navegação.

******

VIII. ALGUMAS CORES
Viseu, Café Paris, tarde de 5 de Maio de 2008

Meu colo é de ondeados rubros trapos coberto.
Açafrão colora-me a hepática unha, que o idioma
desculpa e recolora.
Viver, à vida não melhora.
Tenho, usando o que visto, vestindo o que uso,
um abuso da palavra morte,
mas ela é a mais justa, e mais lavada,
palavra de que me não
escuso.

Uso carmesim orelha
(é do coçar)
e p’ra mim roupa vermelha
nunca foi de não usar.

Tenho é cuecas pretas:
mas quando sonho, sonho com nuas violetas.

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