Wednesday, May 21, 2008

ORATÓRIA PENTAGRAMÁTICA DO ANDRÓPODE




Cabeça do Homem de Tollund


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Esta Oratória foi escrita em Viseu nas manhãs de 20 e de 21 de Maio de 2008



I. O ANDRÓPODE DAVID ANJO LARANJEIRA MENOS PASSEIA DO QUE PASSA PELA CIDADE DE SEU EXÍLIO E FALA PARA CLARA GENCIANA ANDRADE ex-LARANJEIRA

Sou ainda este homem cujo sujo de lágrimas rosto
não pôde nem pode, do teu, imitar-se, nem a ti
imitar-te por arte de desistir-te, de desistir
de ter-te, por sorte. Mas nem o esquecimento
que de mim te furte me há-de de ti tirar-te.
Segue pois comigo por estas exiladas ruas,
ao sol febril que à cidade torna dúctil e, digamos,
útil em expediente manhã de terça-feira,
em qualquer mês de qualquer ano, sempre este
derradeiro, aquele sempre novembro. Lembro
em todas as nenhumas mulheres a única alguma
que tive e tu foste. Se hoje, soro de estéril aguadilha,
choro leite em comuns valas de prostitutas,
essas nocturnas aves tristes e turvas e astutas,
a teu dentro amo adentro elas, não a elas, a quem
pago, mas a ti, que me não recebes.
Saberás bem que digo, quem digo e de que falo,
tu percebes.
Evanesço para desaparecer de ser, de ser-me inerme
e enorme na anã macrocefalia do meu coração
de ti povoado por indirecta oblíqua amarração.
Onde és, quando estás, com que vermes dormes ou dormirás
em vez de comigo seres estando dormindo acordada?
Responderes-me o não quero, pois que tudo quero seja nada,
como o é já tudo o que me hei no que há, em
exilada cidade.
Na minha idade, só da última infância, a velhice,
terei instância e constância: menino me retornarei,
idosa senil criança, em impuro poluto gozo de minha baba,
meu muco, meu ureico humor sifilítico
e artrítico. Também não cederei a nenhuma outra poesia
que à da movente e comovida hipocondria
dos como eu cornúpetos de córnea dor e nostalgia.
Vivo mais só do que morrerei, Clara, minha escura
luz na de pez vida minha sem ti minha.
E eu, posto que não teu, teu para sempre
na morte como na vida que, mais que viva, morta
em mim sem ti, por aqui, se cumpre.

II. TRATADO BREVE DE LUMINOTECNIA

A luz deste fim de manhã é pura louça
azul vidrada no meu mais castanho olhar:
conduz a luz (e qu’aqui ninguém nos ouça)
à clarividente vidência, Clara, do passar

só entre gentes sós que, como eu e tu e vós,
mais não podem do que cegar
perante a pura louça a quebrar
azuis águas, vítreas mágoas de todos nós.

Que bela luz! Que manhã belíssima!
Onde estaremos amanhã? Quem a nós nos conduz?
A afim luz desta manhã, enfim puríssima,
quanto nos cega de azulação alvíssima?
Quanta sombra somos? E quanta luz?

III. QUANDO EU TE FOR ONTEM

Um destes amanhãs não serei a tua manhã.
Reserva um pouco de noite no teu coração
para o ontem em que me te tornei.
Mas baila comigo um pouco ainda nos salões
de nossos pobres sábados em recreativas associações.
Frita ainda comigo a posta do red-fish
com arroz de espigos – e sejamos amigos,
além de homem & mulher perseguidos pela vida,
que mais viela nos foi sempre do que avenida.
O que me amas é quanto me chamas
pelo secreto nome de um gajo finalmente chamado
a nome de amado.
Gosto das tuas pequenas coisas espalhando a nossa casa
pelos continentes das nossas mais instantes horas.
Se pudesse não vestir-me de preto, teria uma camisa verde,
tão verde quão certos azuis de certas praias coralinas.
Regabofes, torrões-de-alicante, carrosséis, meninos & meninas
feitos & feitas por nossos corpos adentro um do outro, próprios.
Muito império exerce sobre um homem uma mulher:
falo da argentina qualidade das femininas unhas,
o nacarado carácter dos dedos preênseis,
o têxtil que pestanas aveluda,
o róseo morango do mamilo:
e da tonelada do nada de pensar pesado a quilo.
Não te serei importante ontem, mas amanhã
na tua infantil velhice:
Maria, Rosa, Clara, Dulce,
Teresa, Graça, Conceição, Alice.

IV. O ANDRÓPODE PÁRA PARA VER OS PARDAIS PRIMAVERANDO A BEIR’ÁGUA DO RIO DA EXILADA CIDADE

À beir’água já pipilam as breves aves portuguesas
que a primavera apardalam de castanhas asas.
Já o sol nos doura as vidas e as casas:
e nem tão certas parecem nossas mesmas incertezas.

É primavera. É quase junho. Pode até ser q’a’legria
nos roube à noite, nos ganhe ao dia.
Pode até ser q’a’legria
nos roube à noite, nos ganhe ao dia.

Nad’importa a vida, não morreremos cedo.
Tarde nos foi ter nascido, de alheio amor gerados.
Mas, já qu’aqui’stamos, não tenhamos medo.
Partidos todos seremos, nem todos porém chegados.

V. ENTRE HOMENS IGUAIS, NÃO DIFERE O ANDRÓPODE PASSANTE SENÃO POR COISAS QUE QUISERA DELA, CLARA, FOSSEM IGUAIS: OU DE TERESA

Nenhum dos teus homens poderá amar-te
sem o meu coração de ti utente.
Sem ele equivalerás à demais gente
feminina por muitos homens amada,

não por mim.

Por aqui, sem ti, m’evanesço e desapareço
entre homens a mim iguais
excepto na dor por ti, ex-minha de ainda-mim.
Laranjeira foste, ou te chamaram,
de que raro oiro de fruto raro
pude colher e acolher no plenilúnio claro
de meu escuro sol futuro
– agora.

Passo e passarei e decerto passei já
além do bojador do adamastor do amor
nada de ti me revirá
senão o tudo de ti que me perdi.

Não determino sequer
como pode um único homem perder uma única mulher.

Sou igual e ferido e diferido
no que
homem
tenho sofrido.

Agora olho colho e recolho das árvores o rio vertical
perfeita metáfora da água vegetal
que o animal Tempo é.
Pela cidade
desmontanho-me
de praias cuja claridade é glauca e louca
a cidade de alheias mulheres que nunca minhas quis
por nenhuma seres tu
nenhuma sequer
mulher matriz de todo o filho que todo o homem
que ama
na rua como na cama
se volve.

Nada te me devolve.
Embarco agora na corrente igualdade da
igual correnteza:
Maria, Rosa, Clara, Dulce,
Graça, Conceição, Alice, Teresa.

1 comment:

Afectos said...

É sempre um bom dia quando se lêem duas boas manhãs.