Friday, May 05, 2006

Montanha, uma Noite e uma Manhã

Noite

Nas terras não conquistadas ainda pelos hipermercados colossais, a ternura comercial é ainda vigente.
Num café frequentado de manhã por dementes mansos de lares clínicos e à noite por mim, demoro-me a inventariar os bens expostos no mostrador do balcão de jornais: rebuçados peitorais, pilhas, dentífricos, cremes de barbear, lâminas, cola, lápis, esferográficas, lenços de papel, flores, tesouras para as unhas, postais, preservativos, cêdês, batatas fritas, camisolas, livros, atlas.
O meu coração derrama-se, perante o rol. Gosto de ver as coisas do manso comércio. Mas entretanto faz-se noite.

Manhã

Sobrevivi ao vento frio que descia da montanha anoitecida. Regressei de manhã para seguir inventariando o manso comércio. Tomei café noutro estabelecimento. Era numa zona a descer. A casa tinha lareira, jornais atrasados (como todos) e duas velhas que escorropichavam o cálice de porto matinal dos resignados. Um zéfiro fresco teletransportou-me ao local. Penetrei. Havia um poster da equipa local, um azulejo benfiquista, garrafas amortalhadas de resina e um bolor de eternidade que empalhava o cão adormecido aos pés da lareira sem lume. Prossegui aí a minha felicidade serôdia. O meu casaco preto de cabedal foi apreciado com respeito pelo motociclista que mamava martinis consecutivos ao cotovelo do balcão.
Eu regressarei sempre.



Caramulo, noite de 4 e manhã de 5 de Maio de 2006

4 comments:

Anonymous said...

jornais atrasados (como todos); brilhante, fez-me sorrir.

Amélia said...

Estive ontem no Caramulo, onde nunca tinha estado. Estes textos dizem exactamente, dizem com palavras quero dizer, o ambiente que parece ter parado no tempo.

caldas à boca de sino said...

O Alexandre O'Neill chegou, por muito menos, ao prazer "oximorado" dos inventários. Fiquei sempre sem saber se ele chegou depois ou antes de ter partido.

BlueTraveler said...

Excelente retrato de uma zona lindíssima...