Thursday, May 11, 2006

Um Ajudante de Farmácia

Era por essa hora a que os autocarros, de tão vazios e anoitecidos, tornam idênticos, como gotas de água, a serenidade e o desespero.
Orlando Gil, ajudante de farmácia, seguia de autocarro. Viajava muito atento às ruas desertas de pobres-de-pedir. Era mais uma viagem ao desamparo das coisas sem escolta: o cinema fechado, a cruz verde-néon da farmácia pulsando nos plátanos, o taipal cerrado da tabacaria, nos beirais as pombas adormecidas como matraquilhos sem moeda, o livor gasogénio do rio, a mata púbica do parque, as urbanizações dormitórias da cidade nova.
Desceu na paragem correcta, entrou no bar correcto e foi atendido de imediato sem ter de dizer uma palavra. Ali esteve os decilitros de silêncio os suficientes até que a vida reatasse os nós da resignação. Pagou, deixou as boas-noites, caminhou quarenta metros até à pensão e imergiu no quarto como se o quarto fosse um rio escuro e vertical.
Sonhou com portas infinitas, sucessivas ao longo de um corredor apainelado de madeira. Eram como a existência: não tinham indicações precisas. “Empurre” ou “Puxe” – não diziam. No sonho, soube, sem vê-las, que havia uma mulher atrás de cada porta. Uma poderia ter sido a dele.
Acordou cedo, tomou banho e saiu. Caminhou muito, assimilando a manhã. Integrou a hemorragia escura que sulcava a praça de mármore branco: um formigueiro de gente vestida de preto, cinzento e azul-negro. E às cinco para as nove vestia a bata de ajudante de farmácia.
Às dezanove e cinco, já sem bata, escolheu algumas revistas caducadas da mesinha de espera da farmácia e trouxe-as. Nessa noite, não as folheou no quarto, preferindo guardá-las para um domingo de chuva, como veio a ser o seguinte.
Nesse domingo, sesteou. Deitou-se na cama e não pensou dormir. Cabeceou uma nova pista do mistério Lady Di e acabou por adormecer. O sono e os sonhos sucederam-se-lhe com a natureza do vento nos cedros. Depois, acordou para verificar o sítio do mundo. Era o mesmo. Sentiu ter envelhecido um pouco, como uma estrela ou uma pedra. Teve a certeza de que o vento não envelhece. Isso fê-lo sair do quarto. Andou os quarenta metros até ao bar.
Cada último domingo do mês, visitava a mãe no Lar de Santa Teresa, à rua do mesmo nome. Estava branca e quase cega, ela que fora morena e rara como uma virgem brasileira e vidente e rara como uma virgem portuguesa. Nos outros domingos, cedia à incerteza. Naquele em que sesteou, era fevereiro. Depois de dormir, esfregou a cara em mãos e água fria. Acalentou-se no bar com conhaque. Saiu para a cidade eclipsada de molha-tolos. A tristeza era tanta, que as pombas do município tinham mirrado à volumetria de pardais. O domingo era maior do que a vida, pelo que desceu a calçada do Colégio dos Órfãos, passou a Funerária Alho e a capela arruinada de São Nicolau, cheirou o mar apodrecido do mercado do peixe e desembocou sem remédio no alto da rua do Corpo de Deus. Aí, parou para acender um cigarro de pura autocomiseração.
Aos domingos, o emprego dele era dominar a tristura. O trabalho consistia todo em pensar que para se ter uma vida é preciso manter-se um corpo. E que só há uma vida e um só corpo.
Orlando Gil passou em frente à florista e acabou na fronteira de ar e vidro da Ferreira Borges com a Visconde da Luz. E aí continuou sentindo, com menor mágoa já, quanto o domingo é o país das pombas. Um músico de rua tocava para ninguém. À Portagem, um polícia autuado pelo tédio guardava a agência do Banco de Portugal. Do outro lado da praça, aos pés de onde o médico Adolfo Rocha manuscrevia os poemas e os diários de Miguel Torga, africanos e eslavos coçavam as virilhas dominicais. A única pastelaria aberta da praça engolia grupos de excursionistas ávidos de queijadas de Tentúgal e de pastéis de Santa Clara antes do regresso aos autocarros estacionados na Banda d’Além.
Desconhecendo que fazer de tanto tempo e tão pouca vida, Orlando Gil entrou para uma chávena de café. A chuva tinha cessado. Operou muitas coisas cerebrais simultâneas: café, Mãe, mulher, humidade, vapor, brilho.
Com a noite, havia a alternativa da prostituição em apartamentos para o efeito anunciados nos jornais da cidade ou em pensões esconsas da Baixa com mulheres recrutadas ao longo da Fernão de Magalhães, quando o anoitecer toma do Navegador os descobrimentos mais antigos do mundo.
Não teve de pensar na mãe para renunciar à hipótese de um amor de aluguer. Regressou de autocarro até à paragem correcta, reentrou no bar correcto e viu os resumos da jornada desportiva entre homens casados.


4 comments:

rui correia said...

Serafim Correia ou Orlando Gil é tudo a mesmíssima coisa. Ele to diria se te tivesse dito que foi ajudante de farmácia em Coimbra e fez tudo o que o outro, que não é senão ele mesmo, fez. Que coisa tão bonita de ler, sim, mas muito mais do que isso, também.

daniel abrunheiro said...

olha o Rui. isto é, o Iur: é a mesma coisa

figo eirense said...

Iur é tanto mais do que o Rui. Já to disse de tantas maneiras e não há maneira de meteres isso na cabeça, Dan (o castanho)...

Lunaris said...

Gostei :)