Wednesday, May 10, 2006

Pensão Acabamento

Era uma pensão vazia.
O tempo tinha passado, tinha levado as pessoas. Não havia outro tempo depois. Não estimaram as janelas, que se quebraram. Cada outono, folhas em revoada tinham entrado pelos buracos das janelas, acabaram de murchar nas salas, nos corredores. A pedra mantinha de pé a casa, como os ossos aos homens. Os quartos fechados fechavam nenhum sono.
Não já o alegre viajante comercial rompia o vestíbulo. Nunca mais a sopa encheu as terrinas de louça. Uma senhora-de-fátima aparecerá ainda aos ratos, sob uma mesa manca. O tempo acabou à porta da pensão. A inconsciente passarada rejubila no telhado. Automóveis rasam a portaria tossindo combustível e rastilhos radiofónicos. É onde acaba a ladeira e começa o parque. Do outro lado da rua, a insolente pastelaria pensa-se futura. O inverno é um cavalo d’água. De dentro da pastelaria, escrevo a pensão. Gosto da sua lição. Nunca é hoje, quando a olho, muito menos quando a escrevo. A esperança reside na rua: uma árvore de folha perene que, muito senhoril, subiu o vestido ao vento. Agora não há tempo. As pessoas foram levadas. Quando era, como seria?
A sopa fumegando nas terrinas portuguesas. As conversas comensais, a sisudez apócrifa da patroa. No fundo, um bom coração. O marido da patroa descalçando as galochas na cozinha depois de depositar na larga mesa de mármore os legumes e a mercearia. O filho de ambos a fazer-se médico em Lisboa. O avô que salivava obscenidades às criadas, as quais roliçavam as ancas nédias e as bochechas camoesas. O tempo havia. No pátio traseiro, a criação engordava de lavagem. Coelhos filosóficos picotavam talos de couve. O galo velho, muito sanguíneo, discutia sozinho. O cão sacudia com uma orelha os pintos. A porca toucinhava de pura saúde.
O meu tempo também acaba, excepto quando escrevo.





Caramulo, tarde de 9 de Maio de 2006

1 comment:

rui correia said...

Escreves louça portuguesa, Daniel. Essa é, até agora, a melhor definição que sei para o prazer que encontro, quando ando de x-acto a cortar, a ler e a colar e a reler, obediente e observante aquilo que sabes que corto e leio e colo e leio. Colo, isso também. Colo e louça. Portuguesa. Lindo.