Wednesday, May 24, 2006

Fundação Pessoal para a Alegria no Trabalho

Se o meu corpo tem memória, és a alegria póstuma dele.
O amor pode morrer, não o ter amado.
Não cederei à evidência trágica dos livros: fundamentá-la-ei, antes.
Isto é um modo de vida.
Amo-te mas fez-se noite.
Olho em volta: vejo homens assustados, acossados pela magreza luminotécnica dos cafés.
As mulheres em casa, grávidas, fazendo mais sopa.
O rumor terrível da aldeia: as vidas engaioladas, as vidas cheias de arames, móveis coxos, cascas de laranja, baldes sujos.
Não cederei ao terror do amor: elegiá-lo-ei, antes.
Estou agora muito mais vivo.
Tu também.
Estou agora muito mais entregue ao meu ofício – como um peixe à natação.
Na noite muito escura e pura, conheço o limoeiro, o poço fundo, o vento mineral.
Isto é tudo verdade.
Eu derivo.
Tenho um coração de cortiça.
Tenho uma alma neurotransmissora.
Num hotel da cidade do Porto, certo outubro, sentei-me a ouvir o pianista.
A música acontecia tão materialmente quanto uma pessoa ou um vaso com flores.
Figuras-Hopper tomavam cálices doces ao balcão.
Eu estava em serenidade.
Suponho que estava vivo, apesar de ti.
Depois, gerou-se a confusão.
Digo: o hotel evanesceu, conheci uma mulher, as luzes públicas sucediam-se sem respirar na berma da estrada.
O tempo mexeu as barbatanas.
Os dentes tiveram frio.
Um ventre chupava o outro, ultimatava-o de licor de leite.
Oh sim, eu fiz por sobreviver, claro que sim!
Exaurido, eterno, pessoal como uma rosa genética, abandonei o carro a tremer de calor.
Havia em frente uma parede onde tinham escrito uma obscenidade anarca.
Puxei as calças para cima.
Tartamudeei dois passos laterais.
A porta da sacristia estava aberta, alguém lá dentro remuneraria o padre.
Desci uma viela íngreme.
Fritavam toucinho algures, o perfume inquietava-me a mim e aos cães acorrentados em pátios submersos.
Talvez eu não mereça tanta beleza, sabes?
Estou como quem não quer a coisa, e vai daí um cinzeiro, um portão encarnado, uma unha roída, um aniversário infantil – tudo me comove tanto, Pai.
Foi para isto que me fizeste.




Caramulo, manhã de 24 de Maio de 2006

2 comments:

Anonymous said...

Identifico-me sorrindo... mas sempre que te leio espanto-me. Desta vez... emocionei-me... outra forma de expressar o meu sorriso.

Anonymous said...

Emociono-me e nao sei se sorrio ou choro.
De madrugada leio-te repetidamente com ganas de guardar-te para sempre na memoria.
Que loucura este texto!!! Como se pode dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras?
Desde aqui te abraco.
Beijos mil

Ilda
Buenos Aires