04/12/2008

A CRIATURA segundo Artur Portela + Hospedaria Camões

Aqui:
http://cumcreatura.blogspot.com/

E ainda:
http://www.hospedariacamoes.blogspot.com/

EIRA E ROUBALHEIRA - crónica nº 80 n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt)

Eira e roubalheira

Portugal é uma aldeia quase nada cristã mas muito católica onde o roubo é pecado e a roubalheira é uma virtude.
Disse “aldeia”? Queria dizer “quintal”. Não, “eira” é que é. Eira, roubalheira. E chuva no nabal. Nabal, Portugal.
Hoje estou chateado. Dói-me um dente, dói-me o siso, dói-me tudo. Estive ali na sala a ver o telejornal – e pronto, chateei-me. Com esta idade, ainda me não habituei às roubalheiras. Agora querem-me o IRS para sanear as canalhices dos banqueiros, as golpadas dos gestores de fortunas, as manobras orquestrais no escuro dessa escumalha tenebrosa e sinistra que nos infecta o dente, o siso e o nabal.
Ainda por cima, está um frio rijo, dói nos ossos o hálito de uma neve que nem neve é, mas geada de pobres. A parvónia tirita toda, os cães encolhem-se na rua como acordeões sem fole, as mulherezinhas da erva palestinam pelos caminhos muito curvadas, muito pré-históricas, muito fora do Google e do Paraíso e da Covilhã e dos conselhos de administração onde são tramoiadas as roubalheiras.
Eu queria ver o Jeremy Irons, mas só me saem júdices e balsemões. Eu queria saber astronomia, mas só me saem zodíacos e sousas-tavares e TVIquadores. Eu queria que me não doesse o siso, mas nem com copinhos de aguardente amorteço a gengiva.
Se vos pareço impertinente e quezilento, ainda bem: é quezília que supuro, é impertinência que me apetece.
Para piorar o cenário, só me faltava o Natal, a porcaria do Natal. Entristece-me a tristeza dos comerciantes dividindo o ar das lojas com as moscas. Entristecem-me as avòzinhas da erva, os nabos compatriotas e o catolicismo hipócrita cá do quintal. Perdão, cá da eira. Eira, roubalheira.
Bancos privados, “virtudes” públicas.
Resta-me pedir ao Arlindo da farmácia que me empreste um anti-inflamatório e um alicate. E um passaporte de coelho que me leve a dar, de vez, o salto para fora desta eira de ali-babás de colarinho branco-sujo.

30/11/2008

VIGILICONSTANTES - Poesia dramática para Vozes sem Corpo por aí Além


© Irving Penn
Three Rissani Women (1971)


Organização final: Souto, tarde de 30 de Novembro de 2008
Vozes: Souto, tarde e noite de 27 e manhã e noite de 29 de Novembro de 2008





I

UMA

As fundações da pessoa carecem de constante vigília.
No lar da mente, sobre a pedra mental, decorre o fogaréu perene da atenção aos díspares monumentos da vida: quase sempre palavras, certas peças de louça, certa inclinação arbórea para um rio que murmura.

DUAS

As madeiras da casa sonham bosques.
Os panos estabelecem distritos de sombra.
Há zonas ínvias, trilhadas ainda assim pelo miniatural amor às coisas e à vida.
Colectores de sombras de pássaros murmuram também: a vitrificação do mundo pela geada, por exemplo.
Outro exemplo: o teu nome dito com tinta branca.

UMA
Levanta-se a beleza de uma vez só na rua: as luzes azuis confirmando as negras, a saúde indeclinável da manhã e do frio, as palmeiras cifrando o crepúsculo – e um café duplo coroçoando a mão direita.

NENHUMA
Colector de sombras de pássaros, não enjeito um epigrama, como o não faria a um casaco de lã, chovendo no teatro como na rua.

II

NENHUMA
Por exemplo o teu nome dito com tinta branca, tinta de água da chuva, num dia cerrado, hoje, agora.
Por exemplo isso.
Quando hoje sair a colher ossos e olhos, terei a trazer ou não um nome?

DUAS
Museus ambulatórios, as pessoas:
Patologias
Cacos romanos
Mourning portraits
Avisos de recepção.
As pessoas:
seus passinhos cuneiformes como se de gaivotas no inverno das praias.
As pessoas:
encerram aos domingos perenes, sobretudo quando chove nas palmeiras.

NENHUMA
Constante vigília lhes doo.
E tanto me doo quanto doo.

UMA
Física, química e mesmerizada melancolia: tudo a lenha usa para arder, na pedra do lar.
E na pedra do teatro como na da rua.

III

DUAS
Tornámo-nos assim:
sombras fátuas, enxofradas, vilipendiadoras até das inertes belezas.
Consumpção mais que assumpção.
E palavrinhas-palavretas de renda de bilros, quando o que falta – era pano cru, pano forte, consútil embora.

NENHUMA
Pelos campos, as freguesias coalham ao soro do frio.
O nosso maior acontecimento diário é o boletim meteorológico, que a noite confirma em sono e em freguesias.

IV e Final

UMA
Constante vigília.
Apelar à fusão.
Receber da poesia a gravidade pueril da poesia.

DUAS
O hermetismo pueril da poesia.

NENHUMA
A inofensiva puerilidade da poesia.

UMA
Bahnhof-Bregenz: um comboio, seis comboios – que não tomarei.

DUAS
Desnecessidade de reconhecer naquelas pessoas, os embarcados, as pessoas de ao pé da porta, na vila velha, tantos países depois, cujo pelourinho arde de puro frio.

NENHUMA
Devassar incólume os espectros.
Exercer uma metrologia.
Tocar o rubi com a unha.
Noite quente, longe do mar, dentro de casa.
Na rua não.
Na rua nunca mais.

A UMA SÓ VOZ, TODAS
Nunca apenas mais ou menos.
Eus ambulatórios, as pessoas
carecem de constante vigília.
Vai partir.
Não tomaremos.
Não tornaremos.

28/11/2008

Ser Assim Chamá-las


© Jacob Riis - Home of an Italian Ragpicker (1888)



Casa, Souto, manhã de 28 de Novembro de 2008




Nunca as amámos nem amaremos como deve ser.
Elas sim a nós – e sucessivamente e a cada um mesmo
: como, a esmo, a folhas que, caídas, erguem o outono
do chão.

Fundimos a mãe e a concubina.
Chamamos-lhes mulheres, mal.

Deveria ser assim chamá-las
: lugar, lagar, paragem, garganta,
vaca, abelha, carmim, carne,
catarata, pomes, istmo, sufrágio,
vontade, cana, estrume, pevide,
rosa, chão, folha, outono.

Esquecemo-las em nome do pai.
Tornamo-las despojos da herança
: meia dúzia de cacos, o nome do meio abreviado,
uma praia de postal rasgado,
as gaivotas sumindo-se, pólipos ominosos.

Têm elas com Deus uma relação de criadas com o patrão.
Copulam com Ele, mudam-Lhe o óleo das barbas,
acendem-Lhe círios espermáticos, fazem-Lhe filhos,
remendam-Lhe as estrelas obsoletas do manto de mágico.
E nunca Dele dizem o Nome,
pois que também elas abreviam.

Nós entramos nos bares para arrefecer junto aos irmãos.
Comemos carne vermelha, integramos a corrente,
saltitamos de gelo em gelo, afloramos uma situação,
trocamos um pouco de cesário-verde por uma poupança-reforma,
cheiramos a cedro e a mijo de cão,
sabemos que os ciganos também têm mães mas desconsideramos
a evidência marxista da biologia,
um pouco de georges-duby por um pires de tremoços,

e quando a dor sobe à garganta
até telefonamos,
em dezembro
as chamadas para o além
custam menos
a passar
e

:rosa, chão, folha, outono.


27/11/2008

Terça-feira das Cabeleireiras: um postal português


© Sandra Bernardo
Coimbra, 21 de Outubro de 2008




Pombal, tarde de 26 de Novembro de 2008



Também as mulheres entristecem.
As cabeleireiras sem freguesas, vazias no salão.
As criadoras de gado, de crianças, de lírios:
brancos de cal de mortos seus rostos.
Os casamentos colados a cuspo genético:
as noivas que foram jacintos-de-água,
seus ventres verdes boiando à tona dos hipermercados.

Também a plástica doçura dos torsos entristece.
Revistas-caloríferos panadas de púbis raspados à lâmina.
Trepidações e comboios creolinando a terra cascalhosa.
O salão sem freguesas, a terça-feira das cabeleireiras.
O esvaziamento propiciado por tantas (uma só) terças-feiras.

Se uma vila usas que pelourinho tenha
à fósfora sangria do crepúsculo, como elas
podes entristecer em suavidade: o favor farás,
mínimo aliás, de registar como a velhice
lhes faz bem à beleza, como aves marinhas
se volvem, linhas do lápis do sal em o
pergaminho de seus rostos, essas praias.

E a azul aguadilha quase cega das avós
(as nossas filhas no futuro sem nós)
perto do lume que tosta e aura de ruivo ouro
o dorso da gata, o cobre da peça para a flor seca,
e a cobra da piça (flor seca também),

e a graça excelentíssima dos fala-sós abonados
de solidão, sacos de plástico e barbas de sebo,
nos jardins de Lisboa, nos jardins da nossa vida.
Também elas, sim, entristecem, lânguidas
em camas de repente o dobro de vazias,
isto de os maridos aprenderem internet
é tão pouco católico, tão gay, até.

O Portugal que todos quisemos para o século XXI
não era este: não este das mulheres tristes
em poemas sa(n)grados por um dos filhos
delas.


26/11/2008

Com Funcho



© Sandra Bernardo
Homem na Casa de Pasto
(Viseu, 2008)




Pombal e casa, 24, 25 e 26 de Novembro de 2008




Algumas vidas são suicídios assistidos.
Uma das minhas quatro mãos
(a que saúda)
celebra todos os dias o ouro da luz
e a prata do peixe no mercado.
Algumas vidas são mãos,
uma de cada vez,
quatro a quatro.



******



Dentro de ti está o teu coração,
dentro do teu coração está o cavalo
a que pertences.
Saúda-o.
Ele freme-te, ele é o vento feito couro.
Deves cavalgar, deves-te ser simultâneo areal
de tuas quatro mãos.

Não implorarás, não aluirás.
Dentro de ti mantém vivo o rapaz
que levas às festas no éter, na solidão
que pensa por ti dentro do teu anisado coração.

A glória e a graça pertencem, como tu, ao cavalo.
Arboriza-te em ouro vegetal.
Isto agora também já não demora muito.
Obliqua-te nas frias brisas, nos tépidos zéfiros.
Despenha-te em monção, em mistral.
Sê ambulatório arbusto da flora de Portugal.

Olha para mim sem ti:
este casaco povoado de corridas,
esta oftalmologia de anis,
esta crepitação tão cheia de misericórdia.

No coreto os soldadinhos tocam a música do chumbo,
tu sentes aquela eólica alegria dos desventurados,
à noite há fados no covil das minhocas,
frigem sardinha, servem caldo verde,
dizem mal da alegria e dos nascimentos.

A solidão do anis será legível muito mais tarde,
quando os lobos descerem à aldeia
com os teus filhos na boca.

22/11/2008

F. a História C.


© Sandra Bernardo
Peniche, 29 de Setembro de 2007





Souto, entardenoitecer de 22 de Novembro de 2008


Um homem conheço cuja tristeza toca a Lua.
É um inverso pára-quedista, por assim dizer.
Tem viajado por dentro de casacos em demanda:
de ventos coloridos como postais, de mulheres
furadas e brancas e metálicas como expositores
de postais.
Ele mesmo é, por assim dizer, ilustrado como
um postal.
A última vez que o vi, creio, foi
perto do Forte de Peniche.
Havia um incêndio para os lados últimos do mar,
era talvez o laranjal poente do costume.
Não sei dele.

Vim-me embora para aqui, o circuito comercial daqui
alberga cantoras negras
brother, can you spare a dime e fados afins,
gosto disto, por aqui também se toca muito a Lua.

Esta noite deve ser muito alegre porque é sábado,
as tristezas individuais juntam-se nos bares
e tornam-se, por assim dizer,
gregárias e gregorianas,
eu gosto de assistir a elas por dentro
do meu casaco.

Faz frio, os carros ruminam a sombra de olhos
mortiços, tudo fica por conta da escuridão mal
eles passam a caminho de suas luas domésticas
guardadas por cães naturalmente selenitas,
nas folhas do jardim o pó congelado aprisiona
as mariposas e a arte naturalmente poética
dos sodomitas dados à gosma e à gonorreia e
naturalmente à tristeza também.

Quando chego a casa, tenho estas coisas para dar
a ver, não é uma vida cor-de-rosa, a minha.

Faz hoje 45 anos que espetaram um ou mais balázios
nos cornos alegadamente católicos do djei éfe quei,
um senhor que se fazia passar por berlinense como
aquelas bolas açucaradas de creme amarelo que mulheres vendiam na praia ainda o Marcello Caetano nos conversava
em família.

Nisto, a Lua range como um fémur de violada
– e fica a história contada.

Uma Menina para o Futuro

© Walter Rosenblum - Girl on a Swing, New York, 1938



Souto, manhã de 22 de Novembro de 2008



Fada pobre de esconsos bosques petrificados,
teu voo de chita irmana o da seda.
Definitiva criança morta de sede à beira-mágoa,
risco de neve no pátio de carvão.

Corredora de décadas, pomba vencível, luz
dos olhos de algum futuro filho.

Em casa, o pai alcoólico, a mãe alcoolizada,
as aves carniceiras no beiral, os carros pretos
em baixo, as mulheres das compras, um magro
cão, três ou quatro cavalheiros de fato e chapéu
e soqueiras.

O futuro era isto, minha menina.

Saída de costume

Souto, manhã de 22 de Novembro de 2008




Sairás hoje de casa para ser uma sombra de ontem.
Secções da guerra tocarão ao lado tambores e ferros:
disso não cuidarás entretanto tanto quanto amanhã,
quando a doença e os filhos dos outros ladrarem as
encíclicas do teu envelhecimento, da tua afinal
impreparação para a vida, como se costuma dizer.

Hoje.
Sairás.

20/11/2008

Ronda Columbina, 20-XI-2008


das 19 às 21h00
87.6 FM
http://www.radiocardal.com/

Ronda dos Quatro Caminhos com Coro Alentejano e Orquestra Córdoba
Linda Ronstadt
Arcade Fire
Carlos Cano & Martírio
José Mário Branco
Claude Nougaro
Depeche Mode
Estelle
Léo Ferré
Anne Sofie von Otter & Elvis Costello
Joaquín Sabina
Joan Manuel Serrat
Nina Simone
Sting
João Bosco & Raphael Rabello & Paulo Moura
The White Stripes Elephant
Toquinho & Djavan

Cristalino Vicente - IV a VII

© Garry Winogrand - Utah, 1964

IV

Souto, manhã de 20 de Novembro e
Viseu, manhã de 3 de Julho de 2008



Cristalino Vicente adoece por quatro noites com seus dias. A febre ferve sonhos. Vê cavalos.

Pela alba, os cavalos rompem o rossio e adentram o parque municipal chamados pela sucosidade da erva arrefecida de orvalho. Saciam-se e tomam as ruas do comércio mais antigo da cidade, as mesmas por onde cada um toca a sua melancolia portátil. A alba dá vez a um azul quase completo: uma mulher solitária exceptua a branco o céu muito puro. Os cavalos correm como um só corpo, um só furor, castanho orientado pela voz colectiva do destino. Vejo-os correr da janela do meu consultório de ajuda espiritual.

Cristalino Vicente teme, na ressaca dos cavalos, a possibilidade de um homem dentro dele ter vivido fora dele: numa cidade com rossio. A improbabilidade do matador recrudesce na febre.



V

Tudo idem


Na segunda noite,

Pela alba fria, não são centauros, nem unicórnios, nem faunos – nem homens. São cavalos em tropel como batidas de coração na garganta, como palavras de metal no xilofone dos dentes. Vejo-os da janela da mesa do canto do café, onde atendo as pessoas desgovernadas que pagam para acreditar em amarração e desamarração, bons e maus olhados, potência e impotência, praga e benesse, virgindades negra e branca, desvio e aproximação, belzebu e vizinho do lado. E a angústia, vendo os cavalos, só me toma porque não fui capaz de prevê-los – como nada de facto prevejo (já tudo foi), pois que tudo já foi visto e feito e desfeito e esquecido e agora sonhado outra vez.


Na pedra do lar, cinzas. O olhar do cão espera o do homem, que fecha os olhos para a terceira noite.



VI

Ibidem


Na véspera dos cavalos, ele não é Cristalino Vicente, mas Manuel Damas, o espiritualista que finalmente recebe uma cliente. Três meses (trezentos anos) a fio sem que ninguém respondesse ao apito volante dos papelinhos que abandona sem esperança nos pára-brisas dos carros por toda a cidade – até que ela chama Manuel pelo telemóvel, aceita o pré-pagamento justificado pela magia supernegra de Xamã com laivos da superbranca de Olin. Aparece no consultório (“Há Tostas Mistas”) às nove da noite, pede um ice-tea e um pastel de nata e conta-lhe de o marido a ter traído com um colega de escritório. Nem perante tal evidência, ante tal claridade rutilante de epifania, Manuel Damas é capaz de prever os cavalos chamados pelo orvalho da alba.

Pela alba fria, não



VII
Idem e idem


A febre acaba-se como a escuridão, no catre de Cristalino Vicente. Mas Manuel Damas resiste, já que ela é


Ela é uma mulher mínima: um feixe de nervos cingido por um cinturão de napa. Calça mocassins dourados como as estrelas de papel-de-Belém. A cabecita oscila empalada por um pescoço de felosa. Mas os olhos são duros como vidro quebrado, enquanto as mãos arabescam a caligrafia da decepção e do conhecimento absoluto das maldades do mundo e do marido. Os músculos faciais fremem-lhe involuntárias frituras: mas nem assim me é dado antever que pela alba seguinte os cavalos nos vão tomar as ruas e a melancolia e o orvalho e todo o comércio humano.

Cristalino ergue-se, o cão Mondego lambe-lhe a mão direita, a mesma que o regressado Vicente leva à boca para inserir sob a língua uma pedra de sal, panaceia ideal para a contenção dos estremeções neuromusculares.

19/11/2008

Ratazanaria - crónica nº 78 para o Ribatejo (www.oribatejo.pt)


Ratazanaria

Para vos dizer ao que esta semana venho, tive de inventar a palavra que dá título ao arrazoado da crónica: ratazanaria.
Ratazanaria, entendo-a como a altanaria dos pobres de espírito. Manuela Ferreira Leite percebê-la-á como ninguém, sobretudo esta semana. Atiraram-se (e continuam a atirar-se) à garganta da senhora por causa daquelas palavras relativas à suspensão, por um semestre, da “Democracia”. São ataques ratazaneiros, os de dentro como os de fora.
A líder (?) do PSD quis ser figurativa, metafórica, irónica, lateral, cotejante, graciosa, fina, melíflua, entrelinear. Tramou-se. Ou querem tramá-la.
É um pouco triste, a ratazanaria de dentro do PSD: como se nunca tivessem ouvido os dislates pançudos do Jardim madeirense, as catilinárias higiénicas do Macário algarvio, as rés-chãs atoardas do Menezes gaiense, as irrelevâncias passarinheiras do Santana urbi et orbi.
Triste é também a ratazanaria do PS: terão eles ouvido alguma vez os inenarráveis éditos de um tal Manuel Pinho, ou a crustácea metafísica de uma (in)certa Maria de Lurdes, ou as teixeiradas do senhor Santos das Finanças, ou, ainda, os histriónicos embaraços mariolinológicos? Hmm?
Eu já sei o que vai acontecer em breve: o que vai acontecer é o Passos Coelho. Está tudo a fazer-se para ele. Incapaz de uma ironia, inapto para a brincadeira, fisicamente próximo do semblante nova-oportunidade, menino de muita jota-ésse-dê propedêutica, rapaz de razoável quilate vocálico, Passos Coelho is the way.
O problema é que, Coelho ou Leite, o PSD, em 2009, perde sempre. A não ser que fosse possível adiar os votos por, digamos, seis meses. Aí, assim, talvez: afinal, há quantos anos andamos a viver uma Democracia adiada de facto?


Ronda Columbina – 19 de Novembro de 2008 - na Cardal FM

Das 19 às 21h00

em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/

ALINHAMENTO PREVISTO
(não necessariamente por esta ordem)

Amália – O Céu da minha Rua
Ella Fitzgerald – Have You Met Sir Jones
Estelle – Come Over
Grooveria – When Doves Cry
Uxía, Marina Rossell y Filipa Pais - Hiru Damatxo + Behin Batean Loiolan
Lisa Ekdahl (with Peter Nordahl Trio) – Nature Boy
Luz Casal – Entre mis Recuerdos
Nini Rosso – La Canzone di Solveig (Grieg)
Tuxedomoon – In a Manner of Speaking
Paul Simon – God Bless the Absentee
Robert Plant – 29 Palms
Rui Correia – The Nearness of You (Hoagy Carmichael, 1937)
TV Theme – Verano Azul
TV Theme – Mission Impossible
TV Theme – Daniel Boone
TV Themes – The Avengers (Main Theme) - The Laurie Johnson Orchestra
Uxía – Alala Das Mariñas
Anna Moffo – Bachiana Brasileira n°5 (1964), de Heitor Villa-Lobos (1887-1959)

Dois Sonetos com Ai-de-Mim!

Pombal e Souto, manhã de 18 e tarde de 19 de Novembro de 2008


I. SONETO VOCATIVO E CONFESSIONAL

Também eu, ai de mim!, vocativo lances mágicos
e solertes criaturas e até gajas e gajos trágicos.
Vai tudo (ou tudo vem) da efectivamente-tradição,
do portantos-portugal, desavergonhada ignominiosa condição.

Dou-me muito a laranjeiras (a comícios, não)
e tenho nas livrarias ademanes sacerdotais.
Mas no fundo sou um pouc’alma sem tostão,
rara vez compro o Fialho, o Ramalho, o Brandão.

Se queres, ó medusa Beatriz, atira-me pena!
Ó não minha Marília, apieda-te-me devagar!
Sou o gajo da cegarrega e da açucena,
às terças matinais é meu uso aqui passar.

O mais que invoco, choco, quarentão,
é ’inda vir a escrever como o Fialho, o Ramalho e o Brandão.



II. SONETO TIBÚRCIO E CESALTINO

Tibúrcio Cesaltino, pai de filhos,
sou e me chamo. Al mais não reclamo.
Mas sonho que me ponho em os mil brilhos
da ribalta em cena, qual Adamo.

Segredo meu, lura e loucura minha.
Já me sonhei rodando, sevilhana
de todo, lantejoulando asinha.
Os filhos, vejo-os aos fins-de-semana.

Mais como eu outros haverá decerto
ao éter clandestino das vielas.
Carnudos cavalheiros, quais donzelas,
melifluindo luas longe e perto.

Nunca estaremos sós. Tibúrcios, sim:
mas cesaltinaremos, ai de mim!

Uma destas Manhãs

© Gordon Parks - Ingrid Bergman at Stromboli (1949)



Em casa, Souto, manhã de 19 de Novembro de 2008


Por toda a casa a cabeça remexe cantos e móveis.
Quem foi importante e porquê na casa, na cabeça?
Estes comícios sombrios, o rumor do padeiro ratando,
fora de portas, a canalização morseando as águas dentro,
a flama plúmbea da pomba, o acetinado da rola,
o cedro que arde ao ar e fica e sobe, estátua
de seu mesmo plantador.

Por toda a casa, a manhã feita nação do coleccionador de musgos,
juntador de caixas de papel plenas de vidros,
contas a lápis para a aritmética da borracha:
Vasco da Gama Fernandes em 1952,
Antero de Figueiredo em 1918,
Fausto Bordalo Dias em 1978,
Clara de Assis em 1193.

Pode ser a alegria, o tugúrio.
Pode não ser.
Um pouco de queijo na mesa baixa, o vinho tornado ontem,
a demanda por
Stephan Sinding, Mabet Funston, Madeleine Choiseul,
Carrier Belleuse, Virginie Demont Breton, Tyra Kleen,
Rodolpho Galli, Gloria Steinem, George Gray Barnard:
quem? quem? quem? quem? quem? quem?
quem? quem? quem?

A casa plena de cadernos onde a cabeça.
A Bergman em Stromboli, as velhas zurzindo-lhe o
Rossellini, a beleza sem cotejo que Estocolmo deu à luz
em 1915,
três anos antes de Antero de Figueiredo dar à luz certas
Jornadas em Portugal
(São Miguel de Seide, onde o infeliz Camilo,
Penacova, onde o infeliz Eugénio Moreira).

Estas coisas.

Um vivo é quanto basta para a glória dos fenecidos.
Retomador doméstico do mundo, suas barcas,
suas epifanias 8-milímetros, suas inscrições na pedra.
E a casa ser dessa pedra – e a pedra ser a síntese luz-terra.

Contar isto ao padeiro, uma destas manhãs.

18/11/2008

Jaculatória em quatro Décimas e uma Quinta ao Meu Senhor da Minha Infância com Referências Tácticas ao Irmão Doutor Sousa Martins



Para a Ana M. P. Antunes,
criatura que me topou perfeitamente um tal Camilo Ardenas






Lord, I am a surgeon
and music is my knife
it cuts away my sorrow
and purifies my life.

Paul Simon, God Bless the Absentee





Pombal, manhãs de 4, 12, 14 e 16 de Novembro de 2008




I

Olha-me, senhor da minha infância, que envelheço
– e nem sete e meia da manhã são.

Acordei hoje feliz, ó meu senhor da minha infância,
sonhei com nespereiras, respirei o ar que docemente
as viola, é bom acordar de pulmões lavados,
senhor da infância.

Ouço o cantar branco das louças, agora,
a rapariga do balcão é gentil como um lírio inclinado,
o rumor das formigas é engraçado, olha, senhor,
como levam as patitas às chávenas de café com leite,
como aproveitam os bolos, o açúcar.

Não longe, um prédio azul-claro espera advogados,
o dentista, a senhora do balde e da esfregona
– que idade terei quando baterem as oito
no sino que não há da igreja ausente?

Tanta, senhor, e tão pouca gente.
Senhora de casacão grená adquire pastilhas de mentol.
Cavalheiro de sobretudo creme (gola preta) boceja.
Metaliza-se o céu, vai chover na minha idade.
Uma família cigana enegrece a esquina do mercado.

Olha, senhor da infância, a beleza daquele velho
a cavalo em sua bicicleta velha como ele, que
formosa a rosa da sua cabeça única sustentando
o boné de padrão escocês – a que clã pertencerá
o venusto velho ciclista?

Redar-me-ei, hoje e enquanto me houver um sempre,
a rondas columbinas. Da escola de música,
dedos pequeninos emitem notas de piano, essa praia onde
a gaivota Chopin, o albatroz Schubert,
a andorinha Vivaldi, o corvo Monk,
meu senhor.

Rosto de gato: rapariga de jaqueta de napa
com botões de chapa dourada, dedos de fino estuque
com anilhas de pombo-correio, botins de pano francês,
lábio inferior seguro por argola de espúria platina
– quanta beleza, meu senhor da minha infância.

Estralejam isqueiros ante olhos fumadores,
em tão poucas pastelarias se pode agora fumar,
ele há leis muito estúpidas, são as oito e um quarto
– e estou vivo registando os pequenos lumes,
os olhos que fumam, a segunda-feira.

Morrer em vida é que não. Isso não. Recebo cavalheiros
e casais no salão do meu coração, este caderno
onde és presente como um relógio, dos de pêndulo,
que emadeiram o tempo, os anos matinais
e a minha infância que envelhece.



II

O pastor João levou os animais ao pasto e não voltou.
Voltaram os animais a sós pelo entardenoitecer.
O corpo do pastor João jazia esfaqueado por terra.
Longe (muito longe), na capital, banqueiros roubam.
As facas quase nunca são bem dirigidas.

Senhor da minha infância, o mundo não é
mais bonito, agora que não és
agora.
Tenho ouvido muitas coisas, palavras sobretudo.
Estas te digo, senhor.

Buganvílias presidem de cor a viaturas utilitárias.
Garagens com portão levadiço ferram casas.
Órfãos do comunismo branqueiam a esquina do mercado.
Um pouco de atenção basta para melhorar o mundo.
Sou feliz: nesperei-me em sonhos, meu senhor.

Uma vez, era um rio. Curso e corso: águas
da infância senhoreada pelo senhor, quando
o instante, um qualquer instante, era do
teor mesmo da própria eternidade. Creolina expedia
comboios rápidos, vinagre e moscas conviviam.

Olha-me, senhor da infância, que envelheço
– e nem meio-dia e meia é.

Pão quente em olor pela rua onde cobro e sofro
o avanço de uma desdita tão particular e tão geral
quão uma unha, uma unha de mão levada à boca,
esta terça-feira.
Expedem riscos as nuvens pluviais, agora.

Há um batente no latente coração que pensa mais
que bombeia.
Carcaças decepadas como manequins
pendem no talho do meu amigo Adriano, que
cumprimento para rememorarmos sábado.

Hortas inglesas de almanaque verdejam em minhas sinapses,
um prédio cor-de-salmão alberga lojas,
raparigas mal empregadas, pastilhas de mentol.
Hoje, ó senhor da minha infância, volve-se ontem
a cada verso.

É do mundo ser um palavroso: um animal
com vocação para o ruidoso silêncio: um par
de olhos castanhos, uma ortografia, uma pele
de crocodilo enroupando as vísceras, a ordenação
das estrofes e a louça branca.

Repassa o homem da bicicleta, o escocês.



III

A chuva torna levadiço o rio,
é uma quarta-feira.

Casal de mãe & filho, de negro revestidos ambos, em
marcha pela avenida sorumbática.
Não se vê João, hoje não, nem
o senhor da minha infância.
Um perfume a tripas, a estrofes, a remédio.

Cortiçam-se os rostos de uma espécie de
espeleologia: noite em pleno dia.
A mulher do carrinho-contentor recolhe as
oferendas, o tesouro público, papéis congelados,
maços de tabaco amarfanhados por amarfanhadas mãos,
folhetos do hipermercado, folhetos de professores
astroafricanos, olhos de vidro, dedinhos de crianças,
um cachecol do Sporting, uns óculos de sol
que não há.

Gosto da cabeça da mulher do carrinho-contentor:
é toda lenço (toda chita), aquela cabeça;
berlinde encefálico, bolita de passarito,
pérola pobríssima, excedente municipal,
ninharia cósmica, não altiva princesa de baixios,
de manhãs frias, colectora de nossas sombras.

Envelhecem-me as tripas, senhor meu
da infância que me não pertence
excepto pela palavra,
que em ouvir teimo, levadiça,
como tu levadiça e pluvial
como tu, meu senhor.

Ainda ontem:
acabara-se-me a noite, tudo o que tinha
não era mais que uns versos
de Alcipe,
aliás Marquesa de Alorna,
aliás D. Leonor de Almeida,
que morreu de velhice.
Casou-se com um gajo da Prússia,
eu não.

Era num shopping, como agora chamam
às espeluncas onzeneiras.
Uma venezuelana revoava, muito francesa, pelo
átrio do repuxo, em torno do que pasmavam
sentados os pastores da melancolia.
Eu lia.
Respondia Alcipe, aliás Marquesa, aliás Leonor,
a Natércia, dela amiga não filosofista,
antes sentimental.
Era ainda terça-feira, nem se estava ali mal.

Hoje não. Bulem-me as tripas, tenho tosse,
Expilo mucosas mariposas do cavername.
E, meu senhor, antes me nada assim fosse,
nem o tripeiro ranger, nem o ladrar macadame.

(Divirto-me, está visto, meu senhor.
Assim uma manhã discorrer pode um pobre, no
Café Esquina posto à vidraça como imprestável
móvel em montra de insolvente mobiliária.

O rio leva e disse.



IV

Os olhos daquele homem de família, olha, meu senhor,
que absorto e verde é o olhar daqueles olhos.
As pessoas são muito mais bonitas do que não crêem,
digo-to eu, meu senhor da minha infância.

Estou melhor, mas não muito, da tosse, é sexta-feira,
estou no Esquina a ver se o gajo com o Correio da Manhã
mo larga, já largou, afinal era uma gaja, elas
agora vestem calças e pulôveres como nós, sabes.
Estas palavras que leio, digo-tas, meu senhor:

VIDENTE A TRABALHAR COM DR. SOUSA MARTINS
pessoalmente ou à distância.
Um só telefonema pode mudar a sua vida!
Perdeu o seu amor? Ouro, sigilo.
Menina árabe 21 aninhos!! Zinco, desemprego.
Para não fazer mas sim para fazer.
Alfragide, Alentejo, Aljustrel, Alcochete.
Corroios, Évora, Peniche, Caminha.
Fresca ou conservadora: as duas coisas.
Liverpool, Vegas, Estoril, Wimbledon.
Inês, Sara, João, Xavier.
Iniciativa, Torres Vedras, balcão, Salvaterra de Magos.
Pesados e articulados: ministros e hectares.
Empresas sem dívidas aos bancos: oferece-se.
Tudo numa casa, como um carneiro.
Deverão possuir mãos de fada e propostas nacionais.
Chinesas e japonesas correm éditos em Ceira, Coimbra.
Valor inferior a um serrote marca BERLINEER HBP 500.
Anúncio dos Anjos locais comporta luxos próprios.
Conhecimento é um crime público que atende em privado.
Monterrey em Tallin, Azerbaijão em Dumbria.
Quatro meses e foi um inferno.
Paixão de Fialho custa um milhão.
Cumprir o ESCORPIÃO também.
Mais alternativas: à espera.

Cedo o jornal a um cavalheiro de casaco verde
que me soslaiolhava, estranhado, tanta cópia-caligrafia.
Tomo um hausto muito fresco, à porta do Esquina.
Saio.

Se alguma coisa amo, é este carrossel:
a ambulância, cuja passagem aos gritos alvoroça os velhos,
as inumeráveis folhas enumerando as árvores
(muitas se sustiveram outono adentro, ora inverno),
a notícia aromática desta senhora de luvas,
o decapitado manequim desgenitalizado,
a tostadeira a preço de rebaixa pré-natalícia,
o vento dando alto nas mansardas,
os varandins de madeira lacrados a sardinheiras,
uma menina toda vestida de verde (os olhos castanhíssimos),
a mosca triangular como um caça,
um maço de guardanapos visto de lado como um livro,
a negação gravítica da respiração da cerveja no copo,
um ser de casaco amarelo colhendo morangos,
(as laranjas, também de estufa, dourando a banca),
o cristo-rei de um poste de alta-tensão,
os meus sapatos camurçando a calçada azulibranca,
o tango dos passaritos pelo chão,
toda a renúncia e denúncia nenhuma,
os matrimónios-galheteiros vinagrazeitando as clínicas,
uma mulher a fumar sentada no muro do hospital,
um chinesito a sugar um tetrapak de leite achocolatado,
uma ideia simples na cabeça,
o médico que passa como se o levassem de andor,
o bêbado oficial da cidade gettysburgando aos peixes,
a unção ainda não extrema da melancolia,
o jogo de luzes de dois gatos assanhando-se,
uma folha de pedra cor-de-leite-creme,
as mãos do meu senhor da minha infância dele
(na minha cabeça infante, este exacto instante),
uma ânsia educadíssima,
covilhã-manchester-portuguesa-aveiro-veneza-portuguesa,
formosuras gordas nadegando esquinas,
viverei enquanto amar, DR. SOUSA MARTINS.



V

Olha-me, senhor da infância, que amanheço
– tenho ouvido muitas coisas, a chuva, os rostos,
os olhos daquele homem de família,
mais alternativas.

Acordei hoje açúcar, sou feliz, meu senhor.
Um só telefonema para não fazer.
Fresca espera,
um sempre.

A que clã voltaram os animais?
Olha-me:
a chuva torna:
de vidro os olhos.

Acordar não longe,
sou o pastor João
hoje,
meu senhor da minha espeleologia, num shopping.

Pequenos lumes, uma unha,
pão quente que não há quarta-feira.
Inês, Sara, sem dívidas, um milhão.
O tango dos sapatos pela cabeça.

Rondas de pombo-correio
pessoalmente ou à distância.
Levadiça Leonor, Natércia conservadora,
ontem.

A mulher do carrinho-bicicleta,
o verde-escocês do homem do tesouro,
pérola inferior a um serrote
princesa de Ceira, Coimbra.

Ainda a cavalo nas tripas,
a tosse de olhos castanhos,
tudo numa casa,
nem se estava ali.

Casal de moscas, estrofes de vinagre,
um pouco de atenção aos órfãos,
a ordenação da Prússia
e estas que digo ao meu senhor:

o DOUTOR SOUSA MARTINS lá está
no Largo Mártires da Pátria,
que foi Campo de Santana e da bola,
coitado, todo dejectado de moscas, pombas e orações,
a Marquesa de Alorna, não sei onde está,
sei que viveu uma data de anos e depois deixou-se disso,
as sardinheiras rutilam altas nas mansardas ’inda,
a gripe catarra as manhãs de alcatrão pessoal,
quem me dera lavar tudo, pulmões, coração, laranjas,
meu senhor da minha infância,
infância minha afinal mais tua que minha,
que mais é de pai & mãe, porque a ganham,
que do filho a infância, porque a perde,
assoo-me a livros como a lombadas de guardanapo,
o território nacional é sobrevoado por caças e por moscas,
continuo a gostar das bicicletas artesanais dos homens,
da revolução proletária ambulante de toda a mulher,
mesmo as que fumam, mesmo as que usam calças,
mesmo as que casam gajos da Prússia,
mesmo as que nunca ouviram Thelonious Monk,
às vezes dou por mim a pensar no pastor João do jornal,
um velho sai com os animais e não volta,
coisa que aliás me fizeste também, meu senhor,
e nem no jornal saiu coisa que se visse,
teria como eu degustado o castanhíssimo dos olhos
daquela menina toda verde em outra manhã,
o mundo aí o temos todo para serrar em versos
como serra o pão um tal Cristalino Vicente
que ando a compor por ócio e melancolia,
não sei pintar mas não há cor que me escape,
o preto da tinta, o branco do papel,
isto de me chamarem agora nas lojas, também,
senhor e Daniel,
meu senhor da minha infância,
ainda ontem.

Criatura nº 2











17/11/2008

Estes também

Estes sítios também são muito bons:

http://o-zero-absoluto.blogspot.com/

http://oregabofe.blogspot.com/

e já estão nos Links da Malcata, claro.

Ente Lectual

A partir de hoje, nos Links da Malcata deste sítio, http://entelectual.blogspot.com/.
Vale a pena seguir.

16/11/2008

Os Estados Unidos e a Crise Internacional sobre fundo de Castanholas de Gelo

Uma senhora minha amiga gosta muito de chocalhar as pedras de gelo do gin enquanto canta


Agora que o bandalho se foi embora
vamozaver o que o preto faz

e depois o marido vem buscá-la e não se fala mais nisso.

Canzoada Assaltante