Saturday, June 30, 2018

MANHÃ TODA SCALABITANO-COIMBRÃ - Rosário Breve n.º 560 in O RIBATEJO de 21 de Junho de 2018 - www.oribatejo.pt






Manhã toda scalabitano-coimbrã



1 
Às 9h33m da manhã de sexta-feira, 15 de Junho de 2018, cheguei à paragem-de-autocarros que fica ali ao sopé do restaurante chinês e da escola de dança. (Nota: a mesma paragem do desmaio da rapariga grávida que consta da crónica de 7 de Junho passado.)
Abordou-me então uma senhora já outonal, já provecta, já mais lembrança do que planeamento: “ – O senhor sabe dizer-me se temos autocarro daqui a pouco?”.
Eu sabia: “ – Só daqui a dezassete minutos, minha senhora.”
E ela, muito expedita: “ – Então vou indo a pé, que tenho consulta no centro de saúde para renovar as receitas na minha médica, fui há dois meses operada à tiróide, sabe?”
Eu não sabia. A dita paragem alcandora-se a um íngreme cimo de ladeira, pelo que todos os santos nos ajudaram, a ela & a mim, a ir descendo. A senhora não era tagarela – era interessante, pelo contrário. Muito interessante, aliás: antes dos primeiros semáforos, já em terreno plano, aprendi ser ela uma senhora nascida & criada em Santarém (“ – Perto da Escola Agrícola, sabe? ”) mas radicada em Coimbra há para cima de quarenta anos. Eu quis saber porquê.
E ela: “ – Ora, porque o meu marido era de cá, morreu muito novo, tinha 57 anos só, foi do cancro no pulmão, mas em novo foi interno dum colégio em Tomar, nas licenças vinha aos bailaricos em Santarém – e foi assim.”
Aprendi mais: viúva ainda não velha, trabalhou muito para criar os três filhos como manda a sapatilha – dois são formados e estão bem postos na Função Pública, o terceiro trabalhava com o pai mas pela morte deste decidiu ir para Londres, onde também se acha senhor da própria vida com casa, mulher & filhos. Fiquei a saber ainda duas coisas mais.
Primeira coisa – Certa vez, ela foi a um médico-especialista (não perguntei de que especialidade, há sempre que ser cavalheiro). Vai o médico gentilmente assim para ela: “ – Então que faz uma senhora scalabitana cá por Coimbra?”.
E ela: “ – Ora, senhor doutor, o meu marido era de cá, morreu muito novo, tinha 57 anos só, foi do cancro no pulmão, mas em novo foi interno dum colégio em Tomar, nas licenças vinha aos bailaricos em Santarém – e foi assim.”
E o gentil doutor assim para a gentil viúva: “ – Sabe a senhora?, também sou de Santarém, sou filho do doutor Manuel(…), que toda a gente do seu tempo conhecia por lá.”
Claro que ela reconhecia o dito clínico santareno, garantiu-lho. E ambos se sentiram migrantemente felizes pela coincidência natalícia que em terra emprestada os reunia.
Segunda coisa – Aos dezassete anos, esta jovem hoje antiguecida esteve para ser toureira. Teria sido fresca novidade, à época. Por pouco não rompeu o marialvismo macho da cornúpeta tradição. O senhor Celestino G. achou muito bem. Chegou a correr publicidade por jornais e rádios a estreia da menina lidadora de redondel. Só não aconteceu porque o senhor pai dela, pretextando não lhe poder (ou querer) comprar os sapatos mágicos indispensáveis ao toureio, a ter na prática interditado de tal brava aventura. Todavia, foi sem lágrima coagulada na voz que me relatou isto assim: “ – Foi o que foi, passou-se assim, está & é passado.”
Chegáramos entretanto à porta do centro de saúde. Agradeceu-me a companhia & a audição. E saiu-se-me com esta matadora finalização: “ – Agora veja lá de que maneira vai o senhor apresentar isto nO RIBATEJO…”

2
Julgais que o scalabitanismo da minha manhã coimbrã se ficou por aqui? Se sim, mal julgais. É que, já pela hora de almoço, vim a casa saber se me sobrara sopa da véspera. Antes, abri a caixa-de-correio. Suave maravilha: dentro, morava um envelope grande & fofamente blindado. Era um livro. Este livro: A Única Coisa que Fiz Foi Viver, memória autobiográfica do Dr. Pedro Canavarro (em diálogo com Yann Araújo). Ainda não chegara a tarde e já o meu dia estava duplamente ganho.
Da minha minuciosa leitura desta obra V. darei conta na próxima edição. Palavra-da-salvação.

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