Thursday, May 31, 2018

FARTO DE SANTARÉM (?) - Rosário Breve n.º 557 in O RIBATEJO de 31 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt








Farto de Santarém (?)



Em uma manhã que só não se fez perfeita por cometer, ela, o pecado de parecer perpétua, fui feliz como um passarito saciado. O caso foi que, a tempo & horas, me remuneraram generosamente por certo trabalho de escrita algo trabalhosa, pois que de muita letra. Massa no bolso, fui logo almoçar fora. Enfardei toda uma gamela de cozido-à-nossa-pátria-maneira, atulhando-me de enchidos que, garantiu-mo outrora um médico sisudíssimo, são o terror das próstatas cinquentenárias, como é o caso da minha. O serviço foi-me feito pelo Manel, empregado-de-mesa que sofre muito da hérnia inguinal no lado esquerdo do coxear. Sim, foi uma manhã radiosa, durante a qual estar vivo não me pareceu tão mal quão de costume.
À saída da casa-de-pasto, e aquecida a algibeira pelo troco da nota gorda, passei por uma pandilha de corvos perpendiculares que são os capas-&-batinas cá da parvónia. Passei também pela praça: no mercado coberto, benignamente infestado do acre perfume do peixe quási-vivo, zoava a humana algaraviada colectiva de vendedores & compradores, zoeira que me lembrou aquela frenética, aquela eufórica chilreadeira dos pardais nos plátanos do entardenoitecer, hora a que Deus os obriga a algaraviar gratidão & louvor a Ele mesmo, Sumo Criador das Asas Canoras.
Ainda de palito mordido ao canto da beiça, ambulei erraticamente pelo deserto do centro dito histórico (mas afinal velho apenas, por incúria dos mandantes da urbe & por inércia dos mandados do orbe): sapatarias descalças, relojoeiro-ourivesarias ora sem ouro nem hora, mercearias assombradas por fantasmas de fregueses que já vieram mas não voltam já, igrejas encerradas ao culto, ao turista & à beata local, amailos Cafés às moscas – resultando o tudo disto no todo arrasado a quási-nada. Todavia, não permiti que tal ermo me melancolizasse: nem sequer ante a visão de um sem-abrigo que vasculhava abutremente as entranhas de um contentor de lixo. De facto, eu, pleno como um odre, só pretendia ajudar a digestão cirandando aos ziguezagues pelas ruas ainda mais estreitas por obra & desgraça dos carros estacionados nos passeios esburacados. Assim fiz.
Para ajudar ao flato & ao arroto, entrei numa das derradeiras tabernas à portuguesa do mundo, nela mamando um alto quartilho de gasosa. Comovi-me, então: nas prateleirinhas ingenuamente esmaltadas a escarlate, a verde & a amarelo republicanos, refulgiam, à sombra do boneco Zé-Povinho-do-Manguito-Queres-Fiado-Toma, o terno pacotilho de bolacha-baunilha, a pragmática latita de sardinhas-em-molho-de-tomate, a botelha de ginja e a de anis e a de ponche e a daquele porto mais barato que sabe sempre a vinagre com açúcar-amarelo. Ante tais, tantas & tão singelas maravilhas, apeteceu-me logo ser português até morrer. De tanto sentir-me, acabei por sentar-me um pouco. O mesmo é dizer que acabei por comer qualquer coisita a pretexto de beber qualquer coisona. Davam já as quatro da tarde quando me refiz às ruas, de novo pós-prandial que nem roxo & grosso abade.
Impusera-se entretanto à Cidade uma daquelas “tardes claras em que a humidade serve de lente”, como em 1908 escrevia o senhor Conde de Sabugosa, esse mesmo que aludiu à “prata líquida do Tejo”. S. por S., ocorreu-me então o bom Sá, o humaníssimo Sá de Miranda: “Isto que ora ouvis de mim / Não sei se ouvireis de alguém. / Buscai, perguntai sem fim / No desejado Almeirim / No farto de Santarém.
Excelente ocorrência me foi essa. Contentemente fatigado das gâmbias, sentei-me à borda-d’água para, em sossego, fumar pela minha rica saúde. Escrevi ali duas linhas: Passo o tempo a ver o rio. / O rio vê o tempo a passar-me. Recordei outra já ontem antiga: Sou mais um de nós num convosco de ninguéns. Escrevi mais duas frescas: Felizes, os que podem ser esquecidos. / Felizes mais, aqueles que não lembram. E mais uma ainda: A saudade é uma fome que nunca dá em fartura. Todavia, reciclei esta última sentença no seguinte decassílabo: Saudade é fome que não dá fartura.
E foi assim que dei por mim ante o profundo sentido de “farto” que Sá de Miranda deu, como eu uma vez por semana intento dar, por e de mim, a Santarém & a Almeirim.


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